No Dia da Consciência Negra, a comentarista Jordana Araújo usou seu perfil no Instagram para transformar denúncia em posicionamento. Após receber um ataque racista por mensagem privada, ela decidiu expor o caso, e o agressor, em uma publicação que ganhou grande repercussão. “Eu não vou parar”, escreveu a jornalista. E não vai mesmo.
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A violência, afirma, não é novidade em sua trajetória. Questionada sobre o que a sustenta para transformar dor em ação, Jordana é enfática.
“Eu acho importante trazer que o racismo atravessa pessoas pretas todos os dias. E isso já me adoeceu muito. Crises de ansiedade e até mesmo um episódio de depressão estão na conta de gestos, ações, ofensas explícitas e veladas. Com o tempo eu fui criando estratégias para sobreviver. A psicoterapia, os cuidados com lado espiritual, além do apoio da minha família e amigos, foram ferramentas fundamentais para eu fazer essa construção de segurança emocional”, diz à revista ELA.
Jordana explica que sua força também é moldada por experiências anteriores e pela urgência de transformar estruturas.
“Na Jordana que muitas vezes paralisou diante dessas situações e que depois de dias chorou ou ficou doente por conta disso. A força também vem na ânsia de mudar esse cenário para quem está vindo. São séculos de apagamento e silenciamento de dores profundas. A gente precisa ressaltar que a população negra está inserida em uma estrutura que não vê com bons olhos o caminho da ascensão e que na maior parte do tempo vai usar esses ataques como uma tentativa de nos parar e silenciar. Portanto, a gente não pode parar”, afirma.
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Inserida no jornalismo esportivo, ambiente historicamente dominado por homens, ela observa que sua presença ainda provoca estranhamento. E, justamente por isso, permanece.
“Ainda é um processo doloroso, mas que a gente vai buscando força ao longo do caminho. Inegavelmente evoluímos muito nos últimos anos no que diz respeito a diversidade de gênero. Em 2004, quando eu decido ser jornalista esportiva, existiam pouquíssimas mulheres atuando. Hoje é muito legal olhar para o lado e perceber que a presença feminina aumentou, mas quando fazemos o recorte racial, fica claro que ainda estamos em falta. E isso acaba refletindo em uma série de desconfortos que aparecem em olhares com tom de estranheza e comportamentos replicados a partir da premissa de pouca circulação de mulheres negras nesse espaço. Já perdi as contas de quantas vezes precisei comprovar mais de uma vez, no mesmo dia, que eu era comentarista ou repórter em uma cobertura esportiva. É doloroso, mas a gente segue para que as próximas gerações consigam se enxergar nesses lugares e fazer da nossa presença uma parada cada vez mais comum”, destaca.
Ela também chama atenção para o simbolismo da estética negra, frequentemente alvo de controle: “A Jordana que aparece na GETV, na Globo ou no Sportv é a mesma fora delas. É a mesma que não é tida como o padrão aceitável para estar ali, mas que vai continuar resistindo.”
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Ao discutir a responsabilização, Jordana aborda falhas das plataformas digitais e limitações da imprensa no enfrentamento ao racismo.
“O racismo é um crime que premia quem o comete justamente por essa pergunta que você me faz. Eu já perdi as contas das vezes que silenciei situações vividas justamente por não encontrar suporte ou pelos questionamentos em relação às provas. A violência acaba sendo potencializada. As redes sociais e a imprensa são ferramentas importantes nesse combate, mas ainda existem falhas. No que diz respeito às redes sociais, ainda encontramos bastante dificuldade para identificar e punir. Há dois anos eu sofri um ataque parecido com o que expus recentemente, o agressor excluiu a conta e nada pôde ser feito porque ele excluiu a conta. Em relação à imprensa, enquanto comunicadores e formadores de opiniões, precisamos aprofundar o debate e não só quando os casos ganham repercussão. O racismo tem várias vertentes: estrutural, velado, recreativo, institucional… Ele precisa ser objeto de estudo para deixar de ser naturalizado”, observa.
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Ao refletir sobre sua atuação pública, a comentarista reconhece o impacto que exerce e a carga emocional que acompanha esse papel.
“Essas afirmações passam pelo contexto familiar, mas também pela responsabilidade de saber que algum dia alguém vai me ver e entender que é possível chegar, assim como eu vi a Glória Maria, a Rafaelle Seraphim, Karine Alves, Zileide Silva, Dulcineia, Luiz Teixeira, Marcos Luca Valentim, Elton Serra, Pedro Moreno, Cynthia Martins, Débora Gares, Denise Thomaz Bastos e vi que era possível também. Eu gostaria de usar essa resposta também para dizer que não é confortável estar nessa posição de luta. Não queria no dia 20 de novembro estar falando de dores, de mais um caso de racismo que me atravessou. E te garanto que nenhuma pessoa preta também quer isso. Em março desse ano, eu estava em uma transmissão de futebol em que o Luighi, atacante do Palmeiras, sofreu ataques racistas e precisou fazer duras cobranças sobre punições chorando diante de uma câmera. Eu do outro lado, também chorando, precisei reforçar a importância do posicionamento dele, mas também falei sobre o tamanho da crueldade que era um garoto de 18 anos ter que fazer isso. É cruel e cansativo ter que lutar pelo básico. A gente só quer ter o direito de exercer e fazer o nosso trabalho, ter qualidade de vida e paz”, declara.
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