— Alguns dos nossos moradores estão se sentindo um pouco incomodados, pois acreditam que poderiam estar vivendo em paz se não fossem esses turistas — disse o prefeito de Biei, Hiroyuki Kakuwa, ao jornal Asahi Shimbun. — Nossa cidade não estava buscando esses turistas que, mesmo assim, aumentaram desproporcionalmente.
Biei é um dos cada vez mais numerosos exemplos de cidades e países que enfrentam um dilema complexo na Ásia: ao mesmo tempo em que precisam do dinheiro do turismo — especialmente dos estrangeiros — os impactos causados pelos visitantes estremecem as relações com os locais e até servem de combustível para discursos xenofóbicos.
O caso do Japão talvez seja o mais emblemático pelo salto recente no número de visitantes. Antes da pandemia, a quantidade de estrangeiros mais do que dobrou entre 2014 e 2019, de 13,4 milhões para 31,8 milhões — com as fronteiras reabertas, a tendência se manteve e, em 2025, a expectativa é de um recorde de 40 milhões. Até agora, estrangeiros gastaram 6,92 trilhões de ienes (R$ 240 bilhões).
Para 2030, a meta é receber 60 milhões de turistas.
— Os governos têm muito interesse em ampliar o turismo, porque isso é uma entrada de divisas. As pessoas vêm, gastam, estimulam a economia. Então, quando você olha pela macroeconomia, isso é interessante — afirmou ao GLOBO Alexandre Uehara, coordenador do curso de Relações Internacionais da ESPM. — Mas as localidades e as populações que recebem esses turistas muitas vezes acabam sofrendo efeitos negativos, como os impactos no meio ambiente, na vida da população e no custo de vida local.
No boêmio distrito de Shibuya, em Tóquio, visitado por 62% de todos os estrangeiros que estiveram no Japão no ano passado, as autoridades e associações de moradores apostam em campanhas sobre regras de convivência, como não jogar lixo no chão e, em uma medida adotada em 2024, não beber nas ruas à noite.
— A rua se transformou em algo parecido com um bar — disse o administrador de Shibuya, Ken Hasebe, em outubro do ano passado. — Não é isso que nossa cultura representa.
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As latas de cerveja não são a única dor de cabeça das autoridades. Para garantir as selfies, turistas bloqueiam calçadas e ruas e colocam as próprias vidas em risco: em Otaru, uma turista chinesa morreu ao ser atingida por um trem em uma linha férrea. Em Fujikawaguchiko, foi instalada temporariamente uma tela no terraço de uma loja de conveniência para impedir que os turistas continuassem a lotar o local para conseguir fotos do Monte Fuji.
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Em Kyoto, antiga capital e uma das cidades mais visitadas do Japão, foi aprovada uma nova taxa de turismo que pode chegar a até 10 mil ienes (R$ 343) por noite. Ali, moradores reclamam dos congestionamentos nas ruas, das calçadas lotadas e da falta de modos de alguns dos visitantes.
— Nas áreas que recebem turistas, é difícil mudar significativamente seu comportamento — afirmou ao portal Mainichi Yosuke Ishiguro, da Universidade de Hokkaido. — Mas, se os problemas persistirem, reduzir o número de turistas se tornará inevitável.
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Muito antes dos conteúdos instagramáveis, a praia de Maya, na Tailândia, foi invadida por turistas após servir de cenário para o filme “A Praia” (2000), estrelado por Leonardo DiCaprio. Sem estrutura, sem regras e sem respeito ambiental, o ecossistema ficou à beira do colapso, e as autoridades tomaram uma decisão radical: fechar Maya entre 2018 e 2022. A praia fica em um parque nacional, cuja entrada custa 400 baht (R$ 65) por pessoa.
— Creio ser importante regular o fluxo de turistas. Fica um pouco mais caro, mas é importante para a preservação do local — opina Uehara. — Se não houver um certo controle para manter a sustentabilidade do meio ambiente, daqui a algum tempo esses locais podem deixar de ser atrativos para novos turistas.
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Também na década passada, o governo das Filipinas determinou o fechamento por seis meses da ilha de Boracay, chamada pela revista Condé Nast Traveller de “símbolo do turismo abusivo”. Mais de 400 estabelecimentos foram fechados e construções à beira-mar demolidas. Recentemente, as autoridades de Bali, na Indonésia, começaram a derrubar propriedades na popular praia de Bingin, sob alegação de irregularidades. Moradores dizem que a medida tem mais a ver com novos empreendimentos voltados ao turismo de alto padrão.
— Os empreendimentos saíram de controle e as pessoas ficaram gananciosas — afirmou Mega Semadhi, surfista profissional nascido e criado em Bali, ao jornal Guardian. — Se eles vão reconstruir, queremos que seja feito direito. Para resgatar a essência de como era no início. Se perdermos este lugar, toda Bingin sofrerá.
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Por enquanto, protestos contra os turistas, como na Europa, não são comuns em cidades asiáticas. Mas na Coreia do Sul, onde a expectativa é ultrapassar em 2025 a marca de 20 milhões de estrangeiros, o turismo em massa serviu como combustível para a xenofobia.
Nos últimos anos, o sentimento anti-China disparou entre grupos nacionalistas. Em setembro, após a decisão de Seul de não exigir vistos de grupos de chineses, turistas chegaram a ser agredidos verbalmente em locais como o bairro de Myeong-dong, o preferido para as compras em Seul. Alguns cafés, citando o “comportamento inadequado” dos chineses, proibiram sua entrada.
A pressão, até agora, não deu resultados: segundo a plataforma de viagens Qunar, a Coreia do Sul desbancou o Japão como o principal destino dos viajantes na China em novembro.

