O espaço é tão nobre que, até meados da década de 1970, abrigava um palácio. Na extremidade da Avenida Rio Branco voltada ao Parque do Flamengo, a Praça Mahatma Gandhi tinha tudo para ser ponto de encontro e descanso de frequentadores do Centro. Mas não. Há anos se resume, quando muito, a lugar de passagem. Vive vazia. A maior expressão dessa sensação geral de abandono é o Chafariz do Monroe. Feito na França e comprado por Dom Pedro II em uma feira na Europa, chegou ao Brasil em 1878. Coisa chique. Enfeitou primeiro a Praça Quinze, até 1962, e depois a Praça da Bandeira, onde ficou até 1979. De lá, foi transferido para o ponto atual, ocupando o terreno onde antes estava o demolido Palácio Monroe, de quem herdou o nome. É o maior chafariz do Rio, mas impressiona só de longe. Quem chega perto se espanta com a quantidade de lixo e o mau cheiro. Os tanques estão vazios. Das bicas não cai uma gota d’água.
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O problema é que o Chafariz do Monroe — onde até os anjos de mármore foram vandalizados e um deles teve a cabeça arrancada — está longe de ser exceção. Exemplos de chafarizes, de todas as épocas e estilos, inoperantes ou sujos são abundantes pela cidade.
Bem ao lado dele, no Passeio Público, o Chafariz dos Jacarés (ou dos Amores), obra-prima concebida por Mestre Valentim no século XVIII, parece um mero terreno revolvido. Está assim desde agosto, quando foi registrada a tentativa de furto das peças. Os ladrões escavaram o espaço em volta das esculturas, mas não conseguiram levá-las. Por prevenção, a prefeitura organizou a retirada dos dois répteis esculpidos em bronze, cada um com 300 a 400 quilos. Não há data prevista para que as peças retornem ao seu posto original.
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O abandono ou a inoperância de boa parte dos chafarizes que deveriam estar dando vida a praças e outros logradouros no Rio não vem de hoje. É algo observado, em maior ou menor grau, há décadas. Nos últimos dias, O GLOBO visitou 15 chafarizes no Centro e nas zonas Sul, Sudoeste e Norte. Apenas três — na Praça Condessa Paulo de Frontin, no Rio Comprido; na Praça Paris, na Glória; e o chafariz “Mulher com Ânfora”, em frente à Candelária —, o equivalente a 20% do total, estavam limpos e funcionando. De acordo com o secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos (Seconserva), Diego Vaz, dos 35 chafarizes sob responsabilidade da prefeitura, 20 estão em funcionamento, ou 57% do total.
— Alguns chafarizes estão desativados por falhas mecânicas, por depredação. Mas há outros que as associações de moradores e as subprefeituras pedem para a gente desligar, porque viraram casos crônicos de uso indevido por pessoas em situação de rua, que utilizam muito as fontes para tomar banho. A gente vive uma situação no Rio de Janeiro que não é novidade para ninguém — diz Diego Vaz.
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Num cantinho bucólico, quase na Praia de Botafogo, à esquerda de quem olha para o mar, fica a Praça Nicarágua e seu chafariz de 1883, em ferro fundido, atribuído à francesa Fundição Val d’Osne, responsável pela elaboração de boa parte dos chafarizes — o do Monroe, inclusive — que aportaram por aqui no século XIX. A bonita peça fica no meio da praça circular, cercada por arabescos desenhados no chão com pedras portuguesas. Tudo muito bom, não fosse o fato de o chafariz estar permanentemente desligado. Do alto, é possível ver lixo acumulado no tanque superior.
— A secretaria tem contrato vigente para manutenção de chafarizes na cidade, e esse trabalho é realizado. Há casos específicos, como os chafarizes do Monroe, da Praça Nicarágua e da Praça São Salvador, de custo mais alto. Este ano, o nosso orçamento foi reduzido pela metade. Tivemos que dar foco, e o objetivo foi consertar os que coubessem no orçamento — afirma Diego Vaz.
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Em nota, a Seconserva informou que, em 2025, os chafarizes das Saracuras (Ipanema), Paulo de Frontin (Rio Comprido), Praça Paris e do Canhão (Campo Grande) passaram por obras e que, no ano que vem, estão previstas intervenções nas peças da Praça das Nações (Bonsucesso) e da Cascata (Méier), além do chafariz Dança das Águas, em frente à prefeitura, na Cidade Nova, e o do monumento ao Almirante Tamandaré, em Botafogo. A secretaria informa ainda que os equipamentos que funcionam têm acionamento em três momentos do dia: das 8h às 10h, das 12h às 14h e das 16h às 18h, para “coincidir com períodos de maior circulação de pessoas”.
Sob responsabilidade do governo do estado, o histórico Chafariz da Glória, o mais antigo da cidade, de 1772, passa por reformas “com previsão de conclusão até o terceiro trimestre de 2026”, segundo a Cedae.
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Professor do Departamento de História da UFF e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB), Paulo Knauss explica que os primeiros chafarizes tinham a função de abastecimento de água. Porém, com o tempo, passaram a ter o mesmo sentido dos artísticos, “que vieram depois para dar qualidade ao ambiente urbano, não só em termos estéticos, mas também de urbanização, contemplação, descanso; de fazer esse espaço urbano um espaço vivo”.
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— A preservação dos chafarizes é a medida que a gente tem para a preocupação contemporânea com a qualidade do ambiente urbano. Se estão em mau estado, é porque a praça também não deve estar em bom estado: a arborização, a limpeza urbana. A gente precisa olhar para os chafarizes como parte da valorização da qualidade de vida na cidade — acrescenta.
Para o historiador Alexei Bueno, a falta de verbas não pode servir como justificativa para o abandono:
— O que existe é um desinteresse total, não é falta de orçamento.
