Há um tipo de saudade que se disfarça de sabedoria. Ela aparece em frases como “no meu tempo era melhor” ou “antigamente era diferente”, e carrega, por trás da aparente nostalgia, uma recusa silenciosa ao novo. Viver olhando pelo retrovisor pode parecer inofensivo, mas flerta com o perigo de se afastar do aqui e agora.
— A nostalgia é natural e até saudável. Lembrar do que nos trouxe até aqui é uma forma de reconhecer nossa história. O problema é quando o passado ganha um poder exagerado. A gente começa a idealizá-lo e, sem perceber, coloca o presente em segundo plano — explica o psicólogo Giovani de Oliveira.
Para ele, essa tendência de supervalorizar o que já foi funciona como um mecanismo de defesa emocional. A lembrança, editada e seletiva, apaga dores e ressalta apenas o que conforta. Enquanto as dificuldades do presente parecem ter um tamanho muito maior.
— O cérebro guarda o que traz segurança. O passado parece melhor porque já foi vivido, os problemas não eram menores, apenas foram resolvidos. Mas nosso tempo de ação é o agora. É nele que as mudanças e descobertas acontecem — afirma o psicólogo.
Lembrar do que nos trouxe até aqui é uma forma de reconhecer nossa história. O problema é quando o passado ganha um poder exagerado. A gente começa a idealizá-lo e, sem perceber, coloca o presente em segundo plano”
— Giovani de Oliveira, psicólogo
Essa leitura, observa, é especialmente importante na maturidade.
— Depois de certa idade, é comum a sensação de que o melhor já passou. Mas o presente pode ser o momento mais potente da vida: é quando há autonomia, liberdade, clareza sobre o que se quer e o que já não faz sentido — aponta.
A vida nunca para de correr
Para ilustrar, Giovani cita Heráclito, filósofo pré-socrático que dizia que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.
— O rio muda e nós mudamos também. Porque a vida está em movimento. Quando nos fixamos demais no que passou, perdemos a oportunidade de desfrutar o que está acontecendo agora.
Criador de conteúdo sobre viagens e saúde, Dimas Moura, de 68 anos, fez dessa fluidez um estilo de vida. Em seus vídeos na internet, ele fala diretamente a um público maduro, incentivando-o a descobrir o prazer de desfrutar o hoje.
— Viajar é um exercício de presença. Cada lugar novo me convida a sentir o agora e me lembra que a vida continua cheia de possibilidades, independentemente da idade — diz.
Aos 59, Dimas viajou de moto pela Rota 66, na Califórnia. Aos 60, fez o primeiro mochilão. No mês passado, pilotou pela Costa Amalfitana.
– Quero mostrar que envelhecer não é se recolher, é continuar curioso. Tenho amigos que vivem dizendo que o passado era melhor. Eu prefiro acreditar que o melhor tempo é este.
Mesmo reconhecendo o valor das lembranças, ele evita se prender a elas.
— As memórias são parte da minha história, claro. Mas são cicatrizes, marcas que me fizeram quem eu sou. Não quero morar nelas. Quero continuar colecionando experiências novas.
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As memórias são parte da minha história, claro. Mas são cicatrizes, marcas que me fizeram quem eu sou. Não quero morar nelas. Quero continuar colecionando experiências novas”
— Dimas Moura, produtor de conteúdo
Perder o prazer de estar viva é o risco que, segundo Giovani, a pessoa que se ancora demais no passado corre. Isso pode gerar um sentimento de vazio ou até sintomas depressivos. A saída para isso, explica, é reconectar-se com o cotidiano.
— A felicidade raramente está em grandes eventos. Ela se constrói nas pequenas coisas: o café com a vizinha, o almoço sem pressa, a caminhada no fim do dia. É nisso que mora a sensação de continuidade, de pertencimento. E há muita coisa a ser explorada nessa nova fase.
— O segredo é continuar se movendo, estudando, conhecendo lugares, pessoas, ideias. Cada sonho realizado é combustível para o próximo — emenda Dimas.
Ele lembra de uma cena recente que, para ele, resume essa filosofia.
— Numa viagem, conheci uma senhora sueca de 78 anos. Em cada parada, ela tirava um caderno e desenhava o que via. Nada de celular, nada de foto. Aquele era seu jeito de guardar o momento. É sobre isso que se trata a vida, sobre aproveitar o presente de um jeito que faça sentido para você.
E isso não significa apagar o passado, mas entender que a vida, como o rio de Heráclito, nunca para de correr. O que passou moldou quem somos; o que está diante de nós é o único tempo que temos para agir, desfrutar e transformar o hoje em memórias futuras.

