O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou nesta segunda-feira que o maior obstáculo para um acordo de paz no Leste Europeu é a cessão de território ucraniano à Rússia, ao discursar por vídeo em uma conferência com o Parlamento da Suécia, em um momento em que Kiev e seus aliados na Europa discutem os resultados de uma reunião de alto-nível com Washington realizada em Genebra no domingo. As partes ucraniana e americana emitiram uma nota conjunta classificando as tratativas como “altamente produtivas”, enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que “algo bom pode estar acontecendo” no campo negocial.
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— Putin quer reconhecimento legal para o que ele roubou, para quebrar os princípios de integridade territorial e soberania. Esse é o principal problema. Todos vocês entendem o que isso quer dizer — disse Zelensky durante o pronunciamento. — [Putin quer isso] não apenas pela Ucrânia, ele quer isso para o mundo todo, e isso é muito perigoso.
Conversas sobre um acordo político para encerrar a guerra entre Rússia e Ucrânia, prestes a completar quatro anos, foram retomadas na semana passada, quando autoridades americanas apresentaram ao governo ucraniano um plano de paz de 28 pontos, construído a partir de um diálogo direto com Moscou. A proposta rapidamente virou alvo de críticas por parte de Kiev e de seus aliados na Europa, tanto por excluir os parceiros europeus das negociações, quanto por apenas reproduzir exigências da Rússia em alguns trechos.
Após tensões no fim da semana passada, quando Zelensky chegou a afirmar que a Ucrânia poderia ter que escolher entre perder um aliado chave ou abrir mão da própria dignidade, e Trump dizer que líderes ucranianos eram ingratos com os EUA, a reunião em Genebra parece ter reaberto os caminhos para o diálogo. A Casa Branca e a Presidência da Ucrânia afirmaram que foram alcançados “progressos significativos” em direção ao “alinhamento de posições”, e que foi elaborada uma “estrutura de paz atualizada e refinada”. Também afirmaram que qualquer acordo futuro deve “respeitar plenamente a soberania da Ucrânia”, e concordaram em continuar o “trabalho intensivo em propostas conjuntas nos próximos dias”, sem especificar onde ou em que formato.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, não comentou detalhes das propostas revisadas ao deixar Genebra no domingo, mas deu a entender que há certa flexibilidade em relação ao cronograma das negociações. Também disse que é necessário que se chegue a uma concordância russa. Em uma reação às negociações nesta segunda-feira, Trump deu sinais de otimismo.
“Será mesmo possível que grandes progressos estejam sendo feitos nas negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia??? Não acredite até ver, mas algo bom pode estar acontecendo. DEUS ABENÇOE A AMÉRICA!”, escreveu o presidente na rede social Truth Social.
Ainda em seu discurso ao Parlamento sueco, Zelensky disse que “pontos extremamente delicados” foram acrescentados ao plano inicial americano, o que classificou como passos importantes, mas disse ser “necessário mais” para chegar à paz. O presidente também conversou com o líder do Parlamento Europeu, Antonio Costa, para atualizar sobre as tratativas com os americanos, antes de uma reunião de líderes europeus em Luanda.
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Aliados europeus publicaram no domingo um plano alternativo à proposta americana, com algumas diferenças marcantes. Uma delas é de que as discussões sobre território devem ser iniciadas após um cessar-fogo, e que o ponto de partida seja a linha de frente atual — enquanto o texto inicial previa a cessão total de Donestsk, Luhansk e Crimeia. Sobre a militarização, o Exército ucraniano aceitaria uma limitação de 800 mil soldados em tempo de paz, 200 mil a mais do que o previsto pela proposta americana, e não exclui em definitivo a hipótese do país entrar na Otan no futuro. Mesmo sem a entrada, a Ucrânia receberia uma garantia de segurança dos americanos espelhando a cláusula de defesa mútua do Artigo 5 da Otan — segundo a qual uma agressão territorial a um dos membros é entendida como uma agressão a todos.
A proposta europeia também afirma que a Rússia deve entregar a usina nuclear de Zaporíjia à Agência Internacional de Energia Atômica, que dividiria o fornecimento de energia em 50-50 entre Moscou e Kiev, e que o retorno dos russos ao G8 — algo que o plano inicial americano dava como certo — fica condicionado ao respeito do país a uma “paz sustentável”.
Em meio às declarações de Zelensky nesta segunda-feira, o presidente do Parlamento Ucraniano, Ruslan Stefanchuk, afirmou que o país está pronto para avançar em direção a uma “paz genuína”, mas delineou três linhas vermelhas para Kiev em quaisquer negociações: o reconhecimento da ocupação russa ao território ucraniano, a imposição de restrições às forças militares do país e qualquer veto ao direito da Ucrânia de escolher suas futuras alianças.
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O Kremlin comunicou que não foi informado sobre os resultados das conversas entre autoridades americanas, ucranianas e europeias em Genebra, no fim de semana. Também informou não haver planos para encontros entre Rússia e EUA nesta semana.
— Não recebemos nenhuma informação” — disse o principal porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acrescentando que estava ciente de que ajustes foram feitos ao plano americano para encerrar o conflito.
Uma conversa entre o presidente da Rússia, Vladimir Putin, deve acontecer ainda nesta segunda-feira com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan — outro importante mediador no diálogo entre Moscou e Kiev, que convocou no começo da semana passada para novas negociações diretas. (Com AFP e NYT)

