Durante uma expedição ao Mar de Weddell, na Antártida, pesquisadores que buscavam o lendário navio HMS Endurance acabaram registrando outra descoberta relevante: padrões geométricos formados por centenas de ninhos de peixes no fundo do oceano, antes encobertos pela plataforma de gelo Larsen C. A área só ficou acessível após o desprendimento do iceberg A68, em 2017. A equipe, então, embarcou no navio de pesquisa sul-africano SA Agulhas II em janeiro de 2019, em uma missão de 49 dias voltada ao estudo da vida marinha local e à busca pelo Endurance, naufragado em 1915. O gelo marinho, porém, impediu a varredura completa pelos destroços.
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“O gelo marinho, em particular, foi um desafio, uma vez que havia uma acumulação de gelo marinho em torno dessa área. Estávamos nos dirigindo diretamente para lá, brincando com os icebergs à medida que avançávamos”, disse Michelle Taylor, pesquisadora da Universidade de Essex.
Mesmo sem localizar o navio — que seria encontrado apenas em 2022 — os cientistas registraram imagens inéditas das profundezas com o veículo remoto “Lassie”. As gravações revelaram mais de mil covas circulares, organizadas em desenhos distintos no sedimento. Ao revisar as imagens, os pesquisadores identificaram peixes e larvas dentro dos ninhos, construídos por exemplares de cação-da-rocha, espécie conhecida como albacora (Lindbergichthys nudifrons).
“Mais de mil ninhos mantidos nas áreas estudadas mostra como a exploração do nosso mundo ainda está em curso”, afirmou Russ Connelly, autor principal do estudo. A espécie, adaptada a águas profundas e frias, faz ninhos circulares guardados pelos machos por cerca de quatro meses — período em que enfrentam predadores como estrelas-quebradiças e vermes marinhos.
Os cientistas identificaram padrões de organização: ninhos sobrepostos, arranjados em meia-lua, alinhados de forma regular, distribuídos em formato oval, em U ou isolados. A formação mais comum eram os aglomerados, que representaram cerca de 42% do total. A disposição, afirmam, funciona como defesa coletiva. Segundo o estudo, trata-se de uma expressão da chamada “teoria do rebanho egoísta”, na qual indivíduos se protegem “colocando outros indivíduos entre si e um predador que se aproxima”.
Já os ninhos isolados tendem a pertencer a peixes maiores e capazes de se defender sozinhos. A equipe também observou vermes-fita nas proximidades, predadores que localizam ovos por meio de sinais químicos. Segundo os pesquisadores, os aglomerados podem “confundir” esses vermes, dificultando que identifiquem um ninho específico.
Outras expedições recentes já haviam registrado comportamentos semelhantes na região, que abriga espécies como o peixe-gelo — um animal de sangue transparente. Para especialistas, a repetição dessas descobertas indica um ecossistema mais complexo do que se imaginava. Os resultados reforçam, segundo os autores, a urgência de criar uma Área Marinha Protegida no Mar de Weddell, proposta pela Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos da Antártida.
“É extremamente importante explorar e estudar estes ambientes únicos antes de perdermos algo que nunca soubemos que tínhamos”, disse Connelly.

