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Autoridades foram alertadas sobre violações de segurança mais de um ano antes do incêndio em Hong Kong

BRCOM by BRCOM
novembro 29, 2025
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As primeiras conclusões centraram a atenção nos painéis de espuma instalados para proteger os vidros das janelas. As autoridades municipais afirmaram que os painéis eram altamente inflamáveis e aceleraram a propagação do incêndio — Foto: Lam Yik Fei/New York Times

Mais de um ano antes de um incêndio destruir um complexo de arranha-céus em Hong Kong, os moradores alertaram as autoridades sobre possíveis violações das normas de segurança contra incêndios em um projeto de reforma no local. Esta semana, seus piores temores se concretizaram em um dos episódios mais letais da história recente do território. O incêndio que começou na quarta-feira no Wang Fuk Court, um complexo habitacional com cerca de 2 mil apartamentos, matou pelo menos 128 pessoas até a contagem de sexta-feira e feriu outras 78. Cerca de 200 pessoas estão desaparecidas. Oito pessoas ligadas à reforma do conjunto de edifícios foram presas. Antes, as autoridades prenderam dois diretores e um consultor ligados a uma construtora que instalou os materiais de construção, que estão sendo investigados por homicídio culposo e negligência grave.

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Ainda não se sabe o que provocou a tragédia. Mas, enquanto os investigadores vasculham as estruturas carbonizadas dos edifícios em busca de provas, eles questionam se a negligência teve algum papel na devastação. Os peritos se concentraram na qualidade dos materiais de construção usados na reforma, como as redes que cobriam os andaimes de bambu para impedir que objetos caíssem sobre os transeuntes e os painéis de espuma de poliestireno instalados para proteger os vidros das janelas contra quebra.

Já em setembro de 2024, os moradores do condomínio haviam levantado preocupações ao governo municipal sobre esses materiais.

Eles escreveram ao Departamento do Trabalho da cidade dizendo que a rede poderia ser inflamável, de acordo com os e-mails dos moradores analisados pelo New York Times. E também levantaram preocupações sobre os painéis de espuma, segundo Jason Poon Chuk-hung, um engenheiro civil que se tornou ativista e se uniu aos moradores para apresentar suas reclamações.

Na sexta-feira, autoridades municipais disseram aos repórteres que as placas de espuma eram altamente inflamáveis e ajudaram o fogo a se espalhar a uma velocidade terrível.

O Departamento do Trabalho, que supervisiona as questões de segurança no local de trabalho, inicialmente descartou erroneamente as preocupações dos moradores sobre a rede, alegando que não havia regras sobre o uso de materiais inflamáveis em andaimes, reconheceu o departamento em um comunicado. Mais tarde, informou aos moradores que os materiais no canteiro de obras atendiam aos requisitos de segurança contra incêndio, citando documentos apresentados pela empreiteira Prestige Construction and Engineering.

Em sua declaração ao New York Times, o departamento confirmou que havia recebido reclamações de moradores sobre a rede de construção. Ele afirmou ter realizado 16 inspeções no Wang Fuk Court desde julho de 2024, a mais recente delas uma semana antes do incêndio. O órgão fiscalizador disse ter encontrado várias violações e alertado a empreiteira sobre as condições de trabalho inseguras no local.

O departamento não respondeu a perguntas sobre quais violações foram descobertas. Sua declaração afirmou, sem fornecer detalhes, que havia iniciado três “processos judiciais” e emitido seis notificações “solicitando melhorias” no Wang Fuk Court antes do incêndio.

Anteriormente, as autoridades haviam afirmado que a rede que envolvia os andaimes do complexo poderia não estar em conformidade com as normas de segurança contra incêndio, que exigem que todas as coberturas de andaimes sejam feitas de material que possa retardar o fogo. Na sexta-feira, no entanto, elas afirmaram que a rede estava em conformidade com o código da cidade, de acordo com testes preliminares. Elas não forneceram detalhes.

Eles afirmaram que o incêndio elevou a temperatura no interior do edifício para 498 °C e incendiou o andaime de bambu, que caiu e bloqueou as saídas de emergência.

A polícia prendeu dois diretores e um consultor da empreiteira, acusando-os de homicídio culposo e negligência grave, e apreendeu provas, incluindo documentos de licitação, computadores, telefones e uma lista dos funcionários da empreiteira.

Na sexta-feira, uma agência anticorrupção prendeu mais oito pessoas, incluindo quatro consultores, três subempreiteiros de trabalhos de andaimes e um intermediário.

No mês passado, quando a Chinachem Tower, um edifício comercial no centro de Hong Kong, pegou fogo, alguns moradores do Wang Fuk Court expressaram seus temores em um grupo no Facebook. Os bombeiros encontraram redes e andaimes de bambu naquele edifício que pareciam semelhantes aos usados em seu complexo.

“Todos devem ter muito cuidado com o fogo durante o inverno”, escreveu um morador. “Há muitos itens inflamáveis do lado de fora.”

As obras de renovação do complexo começaram no verão passado. Suas oito torres, concluídas no início da década de 1980, estavam passando por manutenção para cumprir uma regra do governo que exige reparos em estruturas com mais de 30 anos. A renovação estava inicialmente prevista para custar quase US$ 40 milhões (R$ 213 milhões), desembolsados principalmente pelas milhares famílias que vivem lá. A Prestige Construction and Engineering, fundada em Hong Kong em 2004, ganhou o contrato.

Mas alguns moradores temiam que a empreiteira estivesse inflacionando os custos e comprometendo a segurança. Eles entraram com uma reclamação no Departamento do Trabalho em setembro de 2024, dois meses após a montagem do andaime, de acordo com o departamento e Poon.

Eles reclamaram dos painéis de espuma que cobriam as janelas, disse o engenheiro.

Esses painéis são usados em canteiros de obras para fornecer isolamento, preencher vazios e como proteção temporária, explicou Tony Za, ex-presidente da divisão de construção da Instituição de Engenheiros de Hong Kong. O que não está claro neste caso, pontuou ele, é a qualidade do material usado pela empreiteira.

Fotos compartilhadas online e entrevistas com moradores mostram que muitas janelas do Wang Fuk Court foram completamente vedadas com o material. Em um prédio, a polícia descobriu que as janelas do saguão do elevador estavam cobertas por placas de espuma em todos os andares.

Por causa das placas, as pessoas não podiam ver pela janela e perceber que estavam em perigo quando o incêndio começou, disse Lau Yu Hung, um morador de 78 anos.

As primeiras conclusões centraram a atenção nos painéis de espuma instalados para proteger os vidros das janelas. As autoridades municipais afirmaram que os painéis eram altamente inflamáveis e aceleraram a propagação do incêndio — Foto: Lam Yik Fei/New York Times

Outro ponto de discórdia foi a rede que envolvia os andaimes erguidos ao redor dos prédios. Inicialmente, o departamento informou erroneamente aos moradores que os regulamentos atuais “não abrangem normas de retardamento de chamas para redes de andaimes”.

Frustrados, os moradores entraram em contato com Poon, que dirige um grupo sem fins lucrativos, o Chinat Monitor, que acompanha denúncias de corrupção no setor de construção civil da cidade e pressiona o governo por uma melhor supervisão.

Uma das causas levantadas Poon é a rede inflamável, que representa um risco particular em Hong Kong porque os prédios ficam muito próximos uns dos outros e os ventos podem espalhar incêndios facilmente. Os moradores de complexos habitacionais como o Wang Fuk Court, que tendem a ser mais idosos, têm menos capacidade de fugir para um local seguro ou ouvir alarmes de incêndio, disse ele.

Preocupado com os moradores mais idosos, Poon afirmou tem tentado aumentar a conscientização sobre essas questões. Ele até inspeciona os canteiros de obras por conta própria, às vezes cortando as redes e colocando fogo nelas para provar que o material viola as regras de segurança.

  • Vídeo: Time-lapse mostra intensidade das labaredas em prédio residencial

Poon garantiu que vem pressionando as autoridades municipais há cerca de um ano e meio para que prestem atenção à questão. “Mas eles se recusaram”, concluiu.

Quando os moradores do Wang Fuk Court procuraram Poon, ele aceitou ansiosamente o caso. E ainda repreendeu as autoridades do Departamento do Trabalho por declararem incorretamente os riscos de incêndio no canteiro de obras e apontou as leis aplicáveis que elas haviam ignorado.

Mais tarde, o departamento corrigiu o erro apontado por Poon, reconhecendo que sua resposta às reclamações havia sido “pouco clara e causado mal-entendidos”, segundo um comunicado enviado por e-mail ao New York Times.

A temperatura durante o incêndio foi alta o suficiente para incendiar andaimes de bambu, que caíram e bloquearam as saídas de emergência — Foto: Lam Yik Fei/New York Times
A temperatura durante o incêndio foi alta o suficiente para incendiar andaimes de bambu, que caíram e bloquearam as saídas de emergência — Foto: Lam Yik Fei/New York Times

Ainda assim, não encontrou nenhuma falha na rede que preocupava alguns moradores, de acordo com e-mails vistos pelo New York Times. Os funcionários revisaram os certificados de qualidade apresentados pela empreiteira, afirmou em uma resposta por escrito aos moradores em dezembro, e a rede estava em conformidade com o padrão da cidade.

“Se forem encontradas violações das leis de segurança e saúde ocupacional, tomaremos medidas”, escreveu um funcionário em um e-mail.

A conclusão parece basear-se nas próprias declarações dos empreiteiros. O departamento não respondeu às perguntas sobre se realizou seus próprios testes para verificar a qualidade dos materiais.

Profissionais da construção civil afirmam que a fraude é um problema comum com esses certificados em Hong Kong, embora até o momento não haja evidências de que esse tenha sido o caso da construção do Wang Fuk.

“Se a empreiteira comprou o mesmo material para ser usado no canteiro de obras é outra questão que precisa ser investigada”, disse Za.

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