Protagonistas da política brasileira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) são os principais alvos de conteúdos gerados por inteligência artificial. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o presidente americano, Donald Trump, também ocupam o topo da lista elaborada pelo Observatório IA nas Eleições, lançado no mês passado por uma parceria da Data Privacy Brasil com o laboratório de pesquisas Aláfia Lab. Os dados foram obtidos com exclusividade pelo GLOBO e mostram o protagonismo desses recursos em episódios como a prisão de Bolsonaro.
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Desde que o ex-mandatário foi detido, foram identificados na última semana dez casos de uso de IA — impulsionados pela detenção do ex-mandatário — para simulações, por exemplo, de manifestações na Avenida Paulista a favor de Bolsonaro ou discursos do ministro Luiz Fux, do STF, que decretavam a soltura dele. Criados a partir da manipulação de imagens, vídeos ou áudios, esses conteúdos são classificados como deepfakes e correspondem a 60% do total de 285 casos de IA contabilizados entre janeiro e novembro deste ano. A pesquisa também indica que as publicações foram feitas tanto para críticas ou ataques políticos (54%) quanto para o endosso a pautas e candidatos (42,5%). Outros 3,5% tiveram a finalidade de aplicar golpes, como o denunciado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na última semana, que relatou ter tido sua voz manipulada para a divulgação de uma vaquinha virtual.
Além disso, os dados indicam que, entre as ocorrências, 58% tinham alegações ou cenas falsas usadas para enganar usuários, enquanto outros 28% circularam apenas em contextos de sátira ou humor. Entre os alvos centrais identificados, aparecem Lula (30) e Bolsonaro (26), seguidos de Moraes (15) e Trump (15). A lista também inclui nomes como o deputado federal Nikolas Ferreira (6) e Fux (5), além de outros integrantes do STF que, juntos, foram vítimas de ao menos quatro casos. Já o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) aparece tanto como personagem (8) quanto como replicador (3) dos conteúdos manipulados. Também publicaram bolsonaristas como Gustavo Gayer (2) e Mário Frias (1); e nomes da esquerda, como Guilherme Boulos, do PSOL (1), e o petista Rogério Correia (1).
A pesquisa identificou ainda que, do total de casos, 25 foram publicados por partidos, dos quais 20 foram postados pelo PT. Como mostrou O GLOBO, a estratégia passou a ser usada pela sigla para mobilizar perfis de apoiadores de Lula após a derrubada do decreto que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), no fim de junho. À época, passaram a ser veiculados vídeos criados por IA e críticos ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), representado pelo personagem satírico Hugo Nem Se Importa.
O recurso foi retomado nos meses seguintes, em momentos como a crise provocada pelo tarifaço americano sobre produtos brasileiros, a decretação do uso de tornozeleira eletrônica por Bolsonaro e o julgamento da trama golpista. O partido, no entanto, não foi o único a divulgar materiais do tipo, sendo seguido pelo PL (3), Cidadania (2), PSOL (1) e PCdoB (1).
A recorrência do uso desses recursos é um indicativo de que a IA já começa a fazer parte da maneira como diferentes públicos se manifestam politicamente através das redes sociais e que, atualmente, têm maior acesso a essas ferramentas, explica Matheus Soares, co-coordenador do Observatório e coordenador de conteúdo do Aláfia Lab.
— Está cada vez mais fácil você criar uma imagem ou um vídeo sintético, a partir de um comando de texto muito simples e sem a necessidade de muito conhecimento técnico. É cada vez mais acessível e mais barato para a população e também para as próprias campanhas políticas. Faz parte da própria natureza da comunicação política a adesão a novas tecnologias para a produção e disseminação de conteúdo — avalia Soares.
O rápido alcance e o baixo custo, somados ao ambiente polarizado das redes sociais, tendem a favorecer a circulação de narrativas que mobilizam o emocional de grupos já engajados politicamente, pontua Carla Rodrigues, co-coordenadora do Observatório e coordenadora da área de plataformas e mercados digitais na Data Privacy Brasil:
— O fato de figuras como Lula, Bolsonaro e Moraes já aparecerem como principais alvos é um grande sinal disso, porque os públicos tendem a aceitar mensagens que confirmem suas crenças e a rejeitar correções ou contrapontos. Além disso, a capacidade de personalização da IA intensifica o risco de segmentação de mensagens que exploram medos, indagações e identidades políticas específicas.
Também previsto pela pesquisadora como um fator que poderá ampliar a polarização em 2026, o uso político desses recursos foi assunto de uma resolução publicada no ano passado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por determinação da então presidente da Corte, a ministra Cármen Lúcia, foram estabelecidos critérios que incluíam a obrigatoriedade da notificação em casos de uso de IA em propagandas políticas e a estrita proibição da utilização de deepfakes e de outros tipos de conteúdo sintético para a desinformação. A regra foi aplicada meses depois, durante o pleito municipal, em casos como o do candidato a prefeito de Uberlândia Gustavo Galassi (PSDB), que publicou um vídeo em que aparecia com o avô e vice-prefeito Virgílio Galassi, morto em 2008.
Ao ser analisado pelo Tribunal Regional Eleitoral do estado (TRE-MG), os desembargadores se manifestaram a favor de uma liminar que havia determinado a remoção da publicação ao considerarem irregular o uso de deepfake. O mesmo aconteceu em São Paulo, onde a Justiça Eleitoral negou um recurso ao prefeito reeleito Ricardo Nunes (MDB), que tentou recorrer após ser alvo de uma denúncia feita pelo ex-coach Pablo Marçal (PRTB), que entrou com uma representação depois de ser colocado “atrás das grades” em uma montagem publicada no Instagram do emedebista.
Em outra ocasião, no entanto, registrada no município de Tauá (CE), o desembargador responsável decidiu não punir os envolvidos ao avaliar que “meras montagens grosseiras, contendo elementos anedóticos, frívolos, beirando o ridículo, utilizando o cenário e paisagens reais da cidade, não têm capacidade, portanto, de enganar e alterar o estado mental do seu eleitorado”.
Na avaliação do diretor da Data Privacy Brasil, Rafael Zanatta, a divergência no teor das decisões finais evidencia o desafio imposto pelo uso da IA para a Justiça Eleitoral, que precisa verificar se o material divulgado tem potencial ou não para influenciar o resultado nas urnas:
— O problema do dado sintético é que ele envolve uma análise sobre se o conteúdo tem ou não a capacidade de mudar o voto. A avaliação que deve ser feita é a capacidade da desinformação de gerar danos ao equilíbrio do pleito ou à integridade do processo eleitoral. Não existem precedentes para isso, então é difícil prever o que pode ser definido.
