Valéria Galo, de 51 anos, encontrou na caminhada a porta de entrada para uma vida mais saudável. A professora da rede municipal de educação especial do Rio de Janeiro está licenciada por questões de saúde. Em março do ano passado, o corpo começou a dar sinais de que algo não estava bem. Com sintomas de depressão, ansiedade e Burnout, Valéria passou a ter quadros de infecções e uma alteração importante nas enzimas cardíacas. Era um aviso.
— Todos os médicos com quem me consultava, de psiquiatra a neurologista, me diziam a mesma coisa. Que eu tinha de fazer exercício e que a atividade física era melhor do que os seis remédios que tomava à época — lembra Valéria, que também lida com questões da obesidade. — Mas eu não queria ir para a academia, fica todo mundo me olhando…
Em 2025, ela se engajou na caminhada. E incluiu na rotina acompanhamento com nutricionista e terapia. Neste período, ela perdeu 20 quilos (está com 108 quilos).
Valéria conta que já havia feito caminhadas, inclusive durante corridas de quilometragem baixa. Mas era esporádico. Agora, ela frequenta grupos como o Arte e Corre Crew, Correndelas, Corre Cleo, Adidas Runner e faz provas de até 5 km com o grupo de professores aa Appai. Ela caminha pelo menos três vezes na semana e passou a treinar com planilha.
— Nas provas eu corro um minutinho, depois caminho. Caminho 90% do percurso — ensina Valéria, que se apaixonou: — É ao ar livre, encontro pessoas e adoro conversar. Acho tudo muito democrático. Tem idoso, criança, pessoas com limitações… E todos têm o mesmo objetivo.
Valéria fala que dos seis remédios que tomava, restou apenas um. Ela também mudou a forma como encara o próprio corpo.
— Minha meta é cuidar de mim, perder mais uns 15 quilos, voltar ao trabalho em março, quando termina minha licença, e correr 10 quilômetros. E, a longo prazo, não gostaria de ter a mesma velhice do meu pai, que está com 87 anos e não caminha. Sofremos de lipedema nas pernas e a minha é de grau três. Caminho pela minha saúde, para poder sempre andar. Falava que minhas pernas eram feias, mas são as que tenho e vou cuidar delas. Quero bater muita perna ainda.
A caminhada conquistou Valéria e muita gente em 2025. Segundo o Strava, principal plataforma de pessoas ativas, com cerca de 18 milhões de membros em mais de 190 países, este foi o segundo esporte mais praticado pelos usuários no ano, atrás apenas da corrida.
Segundo o Strava, a corrida manteve a liderança pelo terceiro ano seguido como o principal esporte do aplicativo globalmente, com as provas em ascensão — no Brasil este é o segundo ano consecutivo. Logo em seguida e a passos rápidos, vem a caminhada. Esta modalidade cresceu e ultrapassou o ciclismo tanto globalmente quanto no Brasil.
Esses dados fazem parte do Relatório Anual sobre Tendências do Esporte (Year in Sport 2025) do Strava, que identifica o cenário global de atividades físicas. Essa é a 12ª edição, que contou com análises de bilhões de atividades da comunidade global do Strava, juntamente com dados de pesquisa de mais de 30 mil pessoas (usuários e não-usuários do Strava).
Segundo o relatório, mais da metade dos usuários do Strava (54%) rastreiam múltiplas atividades, incluindo a caminhada.
No entanto, as pessoas ainda acham desafiador começar um novo esporte. Isso porque 24% mais mulheres do que homens dizem não ter certeza de como começar um novo esporte. No Brasil, essa porcentagem é bem menor: 7%.
Segundo o levantamento, equipamentos caros, ritmo intenso e cultura cheia de termos e piadas internas explica o motivo. Ski, snowboard, ciclismo, mountain bike e crossfit são as modalidades mais “temidas”.
Pedro Caetano, um dos organizadores do Arte e Corre Crew, do Rio de Janeiro, conta que aumentou a quantidade de pessoas que procuram a caminhada nos encontros mensais do grupo.
Segundo ele, essas pessoas “não chegam caminhando, chegam tentando correr”. E, assim, o crew propõe trechos curtos de percurso, de até 4 quilômetros, e seleciona atletas para acompanhá-los.
— Aumentou principalmente por conta do acolhimento. Na caminhada, a sensação que se tem é de que “nunca vou pertencer ao grupo, que vou atrasar o pelotão”. Mas, a gente sempre traz a visão de estarmos juntos. Cada vez mais olhamos para os que caminham, os que estão começando — fala Pedro.
Ele explica o que grupo entende que a caminhada é parte da corrida mas sabe que os que caminham ainda se sentem tímidos por causa dos “julgamentos”.
— A função desses grupos de corrida é essa, acolher, incentivar, acompanhar. Por isso, os que caminham se sentem mais à vontade nestes grupos.
E engana-se quem pensa que no Strava a maioria se considera no auge da forma física. Dados do Runna, aplicativo de treinos de corrida que foi adquirido pelo Strava, revelam que a maioria dos usuários se classifica como corredores iniciantes (26%) ou intermediários (34%).
Além disso, a quantidade de clubes de corrida quadriplicou: são mais de um milhão. O aumento de clubes de trilha foi de 5,8 vezes. E no caso dos clubes de corrida o aumento foi de 3,5 vezes.
Os eventos presenciais proporcionados por estes grupos quase dobrou (1,5 vezes, em relação a 2024). São encontros para corrida e caminhada.

