O triatleta amador Fernando Paternostro, de 45 anos, era quase um “hipocondríaco” dos suplementos e dos remédios alopáticos. Tomava de tudo, sem supervisão médica. Tinha o costume de se auto medicar para todas as dores e desconfortos. Não demorou para o anti-inflamatório de uso contínuo gerar uma gastrite. Foi quando precisou de mais um medicamento que acabou alterando o apetite, que levou a um aumento no consumo de suplementos, gerando acréscimo de gastos… Uma bagunça, como ele mesmo definiu.
Após uma consulta médica, na qual deixou claro que sua meta era viver uma vida saudável, com o mínimo de remédios e suplementos possíveis, ter uma recuperação muscular melhor, otimizar a qualidade do sono e reduzir a ansiedade, iniciou o tratamento com cannabis medicinal.
— Este tratamento me deu uma oportunidade de ressignificar meu estilo de vida — atesta Fernando, que há seis anos fundou a Atleta Cannabis, a maior comunidade de cannabis e esporte da América Latina, a segunda maior do mundo, tendo patrocinado mais de 300 atletas (hoje são 15, da corrida ao jiu jitsu) — Em viagens aos EUA aprendi que a cannabis poderia ser usada de forma preventiva, não como última opção.
A Atleta Cannabis, que hoje tem 22 mil seguidores no Instagram, é uma plataforma de acesso à medicina canabinoide, e Fernando, além de representante comercial destas farmacêuticas, é Top 10 do circuito Ironman no Brasil.
— Para mim, a primeira coisa que melhorou foi a qualidade do sono. Depois, meu apetite diminuiu. Conversando com a minha nutricionista, entendemos que foi uma consequência da diminuição da ansiedade. Ficou mais fácil seguir o plano alimentar e o resultado final foi a melhora da minha performance no triatlo. No primeiro ano de Circuito Brasileiro com este tratamento terminei em terceiro — conta Fernando, há cerca de seis anos neste tratamento.
O uso de cannabis medicinal segue em expansão no Brasil e já alcança dimensão inédita, mesmo diante de desafios regulatórios e barreiras de acesso.
Para Fernando, este “bom momento” está relacionado à busca pela saúde após a pandemia da Covid-19. Além da procura pela prática esportiva, tratamentos mais naturais passaram a ser prioridade.
Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, produzido pela Kaya Mind, 873.111 brasileiros utilizaram produtos à base de cannabis em 2025, um aumento de 30% em relação ao ano anterior, consolidando o tratamento como alternativa terapêutica relevante no país. Em 2024, a marca era de 672 mil pacientes (e já representava 56% a mais do que o ano anterior).
O estudo indica que 85% dos municípios brasileiros registraram ao menos um paciente tratado com cannabis medicinal desde 2019. Observa ainda que um dos principais motores desse crescimento é a via de importação. Regulada pela RDC 660/22 da Anvisa, é a forma predominante de acesso (40,55%) — farmácias (33,6%) e atendimento por associações (25,85%).
O levantamento aponta ainda que 2025 deve ser o ano com maior número de pedidos desde o início das autorizações, com previsão de cerca de 200 mil solicitações, impulsionados pela diversidade de produtos e pela prescrição à distância. Em média, o ano registrou mais de 500 pedidos diários, crescimento de 18% em relação a 2024 .
Nesse contexto, a Click Cannabis tem se destacado. A startup carioca, fundada em 2023, aposta em um modelo digital, a preços acessíveis (R$ 50 a consulta), conectando pacientes a especialistas. Já viabilizou mais de 50 mil atendimentos médicos relacionados ao uso terapêutico do cannabidiol desde sua fundação.
A Click Cannabis atua dentro das normas da Anvisa e orienta os pacientes em toda a jornada de importação. Conta atualmente com 570 médicos parceiros atuando em todas as regiões do país e com presença mais significativa no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.
A empresa não divulga números de lucro, mas afirma que cresceu sete vezes em relação ao ano passado. E encontrou na corrida uma maneira eficiente de se comunicar com a comunidade.
Em 2025, realizou duas corridas no Rio de Janeiro, em São Conrado e na Lagoa. As inscrições para a Click Runner eram doações de alimento. Ambas foram um sucesso e a empresa quer aumentar o número de corridas e chegar em São Paulo.
Segundo João Drummond, COO da Click Cannabis, a ideia é diversificar o cardápio de eventos para alcançar ainda mais gente que busca saúde e bem estar.
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— Os eventos deram muito certo, tanto na questão do impacto do momento, quanto no impacto na comunidade. Em 2026, ao menos repetiremos as duas corridas, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. Ambas com a mesma pegada de bem estar e para fomentar um estilo de vida saudável — diz João.
Ele explica que a empresa propõe uma abordagem de saúde que considera o todo, desde a alimentação à dieta, incluindo apoio emocional e acompanhamento médico. Para ele, a cannabis medicinal é uma peça importante desse quebra-cabeça.
— Não queremos associar o que a gente faz apenas aos tratamentos mas também ao bem estar — afirma ele, ao lembrar que a cannabis medicinal é uma terapia eficiente para a ansiedade, depressão, insônia, dor crônica, recuperação muscular, entre outros casos.
E, de acordo com ele, a prática regular de atividade física potencializa os efeitos terapêuticos do CBD, especialmente em casos de ansiedade, insônia e dor.
Além disso, estudos indicam que a cannabis medicinal tem efeitos positivos no tratamento de esclerose múltipla, epilepsia, autismo, doença de Parkinson, fibromialgia, entre outros.
— A gente ainda sofre muito preconceito mas é nosso trabalho quebrar isso. Este um tratamento como outro qualquer. O mercado como um todo tem crescido e acho que as pessoas estão mais bem informadas sobre o assunto, buscando conhecimento — comenta João. — O que gostaríamos é que esse tratamento não fosse visto como a última opção. E sim como a principal solução, claro, para alguns casos em que o CBD é eficiente. É comum e gente receber pessoas que já tentaram de tudo e buscam uma “última alternativa”.
Em 2024, segundo o relatório da Kaya Mind, o segmento movimentou R$ 853 milhões, quantia que supera em 22% a de 2023 (R$ 699 milhões). A projeção é de que o faturamento chegue a R$ 1 bilhão ao final de 2025.
— Nem riscamos a superfície do que este mercado pode se tornar. Nos Estados Unidos, por exemplo, o mercado é mais maduro, e esse número é de U$ 15 bilhões (2024) — fala João, que tem a expectativa de fechar o ano tendo movimentado cerca de R$ 30 milhões. — Em 2026 queremos crescer dez vezes em número de pacientes e quantidade de tratamentos iniciados, além da parte financeira.

