Em meio à guerra no Irã que se alastra para além de suas fronteiras a cada dia, a Ucrânia enviou drones interceptadores e uma equipe de especialistas para proteger as bases militares americanas na Jordânia, afirmou o presidente Volodymyr Zelensky ao New York Times, que publicou a entrevista nesta segunda-feira. Os Estados Unidos fizeram o pedido de ajuda na última quinta-feira, e a equipe ucraniana partiu no dia seguinte, segundo o presidente ucraniano. Nas redes sociais, Zelensky afirmou que, além de Washington, 11 países solicitaram apoio de segurança à Kiev para combater os drones iranianos.
- Novo líder supremo do Irã: Escolha de Mojtaba Khamenei sinaliza aposta dobrada em guerra com EUA e Israel
- Washington Post: Rússia ajuda Irã com informações de inteligência sobre alvos americanos no Oriente Médio para ataques
— Reagimos imediatamente — disse Zelensky na última sexta-feira, quando concedeu entrevista ao NYT dentro de um trem que viajou do leste da Ucrânia até a capital, Kiev. — Eu disse: “sim, claro, enviaremos nossos especialistas.
O conflito entre EUA, Israel e Irã corre o risco de desviar a atenção mundial da guerra na Ucrânia. Mas também deu a Kiev a oportunidade de usar sua experiência — arduamente conquistada desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022 — e sua tecnologia avançada em um novo front. O país se ofereceu prontamente para ajudar as forças americanas e seus aliados do Oriente Médio a se defenderem contra drones iranianos, que a Rússia vem usando na Ucrânia há anos.
Kiev, por sua vez, espera ganhar pontos com Washington nas negociações de paz mediadas pelos americanos. A relação, porém, permanece tensa. Também na quinta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou novamente que considera Zelensky um obstáculo maior para um acordo de paz do que o líder russo, Vladimir Putin. Trump, de fato, tem se mostrado muito mais solícito com Moscou do que seu antecessor, Joe Biden.
Na semana passada, o jornal americano Washington Post revelou que a Rússia está fornecendo ao Irã informações sobre alvos americanos no Oriente Médio para Teerã realizar seus ataques retaliatórios. Ao NYT, Zelensky afirmou ainda ter tido acesso a relatórios de inteligência que indicam que os drones lançados em grande escala pelo Irã contêm componentes de origem russa.
O líder ucraniano afirmou que desejava ajudar as nações do Oriente Médio, mas também precisava equilibrar esses pedidos com as necessidades internas da Ucrânia, visto que a guerra na região já dura cinco anos. Nas redes sociais, ele disse que, além dos EUA, países vizinhos do Irã e nações europeias solicitaram cooperação para defesa e alguns “já receberam decisões concretas e apoio específico”.
“Há um claro interesse na experiência da Ucrânia em proteção de vidas, em interceptadores relevantes, em sistemas de guerra eletrônica e em treinamento”, escreveu Zelensky. Ele acrescentou que seu país está pronto para “responder positivamente aos pedidos daqueles que nos ajudam a proteger a vida dos ucranianos e a independência da Ucrânia”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/v/z/vqsZ1YT2Ks4dWAQus2aQ/09int-ukraine-iran-twmq-superjumbo.webp)
A guerra no Irã pode interromper o fluxo de armamentos defensivos de que a Ucrânia tanto precisa. Kiev ofereceu-se para trocar seus drones interceptadores com países do Oriente Médio por sistemas mais potentes, necessários para que a Ucrânia possa se defender dos mísseis balísticos russos. Também afirmou que auxiliará os países do Oriente Médio em troca de ajuda diplomática para pressionar a Rússia a um cessar-fogo.
— Alguns países do Oriente Médio tinham relações muito fortes com a Rússia. Por isso, eu disse: “olha, talvez eles possam conversar com os russos e os russos façam uma pausa” — explicou o presidente ucraniano, acrescentando que, “claro, podemos ajudar o Oriente Médio a se defender”.
Ninguém entende mais de combate aos drones de ataque unidirecional de longo alcance, que agora são lançados pelo Irã, do que a Ucrânia. Durante a campanha de retaliação iraniana contra bases americanas e israelenses no Golfo, um desses drones matou seis militares dos EUA em um centro de comando no Kuwait. Embora o ataque retaliatório inicial de mísseis do Irã tenha diminuído a ofensiva coordenada dos EUA e de Israel contra as Forças Armadas iranianas, o volume de drones não diminuiu.
- Com crucial setor do petróleo sob ataque: países do Golfo chamam Irã de ‘traidor’, mas apelam por desescalada
A Rússia foi uma das primeiras a adotar os drones iranianos, conhecidos como “Shaheds”, e modelou sua própria versão com base no produto original iraniano. Logo após a invasão russa, a Ucrânia por vezes utilizou mísseis caros ou interceptadores Patriot — ainda mais caros — para abater os Shaheds. Essa estratégia, no entanto, rapidamente se mostrou insustentável.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/O/O/tnKGELQAK3da4FYrdTXg/09int-ukraine-iran-kgqw-superjumbo.webp)
Um míssil Shahed custa até US$ 50 mil (cerca de R$ 260 mil, na cotação atual) para ser produzido. Um míssil interceptador Patriot, fabricado nos Estados Unidos, custa mais de US$ 3 milhões (quase R$ 16 milhões). Por isso, a Ucrânia adaptou-se, utilizando metralhadoras pesadas, foguetes mais baratos disparados por caças F-16, bloqueadores eletrônicos e novos drones interceptadores nacionais.
Segundo dados diários divulgados pela Força Aérea Ucraniana, o país agora consegue destruir a maioria dos drones de ataque unidirecionais russos. Em fevereiro, a Rússia enviou cerca de 5 mil drones de ataque unidirecionais e iscas para cidades ucranianas, de acordo com a análise do New York Times. A Ucrânia abateu cerca de 87% deles.
- Patrimônios históricos, estádios, áreas civis: com mil anos, Teerã sofre destruição para além de alvos militares; veja antes e depois
Nos dias que se seguiram ao início da guerra no Irã, Zelensky disse que ele e sua equipe receberam ligações de líderes do Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Catar e Arábia Saudita em busca de ajuda. Na entrevista ao NYT, o presidente ucraniano disse que outra equipe de especialistas viajaria ao Oriente Médio para ajudar as nações a avaliar como poderiam se proteger de drones iranianos, além de simplesmente disparar os caros interceptadores Patriot — que estão em falta, com apenas 620 dos equipamentos mais avançados nas mãos das Forças Armadas desde 2025.
Nos primeiros dias da guerra com o Irã, os países do Oriente Médio utilizaram mais de 800 mísseis Patriot, segundo Zelensky e Andrius Kubilius, comissário europeu para a Defesa e o Espaço. Essa saraivada de mísseis foi usada para neutralizar mais de 2 mil drones iranianos e mais de 500 mísseis balísticos.

