Depois de anos romantizando noites viradas e telas acesas até o último minuto do dia, jovens adultos começam a rever a relação com o sono. A geração que cresceu conectada passa a tratar o dormir bem como valor, quase um posicionamento de estilo de vida.
Antes associado a uma rotina “careta”, ir para a cama cedo ganha novo significado e se aproxima de ideias como autocuidado, equilíbrio emocional e clareza mental.
Mas, entre o discurso e a prática, ainda há distância.
Pesquisas recentes indicam uma mudança de mentalidade. Um levantamento global da Philips mostra que a maioria das pessoas gostaria de dormir melhor, ainda que não consiga manter uma rotina adequada. Entre os mais jovens, estudos como o Global Gen Z and Millennial Survey, da Deloitte, apontam uma crescente preocupação com bem-estar — que inclui saúde mental, equilíbrio emocional e descanso — e começam a orientar escolhas do dia a dia.
Para a neurologista e especialista em medicina do sono Andrea Bacelar, a mudança de percepção é real, mas não necessariamente acompanhada por uma transformação de hábitos.
— Existe, sim, uma preocupação maior com o sono. Os jovens estão mais atentos, falam sobre saúde mental, reconhecem ansiedade e alterações de humor. Mas continuam dormindo menos do que precisam.
Existe, sim, uma preocupação maior com o sono. Os jovens estão mais atentos, falam sobre saúde mental, reconhecem ansiedade e alterações de humor. Mas continuam dormindo menos do que precisam”
— Andrea Bacelar, neurologista e especialista em medicina do sono
Na prática, o sono ainda disputa espaço com a vida digital e com a sensação de que a noite é o único tempo livre.
Esse descompasso, explica a especialista, tem consequências diretas.
— O adolescente e o adulto jovem têm, em média, um déficit de duas horas por noite.
— Dormir menos do que a necessidade biológica aumenta estresse, ansiedade e transtornos de humor — completa a neurologista.
Se, no plano simbólico, o sono ganha status, no plano biológico segue negligenciado.
— Não adianta tratar o sono como tendência. Ele é uma necessidade fisiológica. Quando não dormimos bem, ficamos mais irritados, menos tolerantes e com dificuldade de concentração — aponta a médica.
Parte dessa contradição está na própria lógica contemporânea: desacelerar virou desejo, mas nem sempre se concretiza.
— A gente perdeu o timing de parar. As telas facilitam a vida, mas também dificultam o desligamento — afirma Andrea.
Isso ocorre porque a luz azul sinaliza para o cérebro que ainda é dia e inibe a produção de melatonina. Ao mesmo tempo, o conteúdo nos mantém em estado de alerta.
O fenômeno tem nome: procrastinação do sono — quando o descanso é adiado em troca de um tempo de lazer tardio.
Produtividade em revisão
A mudança de percepção sobre o sono também começa a impactar o mundo do trabalho. Se antes virar a noite era sinal de comprometimento, o modelo hoje é questionado.
— A ideia de produtividade mudou. Não se sustenta mais a lógica de excesso — avalia a médica.
No lugar, ganha força a ideia de constância: produzir bem, com regularidade — o que passa, necessariamente, por dormir melhor.
Ainda assim, transformar o sono em prática exige mais do que intenção.
— Não adianta dormir pouco durante a semana e tentar compensar no fim de semana. O organismo precisa de ritmo.
Outro ponto central é entender o próprio cronotipo, tendência biológica de horários.
— É essencial conhecer e respeitar seu ritmo. Algumas pessoas funcionam melhor de manhã, outras à noite. Isso é genético. E a maioria que acha que precisa de pouco sono, na verdade, está em privação — afirma Andrea.
Segundo ela, dormidores naturais de curta duração são raros, cerca de 3% da população. Para o restante, poucas horas de descanso cobram um preço.
— Hipertensão, alterações metabólicas, baixa imunidade, problemas de memória e de atenção muitas vezes estão relacionados ao sono inadequado.
Apesar disso, há um ponto de virada em curso.
— Já passamos pelo momento da alimentação, depois pelo do exercício físico. Hoje, estamos olhando para o sono.
O desafio, agora, é consolidar essa mudança.

