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Quem criou o Bitcoin? Repórter descreve sua saga para desvendar o maior mistério da história da criptomoeda

BRCOM by BRCOM
abril 8, 2026
in News
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Quem criou o Bitcoin? Repórter descreve sua saga para desvendar o maior mistério da história da criptomoeda


Numa noite do outono de 2024, minha esposa e eu estávamos presos no trânsito em Nova York, quando começamos a ouvir um podcast. Era “Hard Fork”, programa de tecnologia do New York Times, e os apresentadores estavam discutindo um novo documentário da HBO que afirmava ter revelado a identidade do inventor do Bitcoin, que se escondia por trás do pseudônimo Satoshi Nakamoto.
Fiquei imediatamente fascinado. Há muito tempo eu considerava a questão da verdadeira identidade de Satoshi um dos grandes enigmas da nossa era, e já havia tentado investigá-la antes, sem sucesso.
Dois anos antes, inclusive, passei vários meses pesquisando para um livro sobre o tema. Mas logo percebi que estava me aventurando em algo além da minha capacidade e, a contragosto, desisti.
Saber que outra pessoa talvez finalmente tivesse identificado a figura enigmática que revolucionou as finanças, deu origem a uma indústria de US$ 2,4 trilhões e acumulou uma das maiores fortunas do mundo com um único ato de genialidade impressionante despertou em mim uma mistura de admiração e inveja.
Jornalistas, acadêmicos e investigadores da internet vêm tentando identificar Satoshi há 16 anos. Nesse período, mais de 100 nomes foram sugeridos, incluindo os de um estudante irlandês de criptografia, um engenheiro nipo-americano desempregado, um suposto cérebro criminoso sul-africano e o matemático retratado no filme “Uma Mente Brilhante”.
As teorias mais atraentes haviam se concentrado em coincidências que se alinhavam com o pouco que se sabia sobre Satoshi: um estilo específico de escrita de código, um histórico profissional misterioso, domínio dos principais conceitos técnicos do bitcoin e uma visão de mundo antiestatal. Mas todas acabaram fracassando diante do peso de um álibi ou de alguma outra evidência inconsistente ou contrária.
Apenas Satoshi poderia provar definitivamente sua identidade movendo algumas de suas moedas. Qualquer evidência aquém disso seria circunstancial.
Eu mal podia esperar para assistir ao filme da HBO Max. Assim que chegamos em casa naquela noite, entrei no aplicativo e dei o play.
No fim, achei a conclusão de “Money Electric: The Bitcoin Mystery” pouco convincente: a HBO destacou um desenvolvedor de software canadense com base no que parecia ser uma evidência muito frágil. Mas enquanto eu via a divertida jornada pelo mundo das criptomoedas, uma cena em particular chamou minha atenção.
Adam Back, criptógrafo britânico e figura de destaque no movimento do Bitcoin, estava sentado em um banco de parque em Riga, na Letônia, com a camisa para fora da calça sob um casaco marrom. O cineasta mencionou casualmente os nomes de vários suspeitos de serem Satoshi. Ao ouvir seu próprio nome, Back ficou tenso, negou enfaticamente ser Satoshi e pediu que a conversa fosse mantida em off.
Tendo encontrado minha cota de mentirosos e desenvolvido certa habilidade em identificar seus sinais, o comportamento de Back — seus olhos inquietos, sua risada sem jeito, o movimento brusco de sua mão esquerda — me pareceu suspeito. Quando os créditos começaram a subir, voltei a cena várias vezes na minha TV.
Adam Back, o criptógrafo britânico, em Miami, em fevereiro
Amir Hamja para o The New York Times
Enquanto eu refletia sobre a reação de Back, outro pensamento me ocorreu. Um impostor australiano havia sido processado por afirmar falsamente que era Satoshi. E se as evidências reveladas naquele processo judicial, ocorrido em Londres alguns meses antes, pudessem me ajudar a desvendar o mistério?
Satoshi era um mestre na arte de manter o anonimato na internet, deixando poucos — ou nenhum — rastros digitais. Mas deixou para trás um conjunto de textos, incluindo um artigo de nove páginas descrevendo sua invenção e suas muitas postagens no fórum Bitcointalk, um quadro de mensagens on-line onde usuários se reuniam para discutir o software, a economia e a filosofia da moeda digital.
E esse conjunto, ao que parece, havia se expandido significativamente durante o julgamento do impostor, quando Martti Malmi, um programador finlandês que colaborou com Satoshi nos primeiros dias do bitcoin, divulgou um acervo de centenas de e-mails que havia trocado com ele. Se Satoshi algum dia fosse identificado, eu estava convencido de que a chave estaria em algum lugar nesses textos.
Parecia tolice pensar que eu poderia, de alguma forma, resolver um caso que havia confundido tantas outras pessoas. Mas eu ansiava pela emoção de uma grande história desafiadora. Então decidi tentar mais uma vez desmascarar o misterioso criador do bitcoin.
Uma Série de Pistas
Comecei procurando maneiras de reduzir o número de suspeitos. Uma coisa que chamou atenção nos e-mails de Satoshi para Malmi e em seus outros escritos foi que ele misturava ortografia e expressões britânicas com expressões americanas. Como muitos suspeitos de serem Satoshi são americanos, alguns especularam que ele teria disfarçado sua escrita com britanismos. Mas nunca acreditei nessa teoria por causa de uma pista que o próprio Satoshi nos deixou.
No primeiro bloco de transações do bitcoin, Satoshi inseriu um texto de uma manchete do jornal The Times, de Londres. Isso me pareceu um sinal de que Satoshi realmente era britânico.Também era, muito provavelmente, membro dos Cypherpunks, um grupo de anarquistas formado no início dos anos 1990 que queria usar a criptografia — a arte de proteger comunicações por meio de código — para libertar os indivíduos da vigilância e da censura governamental.
Os Cypherpunks interagiam principalmente por meio de algo chamado lista de e-mails na internet. Antecessoras dos fóruns atuais em redes sociais, essas listas eram grandes correntes de e-mail, com fonte semelhante à de máquinas de escrever, que os assinantes recebiam em suas caixas de entrada. Para se comunicar, os participantes usavam a função “responder a todos”.
Os Cypherpunks temiam que os governos usassem registros de transações financeiras eletrônicas para rastrear a vida das pessoas. Em sua lista de e-mails, eles discutiam formas de criar “dinheiro eletrônico”: uma moeda digital que preservasse o anonimato do dinheiro físico. Alguns chegaram a desenvolver seus próprios sistemas, mas nenhum ganhou adesão — até o surgimento do bitcoin.
Satoshi anunciou seu artigo em uma ramificação da lista de e-mails dos Cypherpunks chamada lista de Criptografia, e parecia familiarizado com dois membros do grupo. No auge, no final dos anos 1990, os Cypherpunks tinham cerca de 2.000 seguidores — o que ainda deixava um amplo conjunto de possíveis candidatos.
Munido dessas pistas reconhecidamente frágeis, analisei minuciosamente os escritos de Satoshi, especialmente os e-mails divulgados por Malmi, e fiz uma lista de palavras e expressões que me chamaram a atenção. Parecia tentar decifrar um dialeto estrangeiro.
Minha lista acabou crescendo para mais de cem palavras e expressões, ocupando várias páginas do meu caderno. Uma expressão — “a menace to the network” (“uma ameaça à rede”) — soava como uma fala de um filme de ficção científica. O restante sugeria uma combinação estranha de britânico de classe alta, caipira americano, nerd de computador e criptógrafo.
Usando a função de busca avançada da rede social X, verifiquei se algumas das cerca de doze pessoas mais frequentemente apontadas como Satoshi utilizavam os termos que eu havia destacado. Exatamente como eu esperava, uma pessoa correspondia a quase todas as palavras e expressões da minha lista: Adam Back.
Senti uma descarga de adrenalina. Minha intuição agora parecia, ao menos em parte, fundamentada. Talvez não provasse nada para uma comunidade que já vinha obcecada com esse tema há anos, mas eu duvidava que fosse mera coincidência.
Ao examinar Back mais de perto, percebi que ele tinha várias características compatíveis com Satoshi. Era britânico e fazia parte dos Cypherpunks. Mais importante ainda, ele havia criado o Hashcash, um sistema baseado na resolução de desafios estatísticos que Satoshi aproveitou para a mineração de bitcoins. Satoshi citou Back e o Hashcash em seu artigo.
No entanto, Back apresentou e-mails durante o julgamento do impostor australiano mostrando que Satoshi entrou em contato com ele em agosto de 2008, antes de publicar o documento, para confirmar a citação de seu trabalho sobre o Hashcash. Esses e-mails pareciam provar que Back não poderia ser Satoshi. Mas, ao refletir melhor, vislumbrei outra possibilidade: Back poderia muito bem ter enviado esses e-mails a si mesmo.
‘Descendo pela toca do coelho da Criptografia’
Com seus óculos de aro fino, cabelo grisalho ralo e cavanhaque, Back, de 55 anos, parece um matemático desleixado. Nos últimos doze anos, ele construiu um mini-império de empresas relacionadas ao bitcoin e se tornou um dos membros mais influentes da comunidade.
Back há muito tempo figura entre os principais candidatos a ser Satoshi. Mas, ao contrário de alguns outros suspeitos de destaque, ele não foi alvo de um escrutínio jornalístico aprofundado, exceto por um vídeo de 2020 feito por um youtuber anônimo conhecido pelo pseudônimo “Barely Sociable”.
Há um ano, voei para Las Vegas para encontrá-lo. Ele estava programado para falar na conferência Bitcoin2025, no Venetian Resort. Eu não tinha certeza de que estava diante da pessoa certa, então ainda não pretendia confrontá-lo. Queria apenas conhecê-lo melhor e aprender mais sobre seu histórico.
Se minha investigação se confirmasse, eu imaginava encurralá-lo mais tarde com todas as minhas evidências em um confronto final dramático, como um detetive tentando arrancar uma confissão de um suspeito de assassinato. Mas, por enquanto, queria deixá-lo à vontade e estabelecer uma relação de confiança.
Abordei Back depois de vê-lo prever com confiança, em um painel, que o bitcoin — que na época era negociado em torno de US$ 108 mil dólares — chegaria “facilmente a um milhão” em cinco a dez anos.
Disse a Back apenas que estava trabalhando em uma reportagem sobre a história do bitcoin, mas ele pode ter suspeitado do que eu realmente estava investigando, já que eu já havia contatado seis ex-colegas de três empresas com as quais ele esteve envolvido. Se suspeitou, não demonstrou. Foi paciente e cordial.
Era difícil imaginar que aquele nerd de meia-idade, de fala mansa e sem qualquer medida visível de segurança, pudesse ser uma das pessoas mais ricas do mundo. Segundo a tradição do bitcoin, Satoshi teria minerado 1,1 milhão de moedas nos primeiros dias da moeda digital — um montante avaliado em US$ 118 bilhões na época da conferência.
Achei Back falante quando o assunto era bitcoin, mas mais reservado quando mudei a conversa para sua vida inicial. Acabei conseguindo extrair dele o seguinte: ele nasceu em Londres, em 1970. Seu pai era empreendedor e sua mãe, secretária jurídica. Eles se mudavam com frequência, e os membros da família tinham opiniões fortes e não hesitavam em expressá-las.
Back disse que aprendeu sozinho a programar em um computador pessoal Timex Sinclair aos 11 anos e passou a se interessar por criptografia no ensino médio. Isso virou uma paixão na Universidade de Exeter, quando um colega apresentou ao PGP, um programa gratuito de criptografia usado por ativistas antinucleares e grupos de direitos humanos para proteger seus arquivos e e-mails da vigilância governamental.
Back ficou tão fascinado que disse ter passado a maior parte do seu doutorado “mergulhando na toca do coelho da criptografia”. Ele se desviou tanto do foco, recordou, que precisou condensar sua tese nos últimos seis meses na universidade, comparando-se a um piloto fazendo um pouso de emergência.
Eu já havia aprendido o suficiente até então para saber que o PGP se baseia na criptografia de chave pública. O mesmo acontece com o bitcoin. Um usuário de bitcoin possui duas chaves: uma chave pública, da qual se deriva um endereço que funciona como um cofre digital; e uma chave privada, que é a combinação secreta usada para abrir esse cofre e gastar as moedas que ele contém.
Que interessante, pensei, que o hobby de pós-graduação de Back envolvia a mesma técnica criptográfica que Satoshi reaproveitou.
O tema da tese de doutorado de Back, ele me contou, era sistemas computacionais distribuídos: programas que dependem de uma rede de computadores independentes — conhecidos, no jargão da computação, como “nós” — para trabalhar em conjunto na execução do software. Esse era outro pilar tecnológico do bitcoin. E o projeto de sua tese focava em C++ — a mesma linguagem de programação que Satoshi usou para programar a primeira versão do software do bitcoin.
Tornando-se um Cypherpunk
Antes da minha viagem a Las Vegas, eu havia começado a mergulhar nos arquivos da lista de e-mails dos Cypherpunks para aprender mais sobre o estranho mundo underground que havia produzido Satoshi. Quando voltei para Nova York, mergulhei novamente.
Ao contrário de uma plataforma de mídia social como o Facebook, a lista dos Cypherpunks era um fórum de comunicação descentralizado. Entusiastas de criptografia preocupados com privacidade se reuniam ali para debater ideias subversivas sem medo de censura. Nesse processo, plantaram as sementes de inovações que mudariam o curso da história financeira.
Suas mensagens foram preservadas para a posteridade em vários sites obscuros. Dei de cara com milhares de e-mails densos, cheios de jargão criptográfico que eu mal compreendia. Back entrou na lista no verão de 1995, perto do fim de seus estudos de pós-graduação. Ele rapidamente se tornou um participante ativo, produzindo mensagens sobre temas que iam de privacidade digital a seus hábitos frugais de consumo.
Em uma de suas primeiras mensagens, ele resolveu um desafio criptográfico — uma espécie de enigma matemático — publicado por Hal Finney, um Cypherpunk da Califórnia que havia trabalhado no PGP. Isso marcou o início de uma amizade on-line. Satoshi também era próximo de Finney, que se voluntariou para receber alguns bitcoins no que se tornaria a primeira transação de bitcoin do mundo.
Não havia evidência de que Finney soubesse quem era Satoshi, mas uma de suas interações sugeria que Satoshi estava familiarizado com Finney. Em dezembro de 2010, Finney escreveu uma mensagem no Bitcointalk elogiando o código do bitcoin. Duas horas depois, Satoshi respondeu: “Isso significa muito vindo de você, Hal.”
Em um de seus e-mails para Malmi, Satoshi fez referência a um sistema de dinheiro eletrônico inventado por Finney chamado Reusable Proofs of Work, que incorporava o Hashcash em seu design, mas, ao contrário do bitcoin, praticamente não havia despertado interesse na comunidade criptográfica. Apenas um punhado de pessoas havia comentado sobre ele nas listas Cypherpunks e Cryptography. Um dos poucos foi Back.
Uma pepita de ouro
Nos Cypherpunks, Back havia encontrado seus pares ideológicos. Eu o imaginei em sua casa em Londres, conectando-se à internet com um modem discado após o trabalho e passando as noites em debates filosóficos com outros membros do grupo, do outro lado do mundo.
Como libertário, Back ficou indignado quando o governo Clinton abriu uma investigação criminal contra o fundador do PGP. Na época, o governo dos Estados Unidos considerava programas de criptografia vitais para a segurança nacional e acreditava que a publicação do código-fonte do PGP na internet equivalia à exportação de armamentos proibidos.
Em protesto, Back fez camisetas com um algoritmo de criptografia forte impresso nelas e as enviou a Cypherpunks em outros países. Seu argumento era que a proibição dos EUA à exportação de criptografia sensível violava princípios de liberdade de expressão e não poderia ser aplicada. Percebi que Satoshi também havia usado código para transmitir mensagens políticas.
Satoshi deixou outra mensagem política em um site popular entre entusiastas de tecnologias descentralizadas. Ele afirmava que sua data de nascimento era 5 de abril de 1975. O dia 5 de abril foi quando, em 1933, o presidente Franklin D. Roosevelt proibiu a posse privada de ouro para permitir que o governo desvalorizasse o dólar durante a Grande Depressão, e 1975 foi o ano em que a proibição terminou.
O comentarista financeiro Dominic Frisby havia notado isso mais de uma década antes e compreendido seu significado: o bitcoin seria uma versão digital do ouro que o Estado não poderia nem proibir nem desvalorizar.
Mas ninguém parecia ter notado esta breve postagem de Back, de 2002: “Só por curiosidade, mas qual foi a justificativa sob a qual a posse privada de ouro foi tornada ilegal nos EUA? É de deixar a cabeça girando…”
Spam no Cérebro
Enquanto eu refletia sobre essa estranha coincidência, notei outra coisa que Satoshi e Back tinham em comum: uma estranha obsessão com spam. Entre seus vários hobbies cypherpunk, Back administrava um remailer, um serviço que permitia aos usuários se comunicarem anonimamente ao remover dados de identificação de seus e-mails antes de encaminhá-los. Para sua grande irritação, spammers se aproveitavam disso para bombardear as pessoas com lixo.
Back inventou o Hashcash em março de 1997 como uma forma de contra-atacar. A ideia era impor uma taxa de “postagem” para cada e-mail enviado por meio de seu remailer. Essas taxas eram pagas em Hashcash, que os usuários geravam ao resolver pequenos problemas matemáticos que exigiam muitos cálculos e impunham um custo significativo de recursos computacionais para spammers que enviavam centenas de milhares de e-mails de uma só vez.
Ao reler o conjunto de textos de Satoshi pela segunda e depois pela terceira vez, comecei a ver a palavra “spam” por toda parte. Pelas minhas contas, Satoshi a mencionou 24 vezes, e frequentemente expressava ideias idênticas às de Back.
Cinco meses após apresentar o Hashcash, Back sugeriu na lista Cypherpunks que sua invenção poderia ser útil para celebridades como uma forma de filtrar seus e-mails. Em uma postagem de janeiro de 2009 na lista Cryptography, Satoshi propôs um uso semelhante para o bitcoin.
Não era um caso de uso óbvio para o novo dinheiro eletrônico de Satoshi, a menos que filtrar e-mails indesejados estivesse na sua mente — como esteve na de Back por mais de uma década.
Satoshi também acreditava que o bitcoin poderia levar a uma redução geral do spam. Dias após divulgar seu arigo, ele argumentou que sua criação poderia dar um novo propósito aos exércitos de computadores zumbis controlados por hackers para inundar caixas de entrada: “gerar bitcoins em vez disso”.
Seu argumento não ganhou força e o spam continuou a proliferar. Ainda assim, Back faria exatamente o mesmo ponto no Bitcointalk quatro anos depois: “Talvez o spam até diminua se a mineração de Hashcash com CPU/GPU for um mercado mais lucrativo do que o envio de spam. Parece-me altamente provável que seja”, escreveu ele.
Sr. Mediano
Eu estava tendo menos sorte em encontrar brechas no disfarce profundo de Satoshi que pudessem levar a uma verdadeira prova conclusiva. A sabedoria convencional dizia que ele havia cometido dois erros.
O primeiro envolvia um endereço de IP vazado que parecia colocá-lo no sul da Califórnia quando lançou o software do bitcoin. O outro envolvia a invasão de uma de suas contas de e-mail. Depois de semanas investigando ambas as pistas, concluí que não apenas eram becos sem saída, como provavelmente nem sequer foram erros desde o início.
Como eu poderia encontrar alguém tão bom em esconder seus rastros?Enquanto eu lidava com essa questão, ocorreu-me que Back também era habilidoso em operar anonimamente na internet. Profundamente paranoico em relação à vigilância governamental, ele constantemente elaborava estratégias para evitá-la. De fato, assim como Satoshi, Back era um grande defensor do uso de pseudônimos.
“Você deve estar abaixo do radar, deve ser essencialmente invisível para o governo; o dossiê dos serviços de inteligência sobre você deve descrevê-lo como Sr. Mediano e ser totalmente inofensivo. Então você deve ter um ou mais alter egos, para seus verdadeiros interesses”, escreveu ele em janeiro de 1998.
O alter ego escolhido por Satoshi era do Japão. Por coincidência, Back havia demonstrado interesse no país em 1997, quando um cypherpunk japonês publicou na lista sobre a criação do primeiro remailer do Japão.
“Parabéns por iniciar um remailer em uma nova jurisdição!”, respondeu Back. “Buscar diferentes jurisdições também é interessante — me pergunto o que o Japão oferece como oportunidade jurídica — há coisas legais no Japão que não são legais na Europa ou nos EUA?”
O cypherpunk japonês não respondeu. Mas isso não teria impedido Back de posteriormente fazer alguma pesquisa por conta própria. Se o fez, ele poderia ter encontrado uma empresa com endereço em Tóquio chamada Anonymousspeech LLC, que oferecia e-mail e hospedagem web anônimos. Satoshi usou seus serviços para registrar o site bitcoin.org e criar duas contas de e-mail impossíveis de rastrear.
Em 1999, Back mudou-se para Montreal para trabalhar em uma startup especializada em software de privacidade. Lá, ele ajudou a construir um sistema de privacidade chamado Freedom Network, que permitia aos usuários navegar na internet anonimamente. Era um precursor do Onion Router, uma rede mais conhecida pelo acrônimo Tor, que anonimiza o tráfego da internet. Há um amplo consenso na comunidade do bitcoin de que Satoshi usou o Tor para esconder seus rastros.
Assim como o bitcoin, a Freedom Network era um sistema distribuído. Back e seus colegas tentaram torná-la imune à vigilância de governos e corporações. Essa era outra característica que ele compartilhava com Satoshi, cujas postagens no Bitcointalk demonstravam um profundo conhecimento de segurança de redes e de como se proteger contra vulnerabilidades. A rede bitcoin é amplamente admirada por quão bem resistiu a tentativas de invasão.
Napster
Após vários meses mergulhado nos arquivos da lista Cypherpunks, às vezes eu perdia a noção de onde estava na minha pesquisa e seguia pistas falsas. Mas outros paralelos entre Back e Satoshi começaram a aparecer. Por exemplo, ambos compartilhavam uma aversão ao direito autoral.
“Acabem com patentes e direitos autorais”, escreveu Back em setembro de 1997. Ele tornou seu software Hashcash para controle de spam de código aberto. Satoshi fez algo semelhante. Ele lançou o software do bitcoin sob a licença de código aberto do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que permitia a qualquer pessoa usá-lo, modificá-lo e distribuí-lo sem restrições.
No espírito de construir algo de domínio público, Back e Satoshi também criaram listas de discussão na internet dedicadas às suas criações — a lista Hashcash e a lista bitcoin-dev — onde publicavam atualizações de software listando novos recursos e correções de bugs em um formato e estilo surpreendentemente semelhantes.
Satoshi renunciou explicitamente aos direitos autorais ao compartilhar imagens de um logotipo do bitcoin que havia criado no Bitcointalk, e incentivou as pessoas que quisessem melhorá-lo a “tornar seus gráficos de domínio público”.
No início dos anos 2000, a aplicação das leis de direitos autorais ganhou destaque quando o popular serviço de compartilhamento de arquivos Napster foi encerrado após ser processado pelas grandes gravadoras. Back ficou indignado. Ele compartilhou na lista Cypherpunks um artigo escrito por um advogado especializado em propriedade intelectual que detalhava todas as ameaças legais:
“Minha conclusão após ler isso”, escreveu Back, “é que a coisa mais segura e simples a fazer é simplesmente publicar esse tipo de software anonimamente.”
O bitcoin, assim como o Napster, era um software peer-to-peer. Substitua a indústria musical pelo governo e um cenário semelhante poderia ocorrer. Se a identidade de seu criador se tornasse conhecida, advogados do governo saberiam a quem responsabilizar. Se permanecesse oculta, não haveria ninguém para processar. Se Back e Satoshi fossem a mesma pessoa, isso ajudaria a explicar por que Satoshi escolheu se esconder.
As gravadoras estavam protegendo seus interesses comerciais. O governo teria uma agenda diferente — proteger seu monopólio sobre o dinheiro. Assim como Back, Satoshi considerava o fim do Napster um alerta.
Esboçando o Bitcoin uma década antes do Bitcoin
Todas essas semelhanças eram intrigantes, mas eu ainda não tinha nada que ligasse Back diretamente à criação do bitcoin. Isso mudou quando descobri um conjunto de postagens na lista Cypherpunks que Back escreveu entre 1997 e 1999 — uma década antes do lançamento do bitcoin.
Em 30 de abril de 1997, ele sugeriu a criação de um sistema de dinheiro eletrônico “totalmente desconectado” do sistema bancário moderno, que teria quatro atributos principais: preservaria a privacidade tanto do pagador quanto do recebedor; seria distribuído por uma rede de computadores para dificultar seu desligamento; teria algum tipo de escassez embutida para evitar inflação excessiva; e não exigiria confiança em nenhum indivíduo ou banco. Para alcançar esse último ponto, ele sugeriu um quinto componente dois dias depois: um protocolo verificável publicamente.
Todos esses cinco elementos mais tarde se tornariam centrais no bitcoin.
Quatro meses depois, Back voltou ao tema do dinheiro eletrônico, introduzindo uma nova característica baseada na teoria dos jogos. “Uma aplicação sobre a qual tenho pensado um pouco é a ideia de criar um sistema bancário distribuído”, escreveu ele.
Back queria criar uma rede de dinheiro eletrônico com tantos nós, espalhados em tantos lugares diferentes, que ninguém disposto a sabotá-la conseguiria encontrar conspiradores suficientes. Isso soa muito parecido com o sistema que Satoshi descreveu em seu famoso artigo 11 anos depois.
Em sua postagem de 1997 na lista Cypherpunks, Back escreveu sobre nós que poderiam “entrar e sair” sem afetar o funcionamento da rede. Em seu artigo, Satoshi escreveu que os nós poderiam “sair e retornar à rede à vontade”. A formulação era ligeiramente diferente, mas não era preciso ser um criptógrafo brilhante para perceber que Back e Satoshi haviam proposto exatamente os mesmos conceitos.
Em 6 de dezembro de 1998, Back voltou mais uma vez ao tema do dinheiro eletrônico depois que outro cypherpunk, Wei Dai, apresentou sua própria ideia, chamada b-money. Um dos problemas enfrentados por quem tenta criar uma moeda digital é como emitir novas unidades. Dai propôs um sistema no qual usuários que resolvessem um problema computacional seriam recompensados com moedas recém-criadas de b-money.
A invenção de Back, o Hashcash, fazia algo muito semelhante: recompensava usuários que resolvessem problemas computacionais com a permissão de enviar e-mails. Ele sugeriu reaproveitar o Hashcash e transformá-lo no mecanismo de emissão das moedas eletrônicas de Dai.
Isso foi significativo porque Satoshi citou Dai em seu artigor e mais tarde descreveu o bitcoin como “uma implementação da proposta b-money de Wei Dai”.
Quando parei para pensar nisso, foi impressionante: exatamente como Back havia proposto em 1998, Satoshi combinou os conceitos de Hashcash e b-money para criar o bitcoin. Quais eram as chances disso?
E não foi só isso. Nos comentários que fez sobre o b-money em dezembro de 1998, Back antecipou a solução de Satoshi para a inflação. Qualquer moeda eletrônica emitida por meio da resolução de problemas computacionais estaria sujeita a uma inflação descontrolada porque, à medida que os chips de computador se tornassem mais poderosos, ficaria mais fácil resolver os problemas e criar novas moedas. Para contornar isso, Back sugeriu que a emissão de uma moeda de b-money deveria “exigir mais esforço computacional ao longo do tempo”.
Foi exatamente assim que Satoshi projetou o software do bitcoin. Ele programou o sistema para que cada novo bloco de transações levasse, em média, 10 minutos para ser minerado e criou um algoritmo que aumenta a dificuldade dos problemas quando chips mais rápidos começam a reduzir esse intervalo de tempo.
Como se todas essas ideias visionárias não bastassem, Back propôs outro conceito crucial em abril de 1999. Para que um sistema de dinheiro eletrônico distribuído funcionasse, seria necessário um registro público e imutável com marca temporal de cada transação. Caso contrário, um usuário poderia gastar a mesma moeda duas vezes, levando todo o sistema ao caos.
A solução de Back envolvia o uso de árvores de hash — que condensam grandes quantidades de dados em uma única “impressão digital” — e a publicação dessas impressões digitais em anúncios classificados do New York Times.
Satoshi usou a mesma ideia no bitcoin, mas substituiu o componente dos anúncios classificados pelo Hashcash de Back, que marcava o tempo das transações ao tornar os cálculos intensivos usados para agrupá-las em blocos caros e demorados demais para serem falsificados.
Back chegou até a antecipar a resposta de Satoshi a uma das principais críticas feitas posteriormente ao bitcoin: seu alto consumo de eletricidade. Ele argumentou, em 1998 e 1999, que a energia consumida por uma combinação de Hashcash e b-money provavelmente seria menor do que a utilizada pelo sirtema bancário.
Quando um dos primeiros leitores do artigo do bitcoin levantou essa questão uma década depois, Satoshi apresentou um argumento semelhante. Em resumo, Back imaginou praticamente todos os aspectos do bitcoin — e usou a mesma justificativa que Satoshi para defender sua principal falha — uma década antes de o bitcoin ser criado.
Silêncio no ar
Um mês após nosso encontro em Las Vegas, enviei a Back algumas perguntas por e-mail sobre seu histórico profissional e sobre o motivo de sua mudança para Malta em 2009. Não expliquei por que estava perguntando, mas alguns membros da comunidade bitcoin haviam apontado que o paraíso fiscal europeu seria um local ideal para Satoshi e seu estoque de bitcoins.
Back respondeu no dia seguinte — educadamente, mas aparentemente com plena consciência da implicação da minha pergunta. Ele escreveu que se mudou para Malta por vários motivos, incluindo custo de vida, clima e, sim, impostos. “Os entusiastas do bitcoin adoram investigar, mas coincidências acontecem e não necessariamente significam algo.”
Ele claramente sabia o que eu estava fazendo. Era hora de avançar um pouco mais e abordar algo que vinha me incomodando.
Os e-mails que Back apresentou no julgamento de Craig Wright, o impostor australiano, sugeriam que Satoshi ainda não conhecia o b-money em agosto de 2008, quando entrou em contato com Back para confirmar se estava citando corretamente seu artigo sobre Hashcash. Só depois que Back o encaminhou ao site de Dai é que Satoshi teria adicionado a referência ao b-money em seu white paper, segundo os e-mails.
Mas isso não fazia sentido para mim. O artigo de Hashcash de Back discutia especificamente o b-money como uma aplicação possível do Hashcash. Partindo do princípio de que Satoshi leu o artigo que pretendia citar, ele necessariamente teria conhecimento do b-money.
Sim, respondeu Back, mas Satoshi poderia ter mentido para ele e fingido não conhecer o b-money. “Se Satoshi conhecesse alguma citação muito obscura (uma página web publicada na lista Cypherpunks como parte de uma discussão sobre e-cash), talvez ele não a citasse para evitar triangulação?”, escreveu.
Alguém como Back — que era um dos apenas seis usuários identificados a discutir b-money nas listas Cypherpunks e Cryptography e que o havia mencionado nada menos que 60 vezes — poderia ter um interesse especial em evitar esse tipo de triangulação.
Quanto mais eu pensava sobre isso, mais e suspeitava de que Back havia escrito os e-mails de Satoshi para si mesmo, em um elaborado estratagema para desviar suspeitas.
Então decidi pedir a Back os metadados dos e-mails. Eu não esperava que revelassem algo útil, porque Satoshi havia usado um serviço de e-mail anônimo registrado em Tóquio, o que teria mascarado seu endereço de IP. Além disso, ele provavelmente usou o Tor para acessar o serviço e se proteger ainda mais. Mesmo assim, eu queria vê-los, na esperança de encontrar alguma pista.
Mas quando enviei meu pedido por e-mail a Back, ele não respondeu. Não sabia se ele estava me ignorando ou apenas ocupado, e não queria assustá-lo com uma insistência imediata, então esperei oito dias antes de enviar outro e-mail. Novamente, silêncio total.
Eu claramente havia tocado em um ponto sensível. Mas por quê? Com todas as precauções que Satoshi havia tomado, o que ainda haveria para esconder? A menos que ele tivesse cometido algum tipo de erro…
Satoshi Aparece, Back Desaparece
Depois de lançar o bitcoin no Halloween de 2008, Satoshi passou os dois anos e meio seguintes aprimorando-o com a ajuda de um grupo de primeiros entusiastas. Satoshi frequentemente coordenava esse grupo — que mais tarde ficou conhecido como os desenvolvedores do Bitcoin Core — no Bitcointalk e por e-mail. Então, de forma famosa, ele desapareceu em 26 de abril de 2011.
Back, ao que parece, seguiu o mesmo padrão — mas ao contrário.
Por mais de uma década, sempre que o dinheiro eletrônico era discutido nas listas Cypherpunks ou Cryptography, Back quase sempre participava, frequentemente com postagens longas e detalhadas. Mas quando o bitcoin — a manifestação mais próxima da visão que ele havia descrito — surgiu, Back simplesmente desapareceu.
Anos depois, em dezembro de 2013, ele apresentou uma versão bem diferente dos acontecimentos no podcast “Let’s Talk Bitcoin”. Back disse ao apresentador que havia ficado “muito interessado tecnicamente” na invenção de Satoshi quando ela surgiu e que havia “participado” da discussão que ela gerou na lista Cryptography.
Eu vasculhei a lista em busca de qualquer sinal dessa participação no final de 2008 e no início de 2009 e não encontrei nenhuma evidência. Na verdade, Back continuou ignorando completamente o bitcoin até junho de 2011, quando fez seu primeiro comentário público sobre ele — seis semanas depois do desaparecimento de Satoshi.
Esse defensor vocal do dinheiro eletrônico, que havia proposto ideias quase idênticas ao bitcoin, demonstrou pouco ou nenhum interesse por ele durante anos. Mas, quando finalmente se envolveu de fato, isso coincidiu com um novo acontecimento que certamente chamaria a atenção de Satoshi.
Em 17 de abril de 2013, um criptógrafo argentino chamado Sergio Demian Lerner publicou um post em blog revelando a fortuna de Satoshi. Nesse mesmo dia, Back entrou no Bitcointalk. Escreveu na seção de comentários: “Suponho que, se parecer que você está chegando perto demais, talvez queira parar no interesse de Nakamoto…”
De repente, totalmente envolvido
De repente, Back estava totalmente envolvido. Em duas semanas, estava exigindo que a Wikipédia restaurasse a página independente de Satoshi Nakamoto, que havia sido excluída e incorporada à página do bitcoin. E, em menos de 18 meses, fundou uma startup chamada Blockstream para desenvolver ferramentas que tornariam a rede bitcoin mais fácil de usar, mais rápida e mais privada.
Foi o início de uma fase em que Back rapidamente acumulou influência e se tornou uma figura central na ainda pequena comunidade do bitcoin. Para montar a equipe da Blockstream, ele recrutou os principais desenvolvedores do Bitcoin Core de seus empregos em empresas como Google e Mozilla, o que lhe deu enorme influência sobre a moeda digital.
Ele também se tornou muito rico: ao longo dos anos seguintes, a Blockstream e suas afiliadas levantariam cerca de US$ 1 bilhão em investimentos, e a empresa alcançaria uma avaliação de US$ 3,2 bilhões. Tudo isso parecia consistente com o que Satoshi poderia fazer caso decidisse reaparecer sob sua identidade real e reassumir o controle de sua criação.
No outono de 2014, Back e seus colegas da Blockstream publicaram um artigo sobre uma inovação que mencionava a DigiCash. Fundada pelo criptógrafo David Chaum no final dos anos 1980, a DigiCash criou uma moeda eletrônica pioneira que, ao contrário do bitcoin, dependia de um servidor central que ela própria operava. Quando a DigiCash faliu em 1998, a moeda desapareceu junto com ela.
“A exigência de um servidor central tornou-se o calcanhar de Aquiles da DigiCash”, dizia a introdução do artigo.
Foi exatamente assim que Satoshi descreveu as falhas da DigiCash cinco anos antes: “Claro, a maior diferença é a ausência de um servidor central. Esse era o calcanhar de Aquiles dos sistemas chaumianos”, escreveu Satoshi.
No ano seguinte, em 2015, a comunidade bitcoin se dividiu por causa de uma proposta e Back se opôs firmemente. Então, de forma inesperada, Satoshi apareceu na lista com um e-mail que se alinhava perfeitamente à posição de Back. Era a primeira vez que Satoshi dava sinais de vida em mais de quatro anos, exceto por uma mensagem de cinco palavras no ano anterior negando uma reportagem da Newsweek que alegava ter revelado sua identidade.
Muitos na comunidade questionaram a autenticidade desse novo e-mail, já que outra conta de Satoshi havia sido invadida. Mas Back argumentou que o e-mail parecia legítimo. Em uma série de postagens no X, ele classificou as observações de Satoshi como “precisas” e “consistentes com as opiniões de Satoshi, na minha opinião”, e passou a citar trechos da mensagem.
Provavelmente Back estava certo: até hoje, não há evidências de que o e-mail tenha sido forjado, e nenhuma outra mensagem dessa conta veio a público. O e-mail de Satoshi soava muito parecido com o que Back vinha escrevendo nas semanas anteriores, embora ninguém tenha percebido isso.
Back falando em fevereiro em Miami. Assim como Satoshi Nakamoto, ele possui um profundo conhecimento em segurança de redes.
Amir Hamja para o The New York Times
Teorias Alternativas
Eu precisava testar minha teoria ao limite. Tarde da noite, deitado na cama, ou logo cedo no banho, tentei pensar em razões pelas quais eu poderia estar errado. E quanto a outros suspeitos populares de serem Satoshi? Será que algum deles se encaixava melhor no perfil do que Back?
Quanto ao escolhido da HBO, Peter Todd, o ponto central da evidência apresentada no documentário era uma discussão no Bitcointalk em 2010, na qual Todd corrigia Satoshi em um ponto técnico. O filme especulava que a postagem de Todd era, na verdade, Satoshi concluindo seu próprio raciocínio. Isso exigiria acreditar que Satoshi, mestre da segurança operacional na internet, cometeu o erro mais básico imaginável: entrar acidentalmente usando seu nome real.
Havia também o fato de que Todd teria apenas 23 anos quando o artigo do bitcoin foi publicado — muito jovem para resolver um problema que havia escapado de criptógrafos mais experientes. Além disso, após a exibição do documentário, Todd mostrou à revista Wired fotos suas esquiando ou explorando cavernas em datas e horários em que Satoshi estava escrevendo no Bitcointalk.
Alguns especulam que o bitcoin não foi criado por uma única pessoa, mas por um grupo. Eu também não comprei essa teoria. Quanto mais pessoas participam de um segredo, maior a chance de ele vazar. O segredo de Satoshi permaneceu intacto por 17 anos.
‘Melhor com código do que com palavras’
Back ainda me parecia o candidato mais provável. Mas, a essa altura, isso já não parecia suficiente. Fui em busca de mais evidências forenses. Navegando pelos arquivos dos Cypherpunks um dia, notei uma semelhança que quase me fez pular da cadeira.
Quando Satoshi sugeriu a Finney que libertários adotariam o bitcoin se conseguissem explicá-lo corretamente, acrescentou: “Sou melhor com código do que com palavras.”
Back havia expressado o mesmo sentimento, em linguagem semelhante, ao debater com outro cypherpunk sobre anonimato e liberdade de expressão: “Pessoalmente, acho que sou melhor programando do que construindo argumentos convincentes.”
Quanto mais eu observava, mais semelhanças na escrita eu encontrava. Assim como Satoshi, Back usava dois espaços entre frases — uma prática ultrapassada que sugere que Satoshi tem mais de 50 anos. Back tem 55.
Satoshi usou de forma famosa o termo britânico “bloody” (sangrento, nosentido de terrível) no Bitcointalk ao reclamar de como era difícil explicar sua invenção para o público em geral. Em várias postagens no X em outubro de 2023, Back insistiu que nunca havia usado essa palavra: “tente pesquisar no Google e veja por si mesmo, não é uma palavra que eu uso”.
Mas encontrei uma postagem de 1998 na lista Cypherpunks em que Back usava “bloody” para expressar sua crescente irritação com banners na internet. Por que negar de forma tão enfática o uso de uma palavra que ele de fato utilizou, se não havia nada a esconder?
A maneira mais confiável de identificar autores é a estilometria, que mede a frequência e a distância entre palavras funcionais como “o”, “e”, “de” e “para” para estabelecer uma espécie de impressão digital estilística.
Em 2022, Florian Cafiero, um linguista computacional da École nationale des chartes, na França, usou essa técnica para ajudar o The New York Times a identificar as duas pessoas por trás do movimento QAnon. Mas Cafiero já havia tentado, sem sucesso, identificar Satoshi para o livro de Wallace.
Pensando que ele poderia ter deixado algo passar, pedi a Cafiero que tentasse novamente — e ele concordou.
Back estava entre os suspeitos que Cafiero havia considerado na primeira análise. Mas sua investigação havia sido prejudicada pelo fato de que a maioria dos trabalhos de Back foi escrita em coautoria com outros criptógrafos, o que dificultava saber quem realmente os redigiu.
Desta vez, Cafiero descartou os artigos conjuntos e selecionou apenas o trabalho sobre Hashcash e sua tese de doutorado. Em seguida, adicionou esses textos a um conjunto de artigos acadêmicos escritos por outros 11 suspeitos de serem Satoshi, incluindo Finney, Szabo, Sassaman e Todd.
Cafiero levou cerca de seis semanas para me dar uma resposta. O veredito chegou por mensagem numa manhã do fim de julho: ele apontou Back como o mais próximo. Mas disse que não era uma correspondência perfeita e que Finney estava logo atrás, praticamente empatado. Na verdade, a diferença entre os dois era quase imperceptível, e ele considerava o resultado geral inconclusivo.
Fiquei olhando para a tela do celular, incrédulo. Foi como se alguém colocasse uma mousse de chocolate na minha frente e a retirasse antes mesmo que eu pudesse provar.
Percebendo minha frustração, Cafiero mudou a forma de calcular a distância entre os textos dos 12 suspeitos e o artigo de Satoshi. O resultado foi o oposto do que eu esperava: outros candidatos passaram à frente de Back. Cafiero disse que também considerava esses resultados inconclusivos.
Após oito meses de investigação e incontáveis horas obcecado com a identidade de Satoshi, eu achava que estava perto de resolver o mistério. Mas agora ele parecia novamente fora de alcance.
Ortografia e Gramática
Apesar da decepção, eu tinha uma boa ideia de qual era o problema. Cafiero me disse várias vezes que, se Satoshi soubesse como a estilometria funciona, seria fácil para ele alterar seu estilo de escrita para se proteger.
Não passou despercebido para mim que, em um tuíte de 2020, Back descreveu a escrita de Satoshi como “concisa e focada” e especulou que ele teria minimizado “floreios emocionais, adjetivos desnecessários e divagações fora do tema para reduzir o risco da estilometria”. Tanto Satoshi quanto Back claramente entendiam bastante sobre esse tipo de análise.
Na verdade, Back havia passado muito tempo pensando em como driblar a análise de escrita. “Tenho pensado nesse problema de vez em quando”, escreveu ele no outono de 1998, observando que autores que usam pseudônimos são particularmente vulneráveis à identificação se já escreveram muito sob seus nomes reais. Ele chegou a propor a criação de um construtor de frases com múltipla escolha, com menus suspensos de substantivos, verbos e adjetivos, para dificultar a identificação de padrões individuais.
Com isso em mente, tentei uma abordagem diferente, focada em ortografia e gramática. Back cometia muitos erros de digitação e tinha um estilo mais prolixo nas listas de discussão, enquanto a escrita de Satoshi era clara e quase sem erros. Ainda assim, após ler todo o material conhecido de Satoshi várias vezes e examinar mais de mil mensagens de Back, encontrei alguns traços em comum.
Back frequentemente confundia “it’s” e “its” e tinha o hábito de colocar “also” no fim das frases. Há cinco exemplos de cada um desses padrões nos textos de Satoshi. Ambos também pareciam ter dificuldade em usar hífens corretamente.
Adam Back, criptógrafo britânico e figura de destaque no movimento Bitcoin, em Miami
Amir Hamja/The New York Times
Assim como Back, Satoshi alternava entre o inglês britânico e o americano em algumas mesmas expressões. Quando mostrei essas peculiaridades a Robert Leonard, especialista em linguística forense da Universidade Hofstra, ele disse que esse tipo de detalhe é exatamente o que ele observa ao tentar identificar um autor. Ele chamou esses traços de “marcadores de variação sociolinguística” — impressões digitais linguísticas que podem ajudar a identificar a origem social, geográfica ou profissional de alguém. Os mais reveladores são aqueles raros ou únicos, disse ele. Encontrei pelo menos três no material de Satoshi que se encaixavam nisso.
Os dois primeiros eram conceitos criptográficos escritos de forma específica. Um deles era “proof of work”, termo cunhado por dois criptógrafos em 1999 para descrever protocolos de resolução de problemas como o Hashcash. Seguindo a gramática correta, os autores não usaram hífen, pois se tratava de um substantivo composto.
Mas Satoshi usou. Em seu white paper, ele escreveu repetidamente “proof-of-work” com hífens. Até então, apenas oito pessoas haviam usado essa forma nas listas Cypherpunks ou Cryptography ao empregar o termo como substantivo.
Buscando reduzir essa lista de oito nomes, lembrei que Satoshi havia mencionado uma obscura moeda digital russa chamada WebMoney em um de seus e-mails para Malmi. Após investigar, descobri que apenas quatro pessoas haviam mencionado WebMoney nessas listas.
Comparei então esses quatro nomes com os oito que haviam hifenizado “proof-of-work”. Apenas um coincidiu: Back.
Ainda menos pessoas haviam usado a expressão “partial pre-image” antes de Satoshi empregá-la na lista Cryptography para explicar o funcionamento da mineração no bitcoin. Só encontrei dois nomes: Finney e Back — ambos em referência ao Hashcash — com uma diferença crucial: Finney escrevia “preimage” como uma palavra só, enquanto Back tendia a usar hífen, exatamente como Satoshi.
O terceiro marcador linguístico que identifiquei foi a expressão “burning the money”, usada por Satoshi. Apenas uma pessoa havia usado a ideia de “queimar” uma moeda eletrônica nas listas Cypherpunks ou Cryptography: Back, em abril de 1999.
De 34.000 para 1
Eu queria encontrar uma maneira mais sistemática de analisar a escrita de Satoshi, então contei com a ajuda de Dylan Freedman, jornalista da equipe de inteligência artificial (IA) do The New York Times com experiência em análise computacional de textos.
Minha forte convicção era de que Satoshi fazia parte da comunidade criptográfica que se reunia nas listas de discussão Cypherpunks, Cryptography e Hashcash, já que ele conhecia vários cypherpunks, apresentou seu artigo na lista Cryptography e incorporou o Hashcash ao bitcoin. Decidimos coletar os arquivos das três listas na internet e reuni-los em um grande banco de dados pesquisável.
Entre 1992 e 30 de outubro de 2008 — o dia anterior ao surgimento de Satoshi — mais de 34.000 usuários haviam postado nessas três listas. Como muitos eram spammers ou usuários com poucas participações, eliminamos todos com menos de 10 mensagens. Isso reduziu o grupo de candidatos para 1.615.
Também excluímos os usuários que nunca haviam discutido dinheiro digital. Isso nos deixou com um grupo menor de 620 candidatos. Juntos, esses 620 indivíduos haviam escrito um total de 134.308 mensagens.
Em um mundo ideal, analisaríamos esse material sem risco de viés. A estilometria se orgulha disso, como Cafiero frequentemente me lembrava. Mas a estilometria havia falhado.
Um método alternativo foi identificar todas as palavras de Satoshi que não possuíam sinônimos e medir quais dos 620 suspeitos usavam mais dessas palavras. Termos sem sinônimos tendem a ser técnicos, o que eliminaria palavras comuns. Além disso, isso dificultaria qualquer tentativa de disfarçar o estilo usando um construtor de frases com múltipla escolha, como o sugerido por Back.
Testamos esse método. Back apareceu no topo da lista, com 521 palavras sem sinônimos em comum com Satoshi. Alguns outros cypherpunks ficaram próximos, mas todos haviam escrito muito mais mensagens do que Back, o que o destacava ainda mais.
Em busca de evidências mais definitivas, desenvolvemos duas abordagens adicionais baseadas na minha investigação.
Primeiro, analisamos em detalhe os erros gramaticais de hifenização de Satoshi. Para isso, usamos o manual de estilo do The New York Times como referência de uso correto de hífens e alimentamos um modelo de IA com essas regras. Em seguida, instruímos o modelo a analisar a escrita de Satoshi. Com sua ajuda, identificamos 325 erros distintos no uso de hífens.
Ao comparar esses erros com os textos dos suspeitos, Back se destacou claramente. Ele compartilhava 67 dos mesmos erros exatos de hifenização de Satoshi. A pessoa com o segundo maior número de coincidências tinha 38.
Voltando aos 620 suspeitos, eu queria saber quantos deles compartilhavam os outros padrões de escrita que havia identificado nos textos de Satoshi. Primeiro, filtramos os autores que às vezes usavam dois espaços entre frases, como Satoshi fazia. Isso eliminou 58 pessoas, deixando 562 suspeitos.
Confronto em El Salvador
Em meados de novembro, escrevi para Back pedindo outra entrevista. Desta vez, fui direto ao ponto. Disse que havia concluído que ele era Satoshi e queria mostrar tudo o que tinha descoberto, dando-lhe a chance de responder. Cheguei até a oferecer viajar para Malta. Mais uma vez, ele não respondeu.
Então decidi abordá-lo pessoalmente em uma conferência de Bitcoin onde ele estava programado para falar, em El Salvador, dois meses depois no fim de janeiro deste ano.
O painel de Back seria no segundo dia do evento. Eu o abordaria então, mas, no fim da tarde do primeiro dia, vi que ele havia postado fotos no palco da conferência em seu perfil no X. Confuso e preocupado por ter perdido a oportunidade, corri para a área reservada aos palestrantes, achando que poderia encontrá-lo lá. Mas os seguranças barraram minha entrada, então fiquei próximo à porta, observando atentamente.
Trinta minutos depois, Back saiu. Fui até ele, me apresentei novamente e expliquei por que estava ali. Ele pareceu um pouco desconcertado, mas, para minha surpresa, concordou em se encontrar comigo na manhã seguinte, no lobby de seu hotel, que também servia como local do evento.
Quando cheguei no horário combinado, Back estava acompanhado por dois executivos de uma nova empresa de tesouraria em Bitcoin que ele havia cofundado. Explicou que a empresa estava em processo de abertura de capital, o que o obrigava a ser mais cuidadoso em suas interações com a imprensa.
Eu não tinha percebido esse novo detalhe. Empresas de tesouraria em Bitcoin captam recursos para acumular Bitcoins, oferecendo aos investidores uma forma mais agressiva de apostar na criptomoeda. Back havia iniciado a sua no verão anterior e estava fundindo-a com uma empresa de capital aberto criada pela Cantor Fitzgerald, a firma de Wall Street anteriormente liderada pelo secretário de Comércio Howard Lutnick.
Como diretor executivo da empresa resultante, Back precisava, segundo a legislação de valores mobiliários dos EUA, divulgar qualquer informação relevante para investidores. Um estoque secreto de 1,1 milhão de bitcoins que pudesse derrubar o mercado, por exemplo, certamente seria considerado relevante.
Enquanto absorvia essa nova informação, subimos os quatro até o quarto de hotel de Back. Ele parecia bronzeado e relaxado, vestindo camiseta preta e calça preta.
Nas duas horas seguintes, apresentei minhas evidências, ponto a ponto. Com seu leve sotaque britânico, Back insistiu que não era Satoshi e atribuiu tudo a coincidências. Mas, em alguns momentos, sua linguagem corporal sugeria outra coisa. Seu rosto ficava vermelho e ele se mexia desconfortavelmente quando confrontado com pontos mais difíceis de explicar.
Por exemplo, Back não tinha uma boa explicação para seu desaparecimento da lista Cryptography durante o período em que Satoshi estava ativo, além de dizer que estava ocupado com o trabalho. Tampouco soube explicar por que afirmou no podcast “Let’s Talk Bitcoin” que havia participado da discussão de 2008 sobre o artigo do bitcoin, quando claramente não participou. Quando insisti nesses pontos, ele ficou na defensiva.
—No fim das contas, isso não prova nada. E posso te garantir: realmente não sou eu — disse em tom ríspido.
Quando mencionei os resultados das análises de escrita, Back tentou encontrar uma explicação, mas não conseguiu.
— Não sei — disse. —Não sou eu, mas entendo o que você está dizendo sobre o que a IA apontou com os dados. Ainda assim, não sou eu.
Back argumentou que é difícil provar uma negativa. Mas ofereceu uma “prova” de que não era Satoshi: disse que, quando entrou no canal #bitcoin-wizards, era tão ignorante sobre Bitcoin que chegou a pensar que um endereço funcionava como um saldo bancário variável. (Na verdade, um endereço de bitcoin é mais parecido com uma carteira física; o troco de uma transação vem em novas moedas digitais.)
O problema é que não havia nenhum registro desse equívoco nos arquivos do canal. Quando apontei isso, Back brincou:
— Seria hilário se eu tivesse imaginado isso. (Em um e-mail posterior, disse que poderia ter acontecido em outro canal não registrado.)
Back negou ser Satoshi mais de meia dúzia de vezes, mas a forma como fez uma dessas negações — depois que destaquei que ele havia antecipado praticamente todos os aspectos do bitcoin anos antes — me chamou atenção:
— Claramente eu não sou Satoshi, essa é a minha posição.
Isso soou mais como uma postura retórica do que como uma afirmação baseada em fatos. Mas ele rapidamente se corrigiu:
—E também é verdade.
Back concordou comigo em alguns pontos. Reconheceu que tinha o perfil e as habilidades necessárias para ser Satoshi. Concordou também que Satoshi era britânico, tinha mais de 50 anos e provavelmente fazia parte dos cypherpunks. E admitiu a inconsistência que eu havia identificado nos e-mails: se Satoshi leu o artigo de Hashcash, ele teria necessariamente conhecido o b-money.
Mas negou que os e-mails fossem um estratagema para desviar suspeitas. Essa defesa teria sido mais convincente se ele tivesse aceitado fornecer os metadados das mensagens. No entanto, continuou ignorando meu pedido.
Ainda havia alguns pontos que eu queria confrontar, mas seus assessores disseram que ele tinha outros compromissos. Descemos de elevador até o lobby e apertamos as mãos como dois jogadores de xadrez após uma partida difícil.
Enquanto eu o via desaparecer entre os participantes animados da conferência, algo me incomodou. Por um breve momento, tive a impressão de que ele havia deixado escapar algo, como se fosse o próprio Satoshi. Mas não consegui lembrar exatamente o quê.
Quando voltei para Nova York, encontrei isso na gravação da entrevista. Foi quando eu estava destacando as semelhanças entre o que ele e Satoshi haviam escrito. Mencionei uma frase de Satoshi, mas antes que pudesse explicar o motivo, Back me interrompeu.
— Há uma frase que mencionei antes em que Satoshi diz: “Sou melhor com código do que com palavras.” — eu disse.
Back respondeu:
— Eu falei bastante, na verdade, para alguém assim, quer dizer… quero dizer, não estou dizendo que sou bom com palavras, mas com certeza escrevi bastante nessas listas.
Para mim, soou como se ele estivesse dizendo que, para alguém que prefere código a palavras, ele havia escrito muito. Implícito nisso estaria o reconhecimento de que ele próprio havia escrito a frase. Em outras palavras, por alguns segundos, Back teria deixado a máscara cair e se tornado Satoshi.
Alguns dias depois, enviei um e-mail confrontando-o sobre isso. Ele negou que tivesse sido um deslize:
“Eu estava apenas respondendo de forma conversacional a uma observação geral sobre como pessoas técnicas costumam se sentir mais confortáveis expressando ideias em código do que em prosa” escreveu.
Mas eu havia sido claro: estava me referindo a uma frase específica de Satoshi, e suspeitava que Back sabia disso.
Lembrei então de como, dez anos antes, Satoshi havia saído do anonimato para ajudar Back na disputa entre a divisão de grupos de entusiastas do bitcoin. E ali estava Satoshi novamente, em um hotel de luxo em El Salvador. Só que, desta vez, ele não ajudou tanto Back — porque eliminou qualquer dúvida restante na minha mente de que eu havia encontrado a pessoa certa.
(Com Dylan Freedman)

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