Respeitosamente, o soteropolitano Antônio Carlos Marques Pinto, 80, sempre discordou dos versos de Paulinho da Viola em “Argumento” (“tá legal, eu aceito o argumento / mas não me altere o samba tanto assim / olha que a rapaziada está sentindo a falta / de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim”).
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Afinal, o que ele vem fazendo desde 1969 com o conterrâneo e parceiro João Carlos Figueiredo, 81, o Jocafi, é subverter as regras do samba e criar grandes sucessos como “Você abusou” e “Desacato”.
— Botar guitarra no samba com distorção, só Antônio Carlos e Jocafi fazem isso! Se fizer bem feito, fica bonito e atua lá fora. É uma música que se torna internacional. Afinal, a guitarra é só um violão eletrificado — argumenta Antônio Carlos. — Nós enfrentamos um purismo muito forte naquele tempo (os anos 1970, do auge da fama). Mas as coisas vão andando.
De fato. Sampleada nos anos 2000 pelo rapper Marcelo D2 no hit “Qual é?”, “Kabaluerê” (do LP “Mudei de ideia”, de 1971), um desses sambas com distorção de Antônio Carlos e Jocafi, ganhou mundo tardiamente, inspirando trabalhos como os do grupo BaianaSystem. E também encantando estrangeiros como os americanos Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad, do selo Jazz Is Dead, que produziram e lançaram no último dia 3 “JID026”, o novo álbum da dupla, gravado em Los Angeles.
Capa de “JID026”, àlbum de Antonio Carlos e Jocafi com Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad
Reprodução
Tudo aconteceu de forma bem simples, por intermédio de Roberto Barreto, guitarrista do BaianaSystem (grupo que já gravou músicas em parceria com Antônio Carlos e Jocafi).
— O Beto mandou uma mensagem falando que tinha um umas pessoas da Califórnia que conheciam bem as nossas músicas e queriam fazer um trabalho com a gente. Entraram em contato, agendaram tudo, marcaram a viagem e lá foram os baianos lá para os States — resume Antônio Carlos.
Algumas músicas que entrariam no disco, como “Menina do Tororó” e “Canarin da Alemanha”, já estavam prontas. Outras, eles fizeram lá mesmo em Los Angeles, como “Rala bucho”.
— Geralmente, o nosso processo de criação é o seguinte: eu faço um baixo, o Jocafi faz um suingue e aí a gente começa. Só que aquele baixo de “Rala bucho”, quem fez foi o Adrian, no estúdio — revela AC. — E eu achei bacana, porque não é o jeito de a gente fazer, você nota que a gente meteu a nossa cara, mas tem a o americano por dentro, com aquela divisão de baixo que não é a nossa. Achei que ficou uma música muito boa, bem brasileira, brasileira até demais, mas que tem um gosto americano.
Em 11 dias de Los Angeles, a dupla gravou o disco inteiro e ainda fez um show.
— Ficou uma coisa, assim, bem caseira. Porque não havia tempo para ensaiar nada. Era só pegar o violão e tocar, só com a bateria e a percussão, e o Jocafi cantando a música inteira para depois eu entrar em algumas partes com ele. Foi muito apertado — conta Antônio Carlos. — Mas, no final, deu certo, porque o Adrian é um amor de pessoa, ele e o Ali (Shaheed) Muhammad. Foi muito bacana, eu adorei.
Antônio Carlos e Jocafi, em 1974
Ronald Fonseca
Eles gravaram num estúdio todo vintage, com equipamento analógico dos anos 1970.
— A gente está acostumado, porque a RCA, que era a nossa gravadora, tinha um estúdio assim. Era o que havia de mais moderno na época — recorda-se Jocafi.
Ou seja: o que o Jazz is Dead queria era um disco de Antônio Carlos & Jocafi dos 70. AC diz que foi isso mesmo:
— A gente já sabia que não ia ter nada de apoio de fora, de computadores, nada disso. Era tudo, podemos dizer, até bem artesanal mesmo. E outra coisa bacana é que filmaram tudo. Toda bobagem que a gente falou durante esses dias foi filmada!
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Das maquinações de Antônio Carlos e Jocafi para “JID026”, saiu até um bolero, “Bacaxá”.
— Essa tem umas palavras em espanhol e outras em português porque fala do romance entre uma uma argentina e um baiano — conta Antônio Carlos. — A argentina veio fazendo turismo pelo Brasil, passou pela Bahia, comeu vatapá, aquela coisa toda, e terminou em Belém do Pará. A música saiu meio abolerada, é um bolero, mas aquele bolero, eu diria assim, brega, daquele pernambucano que já está no andar de cima (Reginaldo Rossi), só que um pouquinho mais sofisticado.
“Nunca mais” e “Loca pasión” ganharam vocais do americano Loren Oden (que ainda escreveu versos em inglês para a segunda música).
— Essa foi a parte em que a gente disse: “Olha, precisam terminar a letra de algumas músicas.” E pedi que procurassem alguém que fizesse letras em inglês. Em “Loca pasión” tem uma mistura — observa Jocafi.
No meio do caminho, dos dois fizeram seu primeiro show da vida em Los Angeles.
— Foi um show lindo, uma filha de Seu Jorge (Flor) cantou com a gente, a filha de Airto Moreira (Diana Booker) cantou com a gente… e, basicamente, só tinha brasileiro na plateia — diz Antônio Carlos.
O avião da volta ia sair dez da noite, e às quatro da tarde ainda faltava botar voz em duas músicas.
— Só conseguimos gravar uma — conta Jocafi.
A outra ficou mesmo instrumental, “Um abraço no Adrian”.
— Não deu tempo de de fazer a letra. Essa, deixamos então com o Adrian e ele fez o arranjo — explica AC.
Desde os anos 1970 morando no Rio de Janeiro, Antônio Carlos e Jocafi seguem firme em atividade. Em 2022, lançaram um disco com a Orquestra Violões do Forte de Copacabana (que ajudaram a fundar) e “Alto da Maravilha”, álbum com Russo Passapusso, cantor do BaianaSystem. Uma vez por semana, eles se encontram para fazer música. Dizem ter umas 50 só com Russo Passapusso, algumas das quais irão alimentar uma sequência do “Alto”.
— Estamos tentando, começamos a compor as músicas. Tem algumas que são maravilhosas. Isso vai ser uma uma grande surpresa. Porque é um ritmo inteiramente diferente de tudo que já se viu hoje em dia, se é que ainda se pode fazer alguma coisa que ainda não foi inventada — pondera Jocafi.
Mas quando se vai ouvir ao vivo mas músicas de “JID026”? Eles garantem que estão preparando um show.
— O que eu já combinei com o Toninho é exatamente juntar uma parte desse disco às do disco que nós estamos fazendo devagarinho, que deve sair o ano o ano que vem, para comemorar os nossos 60 anos de carreira — adianta Jocafi.
Bom, para quem começou em 1969… será que ainda não faltam uns anos para os 60?
— Não sei, o que importa é que é muito ano, né? — remenda Antônio Carlos.

