O confronto judicial entre os magnatas da tecnologia e outrora sócios na OpenAI, Elon Musk e Sam Altman, começou nesta segunda-feira (27) com o início da seleção do júri em um processo em que o homem mais rico do mundo acusa o cocriador do ChatGPT de trair sua missão de gerar IA sem fins lucrativos.
A batalha, em um tribunal do outro lado da baía de San Francisco, opõe Musk a uma startup que ele apoiou e com a qual agora compete no explosivo setor de inteligência artificial (IA). O ChatGPT, da OpenAI, é rival do Grok, chatbot criado pela xAI de Musk.
“Esta é uma novela da tecnologia que todos os investidores vão acompanhar”, disse o analista da Wedbush Dan Ives em nota. “Haverá muita roupa suja e golpes trocados no tribunal entre Musk e Altman, e isso não é bom para ninguém envolvido (…) Mas Musk levou isso para o lado pessoal”, acrescentou.
Pediu-se aos potenciais membros do júri sua opinião sobre Musk e Altman, e se podiam deixar de lado qualquer parcialidade ao considerar as provas no julgamento.
“Elon não se importa com as pessoas, assim como nosso presidente”, disse um aposentado americano, avaliado para integrar o júri.
Um servidor da cidade de Oakland que estava entre os possíveis jurados se referiu a Musk como “um idiota”.
Ao contrário, o nome de Altman soava familiar para os candidatos a jurados, mas não gerava opiniões contundentes.
Nesta segunda, Musk publicou uma mensagem nas redes sociais, chamando o diretor‑executivo da OpenAI de “Scam Altman” (“Fraude Altman”).
Embora a ação de Musk faça parte de uma disputa entre ele e Altman, o caso põe em destaque um debate sobre se a IA deveria, em última instância, servir para beneficiar alguns poucos privilegiados ou a sociedade como um todo.
Os documentos judiciais descrevem como Altman convenceu Musk a apoiar a OpenAI em 2015, atuando como cofundador de um laboratório sem fins lucrativos cuja tecnologia “pertenceria ao mundo”. Musk injetou milhões de dólares na iniciativa, da qual posteriormente se afastou.
A OpenAI criou uma subsidiária comercial, já que precisava de centenas de bilhões de dólares para centros de dados que alimentassem sua tecnologia. A Microsoft investiu bilhões e seu diretor‑executivo, Satya Nadella, está entre aqueles que devem depor no julgamento.
Musk sustenta em sua ação que foi enganado quanto ao caráter altruísta da OpenAI. A empresa, sediada em San Francisco, respondeu em seus escritos judiciais que a ruptura com Musk se deveu à sua busca por controle absoluto e não à sua condição de organização sem fins lucrativos.
“Este caso sempre teve a ver com Elon gerar mais poder e mais dinheiro para o que ele quer”, afirmou a OpenAI em uma publicação recente no X. “Sua ação não passa de uma campanha de assédio movida pelo ego, pela inveja e pelo desejo de frear um concorrente.”
A startup destacou que poucos dias depois de Musk entrar na corrida da IA em 2023, ele pediu uma moratória de seis meses no desenvolvimento de IA avançada.
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A juíza que preside o caso decidirá em meados de maio – guiada pelas conclusões de um júri consultivo – se a OpenAI descumpriu uma promessa feita a Musk em seu esforço para liderar a IA, ou se simplesmente aproveitou de forma inteligente a tecnologia para alcançar o sucesso.
Além de pedir que a OpenAI seja obrigada a voltar a ser uma organização puramente sem fins lucrativos, a ação de Musk exige a destituição de Altman e do cofundador Greg Brockman, presidente da startup.
Musk, que tinha pedido uma indenização de até 134 bilhões de dólares (R$ 665,95 bilhões, na cotação atual), abriu mão desde então de qualquer benefício pessoal, comprometendo‑se a destinar qualquer valor recebido à organização sem fins lucrativos da OpenAI.
A OpenAI tem agora uma estrutura de governança híbrida que confere à sua fundação sem fins lucrativos o controle sobre um braço com fins lucrativos.
Em fevereiro de 2018, Musk, empresário nascido na África do Sul por trás da Tesla, da SpaceX e de outras companhias, renunciou ao conselho de administração da OpenAI para, supostamente, concentrar‑se em seus outros projetos comerciais.
Nos bastidores, porém, Musk e Altman divergiam sobre uma proposta para transformar a OpenAI em uma empresa com fins lucrativos que pudesse atrair investidores na corrida pela IA.
A OpenAI concluiu essa transformação em 2025, cerca de três anos depois de seu assistente digital ChatGPT colocar a IA no centro das atenções no mundo tecnológico.
Após anos defendendo uma abordagem segundo a qual a IA deve servir à sociedade e não aos cofres corporativos, Musk lançou a startup xAI em julho de 2023.

