O termo economia circular tem se popularizado, mas muita gente ainda acha que é sinônimo de reciclagem. Usar uma fileira de cestos coloridos para separar o lixo ajuda, mas não basta para considerar suficiente a contribuição de uma organização ou pessoa para proteger o meio ambiente. Reciclar é uma etapa importante da economia circular, mas essa nova forma de produzir e consumir propõe muito mais que uma solução para parte dos resíduos gerados pela lógica linear de extrair recursos naturais para fabricar coisas que logo vão parar no lixo.
O objetivo é alcançar um novo modelo de produção que, desde o início do processo, mire na eliminação dos resíduos, ampliando a presença de produtos e seus materiais no mercado por mais tempo e reduzindo a demanda por matérias-primas virgens. Tudo começa na concepção dos produtos, com abordagens como o ecodesign, que prioriza propriedades como durabilidade e facilidade de reparo e reúso.
E revê processos fabris, reduzindo rejeitos e reaproveitando recursos como a água. Os chamados 5 Rs sintetizam a filosofia: repensar, reduzir, reutilizar, reciclar e regenerar.
Economia circular
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O desafio não é só da indústria. Essa abordagem vale também para os ciclos de alimentos e outros materiais orgânicos que consumimos, como a madeira, garantindo as condições para regenerar o solo e a vegetação. Técnicas como as da chamada agricultura regenerativa cumprem bem este papel no campo.
Sobrecarga de lixo
Tudo isso é urgente porque, apesar de avanços na reciclagem, o planeta segue sobrecarregado de lixo. Só no Brasil são gerados cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mais de 220 mil toneladas diárias, segundo dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) e do Banco Mundial. E aproximadamente um terço desse volume ainda vai parar em lixões ou aterros irregulares.
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É uma evidência de falhas na gestão de resíduos, mas também no desenho de produtos, componentes e embalagens. São pensados sob a lógica de curto prazo do custo e não considerando seu impacto até o fim do ciclo de uso.
Ao deslocar o foco para o início do processo produtivo, a economia circular abre oportunidades de aumento do valor dos recursos. Além de melhorar a eficiência produtiva, suas práticas reduzem custos com insumos, energia e água.
Os ganhos ambientais com a economia circular são diretos e relevantes. Com menor demanda por recursos naturais e menos resíduos, o modelo contribui decisivamente para a redução de poluição e gases de efeito estufa e preserva a biodiversidade. Estima-se que mais da metade das emissões globais de gases de efeito estufa esteja associada aos produtos que consumimos.
Os ganhos financeiros, embora nem sempre imediatos, vão do menor custo de insumos à reputação das marcas, mas alcançá-los não é simples e custa caro. Demanda investimentos em inovação e reordenamento produtivo que precisam de regras e incentivos públicos, ainda que prometam fazer a roda girar de forma mais consistente e sustentável.
A consultoria Accenture estima que a economia circular pode injetar US$ 4,5 trilhões no mundo até 2030. No entanto, até 2024, só 7% da economia global operava nesse modelo, segundo o Circularity Gap Report, publicado pela ICLEI Local Governments for Sustainability, rede global de sustentabilidade que atua em 125 países.
Consumidor tem papel
Lá fora, China e Europa estão na dianteira, com estratégias nacionais integradas que incorporam a economia circular à política industrial. No Brasil, o Congresso ainda debate a Política Nacional de Economia Circular (Pnec), mas a indústria brasileira já começa a assimilar essa lógica e a perceber ganhos concretos.
Uma pesquisa da Confederação Nacional das Indústrias (CNI) a ser divulgada no próximo mês identificou que seis em cada dez empresas do setor dizem adotar ao menos uma prática de economia circular.
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— Quem implementa práticas circulares, produz com mais eficiência, com menos energia, com menos água, com menos desperdício. Somando todos esses efeitos, vai ter um custo menor do seu produto — diz Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, para quem é também uma oportunidade de ganho de reputação das empresas.
A responsabilidade não é só de quem produz, mas também de quem compra. Decisões de consumo que valorizem durabilidade, reparabilidade e menor impacto ambiental são fundamentais para estimular a mudança na indústria. Para Lucio Vicente, diretor geral do Instituto Akatu, o comércio pode desempenhar um papel estratégico de curador de produtos mais sustentáveis, proporcionando experiências nos pontos de vendas capazes de promover essa reflexão:
— O consumidor se interessa por questões ambientais, quer contribuir, mas ainda toma decisões de consumo fragmentadas. Precisa ser informado da relevância dos produtos, que pode ganhar ao incluir fatores como durabilidade e reúso entre os seus critérios, além de preço. O varejo pode ser um grande articulador.
Gustavo Righeto Alves, gerente de Engajamento Empresarial da Fundação Ellen MacArthur, diz que o brasileiro tem vocação para o consumo circular pela tradição de doação de itens usados. Para ele, o país avançou “de 0 para 7” nos últimos dois anos até a Pnec, mas, enquanto ela não é aprovada, empresas, entidades e o próprio governo acertam ao fomentar iniciativas circulares o quanto antes.
O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) trabalha no Protocolo Global de Circularidade, com empresas de vários setores, governo e sociedade civil no Brasil e no exterior, para alinhar estratégias e metas para acelerar a transição, conta Alessandra Fajardo, diretora executiva técnica da entidade. Mas ela ressalta que o país precisa de políticas públicas à altura do desafio.
— Criamos um grupo de trabalho de economia circular para, com as empresas interessadas, criar essa adaptação do protocolo ao Brasil, com esse olhar da legislação brasileira, mas é preciso que a gente tenha esse arcabouço regulatório, um olhar estruturado — diz. — A economia circular é uma possibilidade econômica para as empresas, deixou de ser só reputacional, entrou numa agenda estratégica de negócios.

