Novela é a palavra que não sai da boca dos três diretores da nova produção “A Casa dos Espíritos”, que chega hoje ao Prime Video. A novidade — em oito episódios, com os três primeiros lançados de uma vez — é a adaptação em espanhol para o streaming do livro homônimo da chilena Isabel Allende, autora que vendeu a impressionante marca de 80 milhões de cópias em todo o mundo. É por causa da latinidade do material, eles justificaram, que têm chamado a produção dessa maneira, e menos de série ou minissérie, como seria mais comum a um produto do tipo.
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— A novela capta uma idiossincrasia que nos faz sentir muito pertencentes, como se, claro, fosse algo familiar — diz a diretora Francisca Alegría, uma das responsáveis pela adaptação ao lado de Fernanda Urrejola e Andrés Wood, todos chilenos.
O trio falou ao GLOBO um dia antes da première que mostrou os dois primeiros episódios da série a convidados no Chile. Com bom humor, eles dizem que na tela do streaming querem levar a toada da “paixão latina”, carregada no melodrama.
— O melodrama é 100% parte da nossa cultura, e acho que com ele dá para falar de coisas muito sérias e importantes. Isabel Allende é uma rainha nisso. E essa conexão com seus leitores é única. Tentamos manter esse espírito. Ir contra isso seria um suicídio — afirma o diretor Andrés Wood, que trabalhou em produções como “Machuca” (2004).
Violência e sensibilidade
A nova produção conta a história de quatro gerações de uma mesma família marcada pela turbulência política tradicional em países latino-americanos. Além disso, os personagens ainda são espremidos entre a realidade terrena e a influência do sobrenatural, com episódios de comunicações com o mundo dos espíritos e premonições devastadoras. Os aspectos sociais ainda são responsáveis por colocar mais pressão na história, com crises envolvendo episódios de violência contra mulheres e mais o impacto da desigualdade de renda no andamento do país.
É no centro dessa trama que estão os personagens Clara (vivida pela argentina Francesca Turca quando criança, pela espanhola Nicole Wallace na juventude e pela argentina Dolores Fonzi na maturidade) e Esteban Trueba (o mexicano Alfonso Herrera), um casal marcado pela crescente truculência do marido e pela sensibilidade da mulher, capaz de falar com espíritos e prever o futuro. A dinâmica familiar, ali retratada entre o começo do século XX e meados dos anos 1970, ressoa em conflitos domésticos e internacionais vistos até hoje, dizem os integrantes do elenco.
Alfonso Herrera como Esteban Trueba: truculento e dependente emocional
Reprodução Prime Video
Não é a primeira vez que a história foi adaptada para o audiovisual. Em 1993, uma versão cinematográfica falada em inglês foi feita com Meryl Streep, Glenn Close e Jeremy Irons. Na nova versão, essa história — que sublinha a política chilena e o golpe contra o governo do presidente Salvador Allende (1908-1973), primo do pai da autora, mesmo sem citar o país nominalmente no livro — é feita em espanhol, foi filmada no Chile, e deverá ser distribuída para 240 países.
— A série serve para percebermos que a sociedade e os seres humanos são cíclicos. Tropeçamos nas mesmas pedras e não aprendemos muitas coisas. Acho que, tristemente, é contemporânea. Eu estava falando que foi encontrada uma rede em que milhões de homens falavam sobre como estuprar e abusar de mulheres. É algo que, na época (retratada no livro), era normalizado — diz a atriz Nicole Wallace, de 24 anos. — Percebi nas filmagens que não era ficção, mas testemunho de um monte de mulheres.
O aspecto político da trama também tem correspondência nos tempos atuais, opina o ator Alfonso Herrera, conhecido do público brasileiro por ter estrelado a novela “Rebelde” há duas décadas.
Em “A Casa dos Espíritos”, porém, Alfonso Herrera está longe do espírito colegial de “Rebeldes” e dá vida a um sombrio e criminoso fazendeiro. Na produção, chega a aparecer controlando votos de camponeses que trabalham em seu latifúndio. Numa cena, posando ao lado da urna, controla as cédulas nas mãos dos trabalhadores. Caso surja um voto ao candidato contrário ao seu, diz que a pessoa estaria votando errado e ordena que o boleto eleitoral seja trocado.
— Essa história também fala do quanto estamos polarizados, não só na região, mas praticamente no mundo inteiro. Fala da memória, fala do passado e de como precisamos voltar atrás para nos entendermos como sociedade e, ao mesmo tempo, para não repetir erros que já foram cometidos. E fala de um realismo mágico, mas também de um realismo trágico que se viveu no Brasil, na Argentina, no Chile. Então, essas cicatrizes e essas feridas, de alguma forma, continuam presentes — diz Herrera.
Dolores Fonzi: Clara adulta e na maturidade
Reprodução Prime Video
Dolores Fonzi, figura recorrente do cinema argentino, pondera que a obra procura manter vivo o aspecto fundamental da memória, cuja função é dar repertório às gerações que podem não conhecer os desafios do passado.
— Estabeleceu-se uma forma de tentar esquecer, de seguir em frente sem lembrar de onde viemos. Este drama, essa história apaixonada sobre poder, abuso, amor, destino, identidade e memória da América Latina, acho que vai ser um álbum de lembranças para que os jovens de hoje possam entender de onde viemos — diz a atriz, que leu a história pela primeira vez aos 17 anos.
Nos três primeiros episódios que abrem a série, a que o GLOBO teve acesso antecipadamente, é difícil não prestar atenção no machismo por vezes criminoso de Esteban Trueba. Nesse sentido, há o interesse, dizem os atores, de mirar em uma “educação” e não no ataque a figuras masculinas. A intenção, diz Alfonso Herrera, é inaugurar “outro tipo de ideias”, uma “desconstrução”, uma vez que as audiências masculinas topem assistir ao material.
Nicole Wallace pondera que, pensando nas audiências masculinas, a série só poderá encontrar “quem quer ser encontrado”. Mas espera que a produção também chegue aos estudantes nos colégios, assim como o que aconteceu com o livro de Isabel Allende. E defende que o conteúdo seja usado como uma “mudança de perspectiva”.
— (A história) expõe os homens, mas talvez eles gostem de ser expostos — provoca a atriz Dolores Fonzi.
Nicole Wallace ainda completa dizendo que Esteban é “vítima do patriarcado, sem outras formas de aprender”.
O trio de realizadores defende que é interessante ainda dar certo crédito à empatia, à compaixão, que alguns personagens são capazes de demonstrar. Sobretudo as mulheres, cuja tarefa de socorrer as famílias surge a todo tempo.
— Sinto que estamos em um momento em que o outro, seja um imigrante, seja alguém de outra cultura, é visto sem empatia (o próprio Chile é uma das nações que têm endurecido suas políticas migratórias). E acho que o romance consegue é justamente esse contato: trabalha tão bem seus personagens que a gente se conecta emocionalmente com eles e, de alguma forma, passa a entendê-los — acredita Andres Wood.
A autora Isabel Allende não esteve presente na agenda de lançamento que aconteceu na semana passada no Chile. Ela, porém, enviou um vídeo da Califórnia (onde mora) para uma plateia de convidados que aguardava para ver os episódios da produção no Teatro Municipal de Santiago, fundado em 1857.
Na gravação, Isabel Allende disse que gostou muito da série e contou que “maratonou” todos os episódios.
— Me comoveu especialmente porque é a história da minha família. De minha avó clarividente dos fantasmas do passado. Me pareceu extraordinário que esse monte de gente sobreviveu a todo esse tempo — disse.
*A repórter viajou a convite da Prime Video.

