Uma exposição instalada dentro de dois hospitais na Barra tem o intuito de promover um olhar crítico sobre a prática médica no Brasil. Em cartaz até 30 de abril, “Nigrum corpus” leva para dentro dos hospitais Samaritano e Vitória uma imersão nos impactos do racismo existente no atendimento em saúde.
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A mostra apresenta fotografias, áudios e painéis informativos com casos clínicos, contextos históricos e estudos que mostram como o viés racial pode influenciar diagnósticos e condutas médicas. Também há conteúdos interativos que convidam profissionais, estudantes e público em geral a refletir sobre decisões tomadas no dia a dia.
Idealizada pelo Instituto Yduqs em parceria com o Idomed, a mostra é inspirada no livro “Nigrum corpus”, criado pela agência Artplan, projeto premiado dentro e fora do Brasil pelo seu impacto social. A obra reúne 20 relatos de situações reais que evidenciam como o racismo pode atravessar a prática medicinal, e vão de diagnóstico errado a injúria durante o atendimento.
Livro “Nigrum corpus”, que serviu como inspiração para exposição
Divulgação
Para a médica Amanda Machado, do Núcleo de Inclusão, Diversidade e Humanização do Idomed, o problema é estrutural e começa ainda na formação.
— Apesar dos anos de estudos, nós aprendemos medicina mesmo é no SUS, sistema onde a maioria dos pacientes é negra. Mas, ainda assim, não nos aprofundamos o suficiente nas especificidades dessa população — afirma.
De acordo com a especialista, pessoas negras têm, por exemplo, maior propensão a desenvolver doenças como diabetes e anemia falciforme, o que os profissionais não aprendem nas universidades. Além disso, na formação, muitas grades curriculares ensinam a analisar apenas lesões em pessoas brancas, mas existem algumas que se apresentam de forma diferente nas pessoas negras, porque a constituição de umas e outras é diferente, sobretudo no caso das mais retintas. Amanda observa que a falta de preparo pode comprometer diagnósticos e tratamentos, além de agravar quadros.
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— Existe a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, que nós precisamos fazer valer — frisa.
A médica ainda destaca que desigualdades já foram identificadas em estudos, como diferenças no manejo da dor e no atendimento a mulheres negras durante o parto. Segundo ela, não é só uma questão de acesso, mas de qualidade do cuidado:
—O racismo impacta diretamente o desfecho clínico.
A exposição integra o programa Mediversidade, que reúne ações voltadas à inclusão e à equidade no ensino, como revisão curricular, incentivo à pesquisa e ampliação de políticas afirmativas. Segundo Cláudia Romano, presidente do Instituto Yduqs, a proposta é estimular mudanças estruturais por meio da educação.
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—Acreditamos que a educação é uma ferramenta poderosa para promover mudanças estruturais. Ao abordar o viés racial na medicina de forma aberta e educativa, contribuímos para a construção de um sistema de saúde mais justo e igualitário — diz.
Já o CEO do Idomed, Silvio Pessanha, destaca a importância de levar o debate para fora das salas de aula. Segundo ele, quando a reflexão alcança os hospitais impacta diretamente o atendimento e amplia a consciência coletiva sobre o tema.
A mostra fica nos dois hospitais até o dia 30 e pode ser vista das 10h às 17h.
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