O dia começa com números: quantas horas você dormiu, quantos minutos de sono profundo teve, quantas vezes acordou. Ao longo da manhã, mais um dado: passos acumulados. À tarde, um alerta de frequência cardíaca. Antes de dormir, um resumo com pequenas vitórias e frustrações.
Para uma geração que cresceu cercada por tecnologia, monitorar a saúde passou a fazer parte da rotina. E não se trata apenas de curiosidade. Há ali a promessa de envelhecer melhor.
— Wearables que nos ajudam a monitorar indicadores e que, consequentemente, podem estimular a mudança e a aquisição de hábitos mais saudáveis têm relevância significativa. Ao acompanhar esses dados, as pessoas passam a ter um papel mais ativo na forma como envelhecem — afirma Egidio Dórea, coordenador do Programa USP 60+.
Há evidências mais robustas em alguns casos, como a contagem de passos — entre 7 mil e 10 mil por dia — associada à longevidade. Outros indicadores, porém, ainda carecem de estudos mais consistentes.
A promessa é sedutora: mais controle, mais consciência, mais prevenção. Mas ela não vem sem limites.
— O ponto de virada é quando a métrica deixa de descrever como você está e passa a ditar como você se sente — afirma Alexandre Chiavegatto Filho, professor de machine learning em saúde da USP. Existe, inclusive, um termo recente para esse fenômeno: ortosônia, que descreve a ansiedade gerada pela preocupação excessiva em dormir bem e descansar o suficiente.
Parte do problema está na própria tecnologia.
— A maioria dos sensores ainda tem precisão clínica limitada para medir estresse ou estágios do sono. Muitas vezes, o usuário reage a um ruído estatístico como se fosse um sinal real — explica o professor. Ou seja, nem tudo o que aparece na tela corresponde ao que acontece no corpo.
Mas será que esses dispositivos impactam de fato em uma vida mais longa e saudável? A ciência ainda não tem uma resposta definitiva.
— O uso consistente de wearables tem pouco mais de dez anos, e estudos de longevidade exigem décadas de acompanhamento. Além disso, quem adotou cedo a tecnologia já tende a ser mais atento à saúde, o que dificulta isolar o efeito do dispositivo — aponta Alexandre.
A maioria dos sensores ainda tem precisão clínica limitada para medir estresse ou estágios do sono. Muitas vezes, o usuário reage a um ruído estatístico como se fosse um sinal real
— Alexandre Chiavegatto Filho, professor de machine learning em saúde da USP
Se por um lado os dados ajudam a iluminar certos aspectos da saúde, por outro podem reduzi-la a uma soma de métricas.
— O envelhecimento resulta de uma interação complexa entre fatores genéticos e ambientais. Quando o foco recai apenas sobre o que pode ser medido, aspectos não mensuráveis acabam ficando fora do radar, o que pode prejudicar o envelhecimento saudável — observa Egidio.
Propósito de vida, otimismo, percepção positiva do envelhecimento e relações sociais, por exemplo, não aparecem em gráficos.
— Relações predominantemente virtuais impactam negativamente um dos grandes pilares da longevidade: o capital social — afirma o médico. O aumento da solidão, acrescenta, está associado à maior incidência de doenças cardiovasculares, depressão e até demência.
— A tecnologia consegue aproximar pessoas que estão distantes geograficamente, mas nunca vai substituir o contato físico — conclui.
Em algumas áreas, no entanto, a inteligência artificial começa a mostrar resultados concretos.
— Algoritmos aplicados a imagens médicas, como mamografias ou lesões de pele, já apresentam boa precisão para prever diagnósticos. Relógios inteligentes também vêm sendo usados na detecção precoce de problemas cardiovasculares, como fibrilação atrial — diz Alexandre.
O desafio agora é expandir esses resultados de forma consistente.
— Os algoritmos ainda enfrentam dificuldades de generalização, porque muitas vezes são treinados com dados de populações específicas — afirma o professor.
No cotidiano, o equilíbrio parece ser o ponto central.
— É uma boa ideia revisar os dados em janelas semanais, em vez de diárias, e lembrar que associar saúde ao score de um dispositivo é um caminho direto para o estresse — sugere.
Talvez a tecnologia funcione melhor como ferramenta, não como guia. Levantar do sofá, ligar para os amigos ou dormir mais cedo ainda não dependem de algoritmos.
Algumas aplicações da tecnologia em saúde já começam a apresentar resultados concretos.
Análise de imagens médicas: algoritmos aplicados a exames, como mamografias e lesões de pele, já alcançam boa precisão na previsão de diagnósticos.
Detecção de arritmias: relógios inteligentes vêm sendo usados na identificação precoce de problemas cardiovasculares, como a fibrilação atrial.
Monitoramento do sono: dispositivos também registram dados sobre descanso, embora especialistas alertem que a precisão para estágios do sono e estresse ainda é limitada.

