Narges Mohammadi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2023, é uma das principais vozes na defesa dos direitos humanos no Irã e voltou ao centro do noticiário internacional após ser internada em estado crítico, depois de ser transferida da prisão para um hospital na província de Zanjan. A ativista cumpre pena por acusações relacionadas à sua atuação política e, segundo sua família, enfrenta um quadro de saúde grave sem acesso a tratamento especializado em Teerã.
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Engenheira formada em física, Mohammadi iniciou sua trajetória como ativista ainda na universidade, nos anos 1990, quando já se posicionava contra restrições às liberdades civis no país. Ao longo das décadas seguintes, consolidou-se como uma das figuras mais influentes do movimento de direitos humanos iraniano, com atuação destacada em denúncias de abusos do sistema judicial e penitenciário.
Atuação contra pena de morte e repressão a mulheres
Mohammadi ganhou projeção internacional principalmente por seu trabalho contra a pena de morte e pela defesa dos direitos das mulheres no Irã. Ela integrou o Centro de Defensores dos Direitos Humanos, organização fundada pela também Nobel da Paz Shirin Ebadi, e participou de campanhas que denunciaram execuções e prisões arbitrárias.
Nos últimos anos, sua atuação passou a dialogar diretamente com movimentos como o “Mulher, Vida, Liberdade”, que ganhou força após a morte de Mahsa Amini, em 2022. Mesmo presa, Mohammadi continuou a divulgar cartas e relatos sobre abusos cometidos dentro das prisões, incluindo denúncias de violência física e psicológica contra detentas.
A ativista foi presa pela primeira vez no início dos anos 2000 e, desde então, passou por sucessivos períodos de detenção. As acusações mais recorrentes envolvem “propaganda contra o Estado” e “ameaça à segurança nacional”, termos amplamente utilizados pelo regime iraniano para enquadrar opositores.
Em fevereiro deste ano, ela foi condenada a mais de sete anos de prisão, somando-se a outras sentenças anteriores que elevam seu tempo total de pena. Em diferentes momentos, Mohammadi também foi submetida a isolamento e transferências entre unidades prisionais, o que, segundo organizações internacionais, agravou seu estado de saúde.
Apesar das detenções, sua atuação continuou a repercutir fora do país, mobilizando entidades de direitos humanos e governos estrangeiros. A concessão do Nobel da Paz, em 2023, ampliou essa pressão e consolidou seu nome como símbolo global da resistência ao regime iraniano.
Saúde frágil e denúncias de negligência
A condição de saúde de Mohammadi é motivo de preocupação há anos. Ela sofre de problemas cardíacos e pulmonares e já passou por procedimentos como angioplastias. Familiares e advogados afirmam que, durante períodos de prisão, ela teve acesso limitado a cuidados médicos adequados.
Segundo a Fundação Narges Mohammadi, sua transferência recente para um hospital ocorreu após uma “deterioração catastrófica” do quadro clínico, com episódios de perda de consciência e crise cardíaca. Ainda assim, o tratamento estaria restrito a medidas emergenciais para estabilização, sem acesso a acompanhamento especializado.
— O tratamento eficaz só será possível com a transferência para sua equipe médica em Teerã — afirmou a fundação em comunicado.
A família sustenta que a permanência em Zanjan representa risco elevado, já que médicos especialistas teriam indicado que o histórico clínico da ativista exige acompanhamento em centros mais equipados.
Mesmo encarcerada, Mohammadi segue sendo uma referência para movimentos de oposição ao regime iraniano. Sua trajetória reúne denúncias documentadas, mobilização internacional e um histórico de enfrentamento direto às autoridades.
A internação em estado crítico reacendeu a pressão de organizações e instituições internacionais para que o Irã permita seu tratamento adequado e reavalie sua prisão. Enquanto isso, seu caso permanece como um dos mais emblemáticos da repressão a ativistas no país.

