Pouco mais de três anos após a apresentação da inteligência artificial (IA) generativa para o uso do grande público, com o lançamento do ChatGPT, está claro que a nova tecnologia não é apenas modismo e será fundamental para avanços de eficiência e produtividade na indústria. A avaliação é de executivos brasileiros que participaram da Hannover Messe 2026, a tradicional feira de negócios e tecnologia da indústria, considerada a maior do mundo, organizada anualmente em Hanôver, na Alemanha.
Feira de Hannover: veja como foi a participação brasileira
Lula: ‘Alemães não podem acreditar no mito de que biocombustível atrapalha produção de alimentos. Ninguém come biodiesel’
Quando o assunto é tecnologia, é comum algumas ferramentas ou inovações nascentes virarem moda e serem tratadas como tendência, mas depois acabarem abandonadas. É o que no jargão do mundo da tecnologia se chama de hype. Esse não parece ser o caso da IA, disse Gustavo Brito, CEO global da Stefanini Manufacturing, a divisão de soluções para a indústria da multinacional brasileira de tecnologia da informação. Isso porque as ferramentas tecnológicas têm sido aplicadas com uma “abordagem consultiva”, entendendo as necessidades das fábricas.
— Temos mais de 200 modelos em base industrial, que conseguem monetizar decisões baseadas em dados e algoritmos — afirmou Brito durante o Download Hannover Messe 26, debate realizado no auditório da Editora Globo, no Rio, que analisou as tendências observadas na feira industrial alemã.
Firjan aponta obstáculos
Novas ferramentas que usam IA são uma realidade, mas a aplicação de tecnologias de fronteira na indústria brasileira enfrenta os obstáculos estruturais de sempre, ponderou o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Luiz Césio Caetano. Dificuldade de acesso ao crédito, juros altos, regulação excessiva, infraestrutura deficiente e baixa qualificação da mão de obra são alguns deles.
— Temos um caminho (de obstáculos) ainda a superar. Se não fizermos esse caminho, não chegaremos nem ao hype — alertou Caetano.
Francisco Vervloet, gerente executivo de Relacionamento Institucional da Petrobras, afirmou que os investimentos em IA na estatal são “intensivos” — R$ 500 milhões, no plano de cinco anos — e já dão retorno. Um dos projetos que usam a tecnologia lança mão de “cães-robôs” para fazer manutenção em plataformas em alto-mar e já resultou numa economia de R$ 1 bilhão por ano, ao otimizar as paradas programadas. Em outra frente, a estatal tem usado a IA generativa para melhorar a eficiência das consultas aos manuais de protocolos operacionais de engenharia.
Luis Mosquera, vice-presidente Jurídico, de Relações Governamentais e Sustentabilidade da gigante alemã Siemens, citou dois exemplos. O primeiro é o uso dos chamados “gêmeos digitais”, ferramenta que simula o funcionamento de novos produtos ou soluções industriais, prevendo falhas e permitindo avaliar o possível desempenho do futuro lançamento. O segundo é uma solução para manutenção de trens e metrôs. Tipicamente, os equipamentos são retirados de operação, uma vez por dia, segundo Mosquera, para que funcionários façam a inspeção visual, por baixo das unidades, para verificar a necessidade de reparos. Agora, a Siemens trabalha com câmeras nos trilhos, que permitem escanear os vagões por baixo e analisar as imagens automaticamente, durante a operação corriqueira.
— Imagina o ganho de eficiência, quanto sobra em dinheiro, porque não parou o trem quando não tinha problema algum? — questionou Mosquera. — IA não é hype, está sendo incorporada e está só começando. Vai transformar a nossa vida como a eletricidade e a internet.
Os executivos participantes do Download Hannover Messe 26 também destacaram o papel do Brasil na feira alemã, com representantes do governo e do setor empresarial.
Câmara Brasil-Alemanha
O Brasil foi o país-destaque da feira deste ano, representado por 800 empresários e executivos de 300 empresas, e o presidente Lula abriu o evento ao lado do chanceler alemão, Friedrich Merz.
— O Brasil é parceiro estratégico para a Alemanha — disse o diretor executivo de Desenvolvimento de Negócios da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo, Bruno Vath Zarpellon, ressaltando a importância da assinatura de um novo acordo de bitributação entre os dois países, tido como fundamental para liberar todo o potencial do tratado comercial entre Mercosul e União Europeia, em termos de comércio e investimentos.
O evento Download Hannover Messe 26 foi realizado por GLOBO e Valor, com apoio da Firjan, e o debate foi mediado pelo jornalista João Sorima Neto.

