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O penta também tem mãe

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maio 9, 2026
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Pelé e a mãe Dona Celeste em 1966 — Foto: Arquivo pessoal / 8-5-1966

Em junho de 1958, Dona Celeste provavelmente não fazia ideia de que estava mandando para a Suécia o menino mais famoso da história do futebol. Pra ela, Edson ainda era um garoto magro de Três Corações, com cara de criança, que viajava cedo demais para um lugar longe demais. Pode ser que toda mãe ache isso de Copa do Mundo. Que é longe demais.

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Dona Celeste era dessas mães brasileiras que parecem ter sido inventadas pelo país: firme, religiosa, econômica nas palavras e especialista em segurar a casa de pé enquanto a vida tentava desmontá-la. Via o futebol com desconfiança. Conhecia de perto a conta que ele deixava. O marido, Dondinho, também tinha sido jogador e carregava no corpo a lembrança de como o sonho acaba rápido quando o joelho quebra e o dinheiro some. Ela queria outro destino pro filho. Sonhava ver Pelé de roupa social, diploma na mão, vida mais segura. Provavelmente sem perceber que o menino já estava condenado a virar fotografia.

Pelé tinha 17 anos. A mãe queria que ele estudasse, trabalhasse de sapato engraxado, tivesse uma vida menos incerta do que a do pai. Mas o futebol brasileiro tem dessas crueldades: às vezes pega justamente o filho em que a mãe tentou segurar um pouco mais. Ainda bem.

Pelé e a mãe Dona Celeste em 1966 — Foto: Arquivo pessoal / 8-5-1966

Quatro anos depois, o Brasil voltou para uma Copa já carregando o peso de ter virado o Brasil do futebol. E foi justamente aí que apareceu Garrincha, o jogador mais brasileiro que este país já produziu. Em 1962, no Chile, enquanto o mundo começava a entender o que Pelé era, foi Mané quem pegou a seleção pela mão torta e levou até o bicampeonato. A mãe dele, Maria Carolina dos Santos, nunca virou personagem pública como Dona Celeste. Diz mais sobre o Brasil do que sobre ela.

Mulher pobre, indígena, mãe de uma família enorme em Pau Grande, distrito operário de Magé, viveu daquelas rotinas que raramente entram para a história oficial: tanque, comida simples, filho correndo descalço, conta apertada, homem bebendo mais do que devia. Garrincha herdou dela traços indígenas, o jeito arredio e aquela espécie de liberdade impossível que ele carregava no corpo. Maria Carolina criou um menino de pernas tortas sem imaginar que elas entortariam também a lógica do futebol.

Em 1970, o Brasil talvez tenha levado ao México o melhor time de futebol já reunido. Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivellino. Paulo Cézar Caju não era o protagonista daquela seleção como os filhos de Dona Celeste e Dona Maria Carolina foram em 58 e 62. Mas entra aqui justamente porque poucas histórias de mãe explicam tão bem o Brasil quanto a dele.

Sebastiana Lima era doméstica, pobre, e criou os filhos praticamente sozinha numa realidade em que o futebol ainda parecia menos profissão do que aposta desesperada. Caju conta que fazia bola com meia-calça velha recheada de jornal, material que sobrava da casa e da vida da mãe. É uma imagem tão brasileira que parece inventada por cronista: enquanto o país começava a ganhar Mundiais, havia um menino aprendendo futebol numa bola feita do cansaço doméstico de uma mulher.

A história ficou ainda mais improvável quando Sebastiana aceitou entregar o filho para ser criado por outra família, tentando dar a ele uma chance de vida melhor. Há definição de amor mais brutal do amor de mãe do que esse? Abrir mão da presença para tentar garantir futuro. Anos depois, quando virou jogador da seleção, uma das primeiras obsessões de Caju foi tirar Dona Sebastiana da favela. O Brasil comemorava gols em Guadalajara sem imaginar que, para um daqueles campeões, Copa do Mundo talvez fosse apenas um jeito sofisticado de agradecer à mãe num morro carioca.

Em 1994, o Brasil já não entrava em campo atrás apenas de uma Copa. Entrava atrás do fim de um jejum que parecia absurdo para um país que transformou futebol em idioma. E foi aí que Romário apareceu. Baixinho, marrento, impossível. A Copa dos Estados Unidos acabou virando também a Copa de um jogador que parecia ter sido criado para irritar técnicos, zagueiros e o bom comportamento em geral.

Romário com a mãe Dona Lita em Vasco x Sport em São Januário, no dia do milésimo gol — Foto: Ivo Gonzalez / 20-5-2007
Romário com a mãe Dona Lita em Vasco x Sport em São Januário, no dia do milésimo gol — Foto: Ivo Gonzalez / 20-5-2007

Só que existe uma ironia bonita nisso. Porque Romário talvez tenha sido justamente o filho mais rigidamente controlado por uma mãe entre todos os grandes craques brasileiros. Dona Lita, como Manuela Ladislau de Souza ficou conhecida, vivia em cima dele na Vila da Penha. Controlava amizade, horário, rua, bagunça. Morria de medo de o menino “virar cria da esquina”, como tantas mães suburbanas do Rio aprenderam a temer. Romário dizia que tinha mais medo da mãe do que de qualquer treinador.

E havia outro medo. Quando criança, Romário teve problemas nas pernas e precisou usar aparelhos ortopédicos. Muita gente achava improvável que aquele menino franzino virasse atleta profissional, muito menos o melhor jogador do mundo. Dona Lita transformou o tratamento numa obsessão doméstica. A mãe brasileira conhece essa sensação antes de todo mundo: a de que o filho precisa sobreviver primeiro, sonhar depois.

Em 2002, o herói brasileiro tinha joelhos remendados, corte de cabelo inexplicável e uma mãe professora tentando entender como o filho tinha sobrevivido à própria fama. Ronaldo já era o Fenômeno, mas Dona Sônia ainda parecia olhar para ele como quem confere se o menino levou casaco. Foi ela quem o colocou no futsal, insistiu na escola, tentou manter alguma normalidade enquanto o mundo começava a transformá-lo numa celebridade planetária antes mesmo dos 20 anos.

Ronaldo com a mãe Dona Sônia — Foto: Arquivo pessoal / 29-6-2003
Ronaldo com a mãe Dona Sônia — Foto: Arquivo pessoal / 29-6-2003

Quatro anos antes, depois da convulsão na final da Copa de 1998, o planeta discutia Ronaldo como símbolo esportivo. Mãe não discute assim. Mãe volta para o básico. Dormiu? Comeu? Está bem? Em 2002, quando ele ressurgiu na Coreia e no Japão depois de duas cirurgias e anos de desconfiança, o pentacampeonato tenha parecido milagre para muita gente. Para Dona Sônia, foi apenas o filho voltando inteiro para casa.

É que toda Copa também é um desfile de cozinhas apertadas, mães acordando cedo, tanque cheio de roupa, medo de conta atrasada, bronca por chegar tarde da rua, preocupação escondida atrás de “leva um casaco”. Antes de existir um grande jogador de futebol, quase sempre existiu uma mulher tentando impedir que um menino se machucasse no mundo.

Pelé, Garrincha, Caju, Romário e Ronaldo ganharam cinco Copas diferentes. Mas as mães deles pertenciam ao mesmo país. O país da mulher que segura a casa enquanto o resto balança. Que cria filho sem saber se haverá recompensa. Que muitas vezes nem entra na fotografia quando o mundo inteiro começa a apontar a câmera para o garoto. Procurei, nos arquivos do jornal e na internet, imagens de Maria Carolina e Sebastiana para ilustrar a newsletter. Não encontrei.

Daqui a um mês, o Brasil se encontra em mais uma Copa. E neste domingo é Dia das Mães. Eis uma boa hora para lembrar que nenhuma convocação começa no campo. Antes do grito, da taça, da camisa 10 e da estátua na porta do estádio, quase sempre existiu uma matriarca brasileira. Para além de cinco Copas e grandes jogadores, há de se entender que também é vocação deste país a produção em larga escala — e quase sempre em silêncio — de outro tipo de gente admirável. Heroínas improváveis.

O penta também tem mãe.

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