Na contramão da determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que suspendeu a produção de parte dos produtos da marca Ypê na fábrica de Amparo (SP), bolsonaristas foram às redes sociais, neste final de semana, para incentivar a utilização dos itens contraindicados. Além do incentivo, membros da direita aproveitaram a situação para criticar a atuação do órgão federal, bem como sugerir, sem provas, possível “retaliação” e “sacanagem” com a empresa alvo das medidas por supostas motivações políticas. Vídeos de pessoas tomando banho e até ingerindo detergentes da marca também viralizaram nas redes.
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No sábado, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) publicou uma foto segurando um detergente da marca — um dos produtos sob proibição, caso o lote indicado na embalagem termine com o número “1”. “Que dia lindo”, escreveu Michelle na postagem, segurando o item.
Apesar da divulgação, a própria Ypê decidiu interromper a produção na fábrica alvo da Anvisa. A empresa obteve uma liminar para suspender os efeitos da decisão que determinou a suspensão na última quinta-feira, mas definiu que irá aproveitar o período para acelerar o cumprimento das medidas exigidas pelas autoridades sanitárias.
Outro nome bolsonarista que entrou na campanha foi o senador Cleitinho (Republicanos-MG). Ele publicou um vídeo em que lava louças com um detergente da marca, aponta o número de empregos gerados pela empresa e indica que a suspensão teve motivações políticas. Apesar de afirmar que a Anvisa “mandou suspender toda produção”, a medida é válida somente para 25 produtos.
— Quero fazer um desafio para a Anvisa ir na casa de cada brasileiro e fiscalizar as buchas, isso é importante também — afirmou. — Vale uma coincidência: essa empresa, a Ypê, doou para a campanha do Bolsonaro (à Presidência) — completou o senador, que ainda definiu os autores da ação como “um bando de hipócritas”.
Conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), membros da família Beira — como Jorge Eduardo Beira, vice-presidente de operações ds Ypê — doaram R$ 1 milhão para a campanha à reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em 2024, a Justiça do Trabalho também condenou a Química Amparo, proprietária da Ypê, por assédio eleitoral devido à uma live realizada para persuadir funcionários a votarem em Bolsonaro nas eleições de 2022.
Na mesma linha de Cleitinho, o vereador de São Paulo Adrilles Jorge (União) também publicou um vídeo contra a determinação da Anvisa. Segundo ele, o “governo petista” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “censurou” e “quer destruir” a Ypê.
— A marca Ypê foi censurada, está sendo estigmatizada e arrebentada por esse governo federal, através do Ministério da Saúde, que eventualmente percebeu que os donos fizeram campanha para Bolsonaro — declarou o vereador, sem provas.
Ainda em São Paulo, como mostrou o GLOBO, o vice-prefeito da capital Ricardo Mello Araújo (PL) também saiu em defesa da marca em contrariedade à suspensão:
— Aqui em casa, gente, é só produto Ypê. Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com uma empresa 100% brasileira. Vamos nos supermercados comprar produtos Ypê. Quem tem produto Ypê posta no Instagram, marca a Ypê — disse o vice de Nunes.
A inspeção que motivou o fechamento de uma linha de produção da fábrica da Ypê em Amparo (SP) constatou, pela segunda vez, a contaminação de produtos de limpeza com micro-organismos. Fiscais que participaram do trabalho relatam ter constatado problemas de higiene e investigam a origem da contaminação da água nas instalações da empresa que produz detergentes, desinfetantes e sabão para roupa.
O Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo (CVS-SP), sob a administração do governo Tarcísio, manteve a orientação para que consumidores não usem produtos da Ypê, mesmo após a empresa apresentar recurso que suspendeu temporariamente os efeitos da decisão da Anvisa.
A CVS-SP também participou da inspeção na última quinta-feira, junto com a Vigilância Sanitária de Amparo (Visa-Amparo), que resultou na sanção. Segundo o diretor da CVS-SP, Manoel Lara, a decisão de interromper a produção foi motivada por uma incapacidade da companhia de resolver de maneira consistente o problema, constatado inicialmente em novembro do ano passado.
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Naquela ocasião, foi detectada a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em amostras de produtos feitos no ano passado. Esse patógeno não é altamente contagioso, mas oferece risco porque costuma infectar pessoas com baixa imunidade. É um organismo relativamente comum em casos de infecção hospitalar, afetando sobretudo o pulmão, e particularmente em pacientes com fibrose cística.
— Na inspeção foram detectadas falhas nas boas práticas de processamento de produtos. Tinha tanto falhas documentais quanto falhas relacionadas à questão de higiene e limpeza das áreas de produção — disse Lara. — De alguma forma, essas falhas poderiam estar ligadas a essa contaminação por Pseudomonas.
A Anvisa se reúne na próxima quarta-feira para decidir se mantém ou não a suspensão da produção de parte dos produtos da Ypê na fábrica de Amparo, no interior de São Paulo
— A Anvisa segue a ciência e melhor tecnologia. E é assim que ela faz esse processo, de forma rotineira. E damos direito à ampla defesa à empresa. Foi feito agora (sexta-feira), com suspensão desse efeito, só que nós vamos analisar essa questão de forma definitiva na quarta-feira, na reunião de colegiado da Anvisa — afirmou Safatle.

