Após o encontro do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, com o mandatário americano, Donald Trump, na semana passada, falou-se muito, assim como em outras ocasiões, de uma “suposta química” entre os dois chefes, mas se deixou de enfatizar o contexto global, especificamente a ameaça dos chineses de parar de exportar terras raras para os Estados Unidos. É o que apontou Brian Winter, vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas, ao participar do evento Summit Brazil-EUA, organizado pelo Valor em Nova York durante a semana dedicada ao país na cidade americana.
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Winter, que esteve no Brasil recentemente, observou que falar sobre terras raras no país, hoje, pode soar “quase conspiratório”, mas ele acredita que o tema foi fundamental para a mudança de postura dos EUA em relação ao Brasil nas últimas semanas e para a atmosfera positiva em torno do encontro entre os líderes dos dois países.
Ambos podem ser simpáticos, mas “isso faz parte de uma história global”, afirmou Winter.
— Não acho que tenha sido coincidência que essa reunião na Casa Branca tenha acontecido uma semana antes da viagem do presidente [Donald Trump] a Pequim e que grande parte da discussão pareça ter se concentrado, novamente, em terras raras, que muitas pessoas acreditam ser o principal ponto de influência que os chineses têm sobre os EUA nesse momento — disse.
— O Brasil precisa aproveitar o momento — afirmou. Ele observou, no entanto, que, hoje, devido ao licenciamento e à documentação, um projeto de terras raras pode levar até dez anos para ser aprovado no Brasil, e ainda mais tempo para que a escavação, a extração e a produção comecem. — Sei que há urgência no Congresso brasileiro, mas espero que isso continue nos próximos meses para que o Brasil possa realmente aproveitar essa oportunidade que claramente possui.
Para Thomas Shannon, ex-embaixador dos EUA no Brasil e ex-subsecretário de Estado para Assuntos Políticos e do Hemisfério Ocidental, os brasileiros saíram da reunião com Trump confiantes de que, após 30 dias, todos vão reconhecer que os EUA têm superávit comercial com o país e, por isso, não há necessidade de tarifas. “Mas esse não é o objetivo das tarifas”, afirmou.
Shannon observou que, no contexto do encontro com Trump, Lula disse que havia burocracia interferindo nas decisões dos líderes.
— Ele estava falando da burocracia americana, porque os brasileiros detectaram que existe hostilidade real em relação ao Brasil em partes do governo dos EUA, no Departamento de Estado, no Tesouro ou em outros. E foi por questões políticas que toda a disputa começou — pontuou.
A vantagem do Brasil, segundo Shannon, é que essas são decisões que, no fim, o próprio presidente Trump tomará.
— O que se conseguirá com essas conversas e negociações é que o presidente receberá uma série de opções e então ele tomará a decisão — declarou.

