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El Niño tem projeção recorde em 2026 e acende alerta global

BRCOM by BRCOM
maio 25, 2026
in News
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'Sinlaku': supertufão no Pacífico pode sinalizar El Niño e trazer mais chuva ao Sul e calor ao Sudeste do Brasil — Foto: Reprodução

Muito antes de ser compreendido, o fenômeno El Niño já deixava marcas na Humanidade. El Niño é o nome dado a mudanças intensas nos ventos e nas temperaturas das águas do Oceano Pacífico, que podem transformar drasticamente os padrões climáticos globais. Ao longo dos séculos, esses padrões naturais provocaram secas épicas e ondas de calor, além de intensificarem epidemias. Alguns acadêmicos chegaram a apontar marcas do El Niño em crises políticas e econômicas no Egito Antigo ou na queda da civilização Moche, no atual Peru, há mais de mil anos. E, em 1877 e 1878, uma fome agravada pelo fenômeno matou milhões de pessoas em regiões tropicais, acentuando desigualdades.

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Neste momento, o mundo está entrando em uma nova fase do El Niño. Pesquisadores alertam que o deste ano pode ser um dos mais fortes já registrados e invocam o histórico como advertência de que forças naturais, quando atingem sua magnitude máxima, podem levar à profunda instabilidade e sofrimento.

Em geral, o fenômeno provoca condições mais úmidas em algumas partes das Américas, ao mesmo tempo em que reduz a intensidade da temporada de furacões no Atlântico. Ele aumenta o risco de seca no Sul e Sudeste Asiático, na Austrália e no sul da África.

É claro que o atual El Niño ainda está nos estágios iniciais de formação e pode não corresponder às expectativas. Entretanto, se as previsões estiverem corretas, será um evento de grande magnitude, e suas consequências se farão sentir em um mundo que se tornou muito mais resiliente, mas que também tem novas vulnerabilidades.

Os países hoje monitoram os eventos com sensores oceânicos e sistemas de alerta precoce. A agricultura é muito mais sofisticada, e muitos países vulneráveis a choques alimentares mantêm reservas estratégicas de grãos. Ninguém prevê uma fome em larga escala.

‘Sinlaku’: supertufão no Pacífico pode sinalizar El Niño e trazer mais chuva ao Sul e calor ao Sudeste do Brasil — Foto: Reprodução

  • Alerta da FAO: Aumento de episódios de calor extremo leva agricultura mundial ‘ao limite’

Mas especialistas afirmam que um El Niño aumentaria a pressão em um sistema global já fragilizado. A escassez de fertilizantes causada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz está afetando agricultores, e o aumento dos preços da energia por causa das guerras na Ucrânia e no Irã está corroendo os orçamentos dos países.

— Poderíamos ver um aumento da pobreza, da desnutrição, dos conflitos, do endividamento e de todos os efeitos em cascata — disse Laurie Laybourn, que lidera a Strategic Climate Risks Initiative, um centro de estudos com sede no Reino Unido.

Se a História oferece alguma lição, é a de que eventos intensos de El Niño, como o que começou em 1877, impactam fragilidades preexistentes. O daquele ano provocou condições de seca extrema em várias partes do mundo, incluindo Brasil, sul da África e China. Poucos lugares foram tão atingidos quanto o sul da Índia, com relatos da época descrevendo pessoas extremamente magras tentando sobreviver comendo raízes e até vendendo filhos que não conseguiam sustentar.

Porém, apesar de todo o poder da natureza, fatores criados pelo homem provavelmente elevaram o número de mortos, que acabou chegando à casa das dezenas de milhões. Na época, a Índia estava sob domínio colonial britânico, e o historiador Mike Davis, em seu livro de 2001, “Holocaustos do final da Era Vitoriana”, retrata o Império Britânico priorizando seus interesses ao manter enormes exportações de grãos da Índia, mesmo enquanto a população morria de fome.

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Claro, havia outro fator que complicava a resposta ao problema. Naquele tempo, ninguém fazia ideia de por que as chuvas das monções haviam falhado. Cientistas do século XIX teorizavam uma ligação com a redução da atividade das manchas solares.

Um quadro muito mais claro surgiu na década de 1960, quando Jacob Bjerknes, meteorologista da Universidade da Califórnia em Los Angeles, reuniu as peças do quebra-cabeça das consequências globais da interação entre oceano e atmosfera no Pacífico. Séculos antes, peruanos haviam percebido que, às vezes, peixes tropicais apareciam inesperadamente em suas costas por volta do Natal, um fenômeno que acabou recebendo o nome de “El Niño”, ou “o menino Jesus” em espanhol. Bjerknes fez a conexão: o aquecimento do Pacífico observado pelos peruanos estava, na verdade, alterando padrões climáticos no mundo inteiro.

Navios perto do porte El Callao, em Lima, em 2023 — Foto: Ernesto Benavides/AFP
Navios perto do porte El Callao, em Lima, em 2023 — Foto: Ernesto Benavides/AFP

— Aquela foi uma revelação revolucionária — disse Michael McPhaden, cientista sênior da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). — Ele [Bjerknes] abriu um novo universo de estudos.

Na década de 1980, cientistas já estavam em embarcações no meio do Pacífico ancorando boias que permitiam um monitoramento mais preciso da temperatura do oceano. Paralelamente, pesquisadores procuravam pistas sobre o papel do El Niño na história humana, estudando amostras de anéis de árvores, recifes de coral e diários de bordo de marinheiros, criando uma linha do tempo rudimentar de seus episódios mais intensos.

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  • Quebra-cabeças sem peças
      • El Niño tem projeção recorde em 2026 e acende alerta global

Quebra-cabeças sem peças

Os registros não eram precisos o suficiente para medir eventos passados com certeza. Ainda assim, eles levaram a especulações sobre o papel do El Niño ao longo da História, incluindo a hipótese de que um evento no fim do século XVIII possa ter contribuído para as falhas nas colheitas que ajudaram a desencadear levantes na Revolução Francesa. No caso de 1877, que atingiu a Índia de forma severa, a documentação é melhor, mas ainda envolve muitas conjecturas.

“Trabalhar com dados da temperatura da superfície do mar do século XIX é como montar um quebra-cabeça com muitas peças faltando”, escreveu Boyin Huang, oceanógrafo da NOAA.

Os eventos são medidos observando-se os níveis de temperatura em uma vasta área retangular do Pacífico central. Em um fenômeno moderado, as temperaturas podem subir cerca de 1°C acima da média de longo prazo. Mas, nos maiores eventos dos últimos 50 anos — os que começaram em 1982, 1997 e 2015 — as temperaturas ultrapassaram em mais de 2°C o padrão normal. Cada um desses episódios teve impacto econômico global.

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Neste ano, muitas previsões indicam que a temperatura pode subir inéditos 3°C. Mesmo o El Niño de 1877, segundo as melhores estimativas, não alcançou essa magnitude.

— Vários modelos agora mostram uma chance real de um evento recorde — disse Zeke Hausfather, pesquisador da Berkeley Earth. — Mas ainda é cedo para ter certeza.

Os eventos normalmente atingem seu pico de intensidade no fim do ano e, nos meses seguintes, contribuem para temperaturas globais mais altas em terra. Como resultado, muitos cientistas preveem que 2027 será o ano mais quente já registrado.

Escolas na Índia usam sino para lembrar crianças de beberem água durante onda de calor — Foto: Arun Sankar/AFP
Escolas na Índia usam sino para lembrar crianças de beberem água durante onda de calor — Foto: Arun Sankar/AFP

Na Índia, que tende a ficar mais seca, o governo já realizou reuniões preparatórias. Vimal Mishra, professor do Instituto Indiano de Tecnologia de Gandhinagar, afirmou que seu país não enfrenta riscos na mesma escala de mais de um século atrás.

— Se em um ano as monções falharem, não veremos fome — disse Mishra, citando o sistema público de distribuição da Índia, que garante acesso a produtos básicos a preços subsidiados.

Mishra estudou as grandes fomes da Índia e traça uma linha direta entre a fome da década de 1870 e as medidas preventivas que a Índia toma hoje.

— Isso nos dá uma ideia de como estar mais bem preparados — disse ele. — Mostra qual é o pior cenário possível.

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