A trajetória clássica do imigrante brasileiro nos Estados Unidos — do trabalho de baixa qualificação ao empreendedorismo — deixou de ser uma narrativa individual para ganhar dimensão macroeconômica. Em Massachusetts, especialmente na região de Boston, esse movimento transformou a comunidade em um agente relevante da economia local, com impacto bilionário em produção, consumo e geração de empregos.
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Trabalhadores brasileiros contribuíram com cerca de US$ 8 bilhões para a atividade econômica do Estado de Massachusetts em 2022. Empresas fundadas por brasileiros responderam por cerca de US$ 5,7 bilhões em atividade econômica, com impacto estimado sobre 82,5 mil empregos diretos e indiretos. Os dados vêm de estudos da University of Massachusetts Boston em parceria com o Instituto Diáspora Brasil, com base no American Community Survey (ACS).
Segundo o ACS, cerca de 140 mil brasileiros vivem em Massachusetts, mas estimativas do Ministério das Relações Exteriores e do Consulado-Geral do Brasil em Boston, que consideram subnotificações e imigrantes indocumentados, apontam um contingente maior.
—Aproximadamente 400 mil nacionais vivem no Estado de Massachusetts. Na região da Grande Boston, estima-se uma população de 80 mil brasileiros — afirma o vice-cônsul Lauro Beltrão.
A discrepância reflete limitações metodológicas — o censo americano não identifica brasileiros diretamente — e a presença de indocumentados.
Os brasileiros se concentram em setores como construção civil, restaurantes, serviços domésticos, estética e comércio de pequeno porte. Um estudo de 2024 conduzido por pesquisadores ligados ao Diáspora Brasil mostra a existência de cerca de 25 mil negócios ligados à comunidade brasileira.
A presença brasileira no estado remonta aos anos 1970, impulsionada por crises econômicas no Brasil. Nos últimos anos, o perfil migratório se diversificou, com maior presença de famílias e empreendedores, que consolidaram a transição de uma comunidade temporária para um grupo estabelecido.
A mudança se reflete na sofisticação dos negócios e na diversidade de trajetórias. Parte relevante do processo ocorre em setores ligados diretamente ao consumo da própria comunidade.
É o caso da empresária Flávia Leal, fundadora da Flávia Leal Beauty School, uma escola de formação em estética voltada a imigrantes. Ela chegou jovem aos Estados Unidos e passou por diferentes empregos antes de empreender.
A empresária conta que identificou uma demanda na comunidade brasileira por serviços e formação na área de beleza. Em 2025, Flávia faturou US$ 2 milhões apenas com a escola de beleza. Ela também tem negócios nos segmentos têxtil e de construção:
— A escola cresceu além da expectativa inicial. Já foram quase 20 mil profissionais formados ao longo de quase 16 anos.
O caso ilustra um padrão: a identificação de nichos pouco atendidos e a criação de negócios voltados tanto à comunidade brasileira quanto a outros públicos.
Segundo Renato Valentim, empresário com atuação nos setores de hospitalidade e desenvolvimento imobiliário, a experiência inicial em funções operacionais pode servir como base e impulso para a criação de negócios próprios. Valentim começou lavando pratos em um restaurante. Mais tarde, fundou o Boston City Group, grupo multissetorial com operações nos Estados Unidos e no Brasil que emprega cerca de quatro mil pessoas e registra uma receita anual superior a US$ 200 milhões.
No setor imobiliário, a estrutura dos negócios também evoluiu. Victor Queiros, fundador da Checkmate Real Estate, diz que há uma crescente profissionalização. Segundo ele, a empresa atua de forma verticalizada, desde a captação de recursos até a execução e monetização dos projetos, seguindo as regras do mercado americano.
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—Nas obras, trabalhamos com equipes subcontratadas formadas por brasileiros, americanos e hispânicos, ultrapassando cem profissionais envolvidos por projeto — diz Queiros.
Apesar do avanço, a relevância econômica convive com fragilidades. Parte da comunidade ainda enfrenta barreiras de acesso a crédito, serviços financeiros e regularização migratória, o que limita o potencial de expansão e formalização. Além disso, a concentração em setores sensíveis ao ciclo econômico, como construção e serviços, expõe os brasileiros a oscilações em períodos de desaceleração.
Representantes da comunidade apontam que mudanças no ambiente político e migratório já influenciam consumo e contratação.
—As políticas migratórias restritivas dos EUA têm causado impactos significativos pela escassez de mão de obra, em razão dos deportados, retornados e pessoas com medo de sair de casa para trabalhar — analisa Álvaro Lima, diretor do Diáspora Brasil.
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Ainda assim, em cidades como Framingham, Marlborough e Worcester, a presença brasileira tem sido associada à revitalização econômica local, com abertura de negócios, ocupação de imóveis e dinamização do comércio.
Para Mariana Dutra, que em abril organizou um evento com empreendedores brasileiros em Boston, o fenômeno já ultrapassou a lógica de nicho.
— Além de essa comunidade ser numericamente grande, ela tem um impacto econômico muito grande no mercado de trabalho e na economia — avalia.

