Artista plástico, figurinista, compositor e sambista, Heitor dos Prazeres (1898-1966) foi protagonista da vida cultural carioca na primeira metade do século 20. Sua atuação se mostrou fundamental para a criação de algumas das primeiras escolas de samba do Rio de Janeiro (RJ), como Mangueira, Portela e Deixa Falar (que depois daria origem à Estácio de Sá). Ele costumava chamar o território formado pela região portuária do Rio de Janeiro de Pequena África, nome que permanece até hoje.
A região, que abrange bairros como Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Centro, Cidade Nova e Estácio, é um palco histórico de resistência e preservação da cultura africana. Abriga espaços importantes para a história do país, como o Cais do Valongo, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade, e que foi, nas primeiras décadas do século 19, o principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Também preserva a Pedra do Sal, cenário de algumas das primeiras rodas de samba no Rio, e o Cemitério dos Pretos Novos, na Gamboa, onde foram enterrados milhares de africanos escravizados que morreram logo após chegar ao Brasil – enquanto o Morro da Providência é considerado a primeira favela do país.
É um espaço marcado pela trajetória dos negros também depois do fim da escravidão, e que demanda um olhar atento para as reivindicações dos atuais moradores, como lembra Mariana Gino, diretora executiva adjunta do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap).
— Para compreender um território, o viés histórico não é suficiente. A área contém várias pequenas Áfricas, que dependam uma agenda de inclusão social e econômica. Os moradores querem empreender, participar da economia local.
A valorização da memória negra na região envolve a requalificação urbana do território, com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como explica o presidente da instituição, Aloizio Mercadante.
— O objetivo é consolidar a Pequena África como um grande polo internacional de cultura afro-brasileira e turismo de memória, articulando patrimônio histórico, mobilidade urbana, gastronomia, música, religiosidade, empreendedorismo criativo, educação patrimonial e desenvolvimento econômico local.
Nesse contexto se insere o Projeto do Distrito Cultural da Pequena África, elaborado pelo BNDES, com apoio técnico do Consórcio Valongo Patrimônio Vivo. A iniciativa foi acompanhada, desde as origens, por sete entidades, indicadas pelo Comitê Gestor do Sítio Arqueológico Cais do Valongo. Elas participaram dos estudos desenvolvidos pelo banco na região, além de acompanhar semanalmente o andamento dos trabalhos.
No final de 2025, foi entregue o masterplan preliminar, que apresentou uma visão integrada para o território, considerando suas dimensões urbanísticas, ambientais, culturais, sociais e econômicas. Com foco em criar uma rede de equipamentos culturais e comunitários concebidos para apoiar usos contínuos e fortalecer a presença institucional no território, o projeto propõe a requalificação de praças e espaços públicos, a criação de percursos culturais, a melhoria da mobilidade e a ativação de áreas hoje subutilizadas. Com base no masterplan preliminar foram realizadas oficinas para escutar a comunidade e avaliar ajustes no projeto final.
O objetivo é consolidar a Pequena África como um grande polo internacional de cultura afro-brasileira e turismo de memória, articulando patrimônio histórico, mobilidade urbana, gastronomia, música, religiosidade, empreendedorismo criativo, educação patrimonial e desenvolvimento econômico local”
— Aloizio Mercadante, presidente do BNDES
Na frente da valorização cultural, o Viva Pequena África foi idealizado pelo BNDES para preservar, difundir e promover a memória e a herança cultural africana no Brasil. O projeto tem valor total de R$ 20 milhões, sendo metade dele aportada diretamente pelo banco e metade por outros financiadores. O projeto é gerido por uma coalização selecionada pelo BNDES, em chamada pública, formada por Ceap, Diaspora.Black e Feira Preta.
Desde o seu lançamento, o programa avançou em diferentes frentes, incluindo o apoio financeiro a projetos culturais do território. Em maio de 2025 foi lançado o primeiro edital de seleção de projetos culturais, destinando até R$ 5 milhões ao fortalecimento de instituições culturais atuantes no território. Além da doação de recursos a seus projetos, as dez instituições selecionadas receberam apoio por meio de um ciclo formativo estruturado, baseado na metodologia Feira Preta Cria, composto por 16 encontros presenciais com foco em fortalecimento institucional e sustentabilidade organizacional.
Outra entrega, esperada para 2026, é o lançamento do edital da Rede Memória Viva, uma ação que vai conectar e promover, nacional e internacionalmente, organizações de base territorial dedicadas à preservação e à valorização da memória africana no Brasil. Poderão ser selecionadas tantas organizações territoriais quantas se inscrevam e preencham os requisitos técnicos adotados. Todas receberão capacitação para desenvolvimento de afroturismo, entre outras atividades. A partir da ação, será feito, também, um mapeamento de territórios representativos da herança africana no país, fomentando a integração entre eles.
— Identificar outras Pequenas Áfricas no Brasil significa reconhecer territórios que preservam a memória viva da população negra e impulsionam o afroturismo como estratégia de desenvolvimento econômico e valorização cultural. A Rede nasce para fortalecer essas iniciativas e conectá-las nacionalmente — afirma Antônio Pita, diretor da Diaspora.Black.
Entre as ações apoiadas pelo BNDES no contexto do projeto Viva Pequena África para valorização da cultura e tradição negra no Brasil, está a realização, de 29 a 31 de maio, no Píer Mauá, de uma nova edição do Festival Feira Preta, um dos maiores eventos de cultura e empreendedorismo negro da América Latina.
Durante o evento, o BNDES contará com um espaço onde será realizada uma exposição com fotografias e vídeos imersivos das ações estruturadas pela instituição no território, além da exibição de filmes com a temática racial patrocinados pela entidade. Também serão realizadas diversas apresentações culturais com o apoio do Banco, que disponibilizará um espaço para que empreendedores possam tirar dúvidas sobre as formas de apoio e as ações desenvolvidas para a Pequena África. Como explica a fundadora da Feira Preta, Adriana Barbosa, o objetivo do festival é conectar cultura, economia criativa e identidade negra com shows, palestras, gastronomia e feira de empreendedores negros. E, assim, deixar um legado.
— A historicidade da Pequena África é um ativo importante. A vocação econômica da região passa por valorizar a cultura, a história, a gastronomia, a moda local, sem apagar a dor deixada pela escravidão. Queremos potencializar tudo o que esse território tem a oferecer ao Brasil e aos seus moradores — comenta Adriana.
A historicidade da Pequena África é um ativo importante. A vocação econômica da região passa por valorizar a cultura, a história, a gastronomia, a moda local, sem apagar a dor deixada pela escravidão. Queremos potencializar tudo o que esse território tem a oferecer ao Brasil e aos seus moradores”
— Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta
A iniciativa reforça o momento da região, que já recebe visitantes, pesquisadores, estudantes e turistas interessados em conhecer esse patrimônio histórico e cultural, antes mesmo da chegada de apoio institucional, como lembra Mercadante.
— Memória também é desenvolvimento econômico, turismo, educação, economia criativa e projeção internacional. Mas nada disso teria sido preservado sem o trabalho histórico de resistência de organizações, coletivos culturais, instituições religiosas, sambistas, lideranças comunitárias, pesquisadores e entidades do movimento negro que atuam há décadas naquele território. O que o BNDES está fazendo hoje é reconhecer essa trajetória de resistência e fortalecer quem sempre sustentou essa memória viva — finaliza o presidente do BNDES.
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