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Guerra no Irã impõe sombra à celebração dos 250 anos de independência dos EUA e causa fissuras na base de Trump

BRCOM by BRCOM
maio 29, 2026
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“Com uma única folha de pergaminho e 56 assinaturas, os Estados Unidos iniciaram a maior jornada política da História da humanidade”, afirmou em 2019 o presidente dos EUA, Donald Trump, em uma declaração que se tornou hoje o pilar de uma de suas prioridades de governo: a celebração dos 250 anos da independência do país. Trump será anfitrião de eventos — incluindo uma Copa do Mundo —, realizará intervenções arquitetônicas e promoverá um evento de UFC no quintal de casa. Mas outra de suas decisões cruciais no mandato, a guerra no Irã, ofusca o dourado da festa. Um conflito cujo desfecho não deve ser favorável aos EUA, e que já impacta negativamente sua imagem.
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Ao contrário do conflito rápido e da vitória certa anunciados no final de fevereiro, os 40 dias de bombardeio e as semanas de cessar-fogo não levaram à derrota da República Islâmica, tampouco à destruição total de suas capacidades de defesa ou de seu programa nuclear. Em um movimento com impactos globais, a Guarda Revolucionária praticamente fechou o Estreito de Ormuz, por onde passavam 20% das exportações globais de petróleo e gás, causando um dos maiores choques no setor de energia da História. Nas negociações, os iranianos parecem ter a melhor mão à mesa.
— Acredito que um dos sucessos do Irã na condução da crise tenha sido conseguir tirar o foco do programa nuclear e do programa de mísseis e transformar a guerra em uma questão sobre Ormuz — afirmou ao GLOBO o professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme) Sandro Teixeira Moita. — Qualquer acordo que libere Ormuz terá grandes chances de ser aceito pelos EUA, que também estão sendo pressionados pela comunidade internacional.
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Teerã não tem pressa para um acerto. Ao contrário de Trump.
— Trump não é dominado por considerações estratégicas de longo prazo, ele é dominado pelo ciclo da mídia. Ele está preocupado porque não quer chegar a junho, a julho, quando acontecerão a Copa do Mundo e os 250 anos dos EUA, com uma guerra se arrastando — diz Moita. — E o Irã conseguiu algo brilhante: colocar o Trump como um mau negociador. Isso afetou severamente o ego dele.
Presidente dos EUA, Donald Trump, segura o troféu da Copa do Mundo na Casa Branca
ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
Querendo ou não, a guerra já mexeu em seus planos para o semiquincentenário.
A participação da seleção do Irã, uma das primeiras a se classificar para a Copa do Mundo, foi confirmada a apenas algumas semanas do torneio. Na segunda-feira, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse que seu país servirá como base da delegação iraniana depois da recusa dos EUA em recebê-los. O “Team Melli” (apelido da seleção do Irã) jogará suas partidas da primeira fase do mundial em território americano, e não se sabe como serão os trâmites migratórios. — em junho do ano passado, a entrada de seus cidadãos foi vetada por Washington, e em dezembro, integrantes da federação do Irã foram barrados quando tentavam acompanhar o sorteio dos grupos. As críticas se acumularam, vindas de governos, organismos internacionais e do mundo do futebol.
— O presidente da Fifa nos prometeu que todos os nossos jogadores receberiam vistos. Não há razão para que nossos jogadores não recebam vistos — disse o ministro dos Esportes do Irã, Ahmad Donyamali, citado pela agência de notícias Isna. — Espero que todas as condições sejam atendidas para que a seleção nacional possa participar do torneio de forma tranquila e organizada.
Em março, a seleção do Iraque precisou percorrer parte do trajeto até o México, onde seria disputada a repescagem para a Copa, devido à guerra na qual seu país era um cenário secundário de confrontos e bombardeios. A equipe se classificou com uma vitória sobre a Bolívia, e ficará baseada em um centro de treinamentos no estado da Virgínia. Há duas semanas, um representante da federação local disse que cinco jogadores não receberam vistos, mas a Casa Branca negou que haja problemas do tipo.
Estrutura montada para luta de UFC na Casa Branca
Doug Mills/The New York Times
Em um cenário de crescente mal estar com a guerra de Trump, e de custo de vida em alta (um efeito direto do conflito), os gastos com os festejos dos 250 não são exatamente populares. Uma arena para pouco mais de 4 mil pessoas está sendo erguida nos jardins da Casa Branca para um evento de UFC — o “Freedom 250” —, a pedido de Trump, um entusiasta das lutas, a um preço de US$ 60 milhões. As críticas não tardaram.
“Você está pagando mais pelos mantimentos. Mais pela gasolina. Mais pelo seguro de saúde. Tudo isso enquanto Trump gasta seu dinheiro em um arco extravagante de 76 metros perto do Cemitério de Arlington, uma jaula de UFC no gramado sul e demolindo a Ala Leste para construir seu salão de baile. Isso precisa parar”, escreveu no X o deputado Jared Huffman, deputado democrata, se referindo a outras obras do presidente ligadas aos 250 anos, todas com orçamentos de algumas dezenas (ou centenas) de milhões de dólares.
Projeto mostra ‘Arco de Trump’, de 76 metros, construção que é contestada internamente
U.S. Commission of Fine Arts via The New York Times
A aprovação do presidente está abaixo dos 40%, os republicanos se encaminham para a perda do controle da Câmara e há chances de perder também o Senado nas eleições de novembro. Para alguns analistas, ao buscar o fim imediato para a guerra, mesmo que em termos desagradáveis, Trump tenta reduzir as perdas. Mas a estratégia está deixando aliados incomodados.
“Se um acordo for firmado para encerrar o conflito com o Irã, devido à crença de que o Estreito de Ormuz não pode ser protegido do terrorismo iraniano e que o Irã ainda possui a capacidade de destruir a infraestrutura petrolífera do Golfo, então o Irã será percebido como uma força dominante que exige uma solução diplomática”, afirmou o senador republicano Lindsey Graham, no X, afirmando que este cenário seria um “pesadelo para Israel”.
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Ted Cruz, outro trumpista fiel, criticou possíveis concessões a Teerã, como o descongelamento de ativos no exterior e direitos sobre Ormuz, as classificando como “um erro desastroso”. Roger Wicker, chefe da Comissão de Serviços Armados do Senado, chamou a ideia de um cessar-fogo de 60 dias, destinado à discussão de temas mais densos (como o programa nuclear) de “um desastre”.
“Tudo o que foi conquistado pela Operação Fúria Épica teria sido em vão”, acrescentou.

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