A Comissão de Relações Exteriores do Senado pretende convocar uma representação dos Estados Unidos no Brasil para prestar esclarecimentos sobre a decisão do governo americano de classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas.
Ainda não há data marcada para a sessão, mas a reunião foi confirmada pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente do colegiado.
– Vamos fazer uma sessão especial nas comissões de Relações Exteriores e na de Controle e Inteligência para tratar desse tema, chamando especialistas e a Embaixada americana – disse ao GLOBO.
Os Estados Unidos hoje não possuem um embaixador no Brasil e o principal representante em solo brasileiro é o encarregado de negócios Gabriel Escobar. Apesar disso, ainda não está claro se Escobar vai participar da reunião, já que ele decidiu sair do cargo e vai voltar aos Estados Unidos a partir de julho. Natasha Franceschi deve substituí-lo na função de encarregada de negócios.
A decisão sobre as facções foi anunciada pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e aconteceu na mesma semana em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente, teve reuniões com o presidente americano Donald Trump e o próprio Rubio.
Enquadrar as organizações criminosas como terroristas é uma demanda do bolsonarismo, mas setores do Congresso, até mesmo distantes da esquerda, veem a medida como negativa.
Trad demonstra preocupação ao falar sobre o tema:
“Uma eventual classificação dessas facções como organizações terroristas pelos Estados Unidos precisa ser analisada com cautela. O combate ao crime organizado é necessário e urgente, mas não pode abrir margem para qualquer tipo de interferência sobre a soberania nacional”, disse em nota.
O Congresso chegou a debater uma mudança legislativa que classifica as facções como terroristas, mas o tema não avançou. Um projeto nesse sentido, de autoria do deputado Danilo Forte (PP-CE), está parado na Casa.
Em outra frente, bolsonaristas tentaram incluir essa medida na lei antifacção, que foi aprovada, mas sem esse trecho. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), usou uma manobra regimental para descartar uma emenda que incluiria esse dispositivo e o assunto nem chegou a ser votado.
Na época, Motta fez acenos ao governo e à oposição para aprovar o projeto antifacção.
Ao mesmo tempo que escolheu o deputado bolsonarista Guilherme Derrite (PP-SP) para ser o relator, ele adotou o mesmo discurso do governo e chegou a se posicionar publicamente contra classificar as facções de terroristas e disse que isso afastaria investimentos para as empresas nacionais.

