A Copa do Mundo começa daqui a 12 dias. Neymar foi convocado e, mesmo machucado, é o centro das atenções na seleção. Carlo Ancelotti enfim vai comandar o Brasil no Mundial. As redações estão virando noites para fechar escalas, reservar hotéis, organizar enviados, montar especiais, gravar vídeos, produzir infográficos e fingir que conseguem entender tudo sobre uma Copa com 48 seleções espalhadas por três países e quatro fusos horários.
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E ainda assim a capa da parte esportiva do jornal de hoje é João Fonseca.
Não porque o Brasil ganhou um título. Não porque ele chegou à final de Roland Garros. Não porque tenha feito algo que entre para a história do esporte brasileiro. A capa é dele porque, por algumas horas, um garoto de 19 anos conseguiu fazer algo que parecia improvável: convencer um país que deveria estar pensando em Copa do Mundo a olhar para uma quadra de tênis em Paris durante mais de quatro horas numa sexta-feira à tarde.
E nem foi a primeira vez nesta semana que ele precisou desafiar o improvável.
Na estreia, João já havia saído de um buraco daqueles que costumam encerrar campanhas antes mesmo de elas começarem. Depois de algumas derrotas recentes, começaram a aparecer aqueles comentários que sempre aparecem quando um brasileiro surge cedo demais: será que não estamos exagerando? Já perdeu de novo? Ele até perdeu, mas só os dois primeiros sets para o croata Dino Prizmic. Virou para 3 a 2 e seguiu adiante. Naquele momento, parecia apenas mais um capítulo daquelas histórias que o esporte adora produzir para jovens talentos: muito sofrimento, algum aprendizado e uma eliminação honrosa logo ali na esquina.
A esquina tinha Novak Djokovic esperando.
E foi aí que a história ficou estranha.
Porque derrotar Djokovic já seria suficiente para transformar qualquer tarde em Roland Garros numa tarde memorável. Fazer isso depois de perder novamente os dois primeiros sets, num Grand Slam, diante de um jogador que transformou partidas impossíveis numa especialidade profissional durante duas décadas, é outra categoria de acontecimento. Fechou o jogo em cinco sets, terminando a partida com três aces seguidos, com a tranquilidade de quem chupa um Chica-Bon. O mais impressionante não foi a qualidade do tênis. Foi a maneira como aquilo tudo pareceu normal.
João não jogou como quem estava vivendo a maior e mais longa partida da carreira. Jogou como quem acreditava que aquilo fazia sentido. Existe uma arrogância saudável nos grandes atletas. Não a arrogância de quem se acha melhor do que os outros, mas a de quem olha para situações absurdas e pensa: “sim, isso parece perfeitamente possível”. Quem pensa, na verdade, deve ser o corpo, porque na entrevista ao fim da partida ele admitiu que não acreditava muito na vitória.
Existe algo nos gestos de João que lembra outros campeões. Não o jeito de jogar, mas a relação com o improvável, com o difícil. Em momentos diferentes, Senna, Guga, Ronaldo, Marta e Rebeca pareciam ignorar a dimensão do que estavam tentando fazer.
É também por isso que é difícil saber onde termina a empolgação e começa a análise — escrevi esta newsletter literalmente minutos após o quinto set. O cenário ajuda. Djokovic está fora. Sinner já caiu. Alcaraz, lesionado, nem a Paris foi. Já foram três vitórias. Faltam quatro para que João alcance algo que nenhum brasileiro consegue desde Guga em 2001.
Isso faz parecer que ele vai ganhar Roland Garros? Claro que não. Mas também não parecia que o jovem, em fase irregular, viraria dois jogos seguidos depois de perder os dois primeiros sets. Não parecia que eliminaria Djokovic. Não parecia que chegaria às oitavas, algo que nenhum brasileiro conseguia havia 16 anos.
O problema de João Fonseca, para quem tenta analisá-lo com prudência demais, é que ele vem transformando rapidamente as certezas pessimistas em lembranças positivas.
Fazia tempo que um atleta brasileiro não aparecia num dos maiores palcos do esporte mundial com a ousadia de atrapalhar a programação normal. A Copa estava chegando e tinha reservado o palco inteiro para si. Todo sujo do bairro de saibro, com cara de adolescente perdido procurando a sala errada da festa, João Fonseca entrou sem convite.
A próxima semana é a última antes do Mundial. Pode ser também a primeira, em muito tempo, em que um brasileiro nos lembre que o país do futebol, às vezes, aparece também entre as linhas retas e os destinos tortos da emoção de uma quadra de tênis.

