Poucos produtos atravessam memória, identidade e desejo de forma tão simbólica quanto o perfume. No mercado de luxo, as fragrâncias deixaram de ocupar um papel apenas complementar na rotina de beleza para ganhar espaço dentro de um universo que envolve design, narrativa visual e construção sensorial. Em meio ao crescimento global da perfumaria de nicho, o Brasil também passou a demonstrar maior procura por composições autorais, mais concentradas e associadas à ideia de assinatura pessoal.
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Levantamentos do setor de cosméticos e perfumaria apontam que o Brasil ocupa posição de destaque no mercado global da categoria. As pesquisas também indicam crescimento das fragrâncias de maior concentração no país. Entre janeiro e agosto de 2024, o segmento registrou alta em relação ao mesmo período do ano anterior.
Nesse cenário, marcas de luxo passaram a ganhar espaço entre consumidores interessados não apenas no aroma, mas também na construção estética e conceitual dos perfumes. Entre elas está a italiana Xerjoff, fundada em Turim por Sergio Momo, que construiu uma marca associada à combinação entre perfumaria, design e referências artísticas.
Para Momo, a relação com os aromas começou ainda na infância. “O perfume sempre fez parte da minha vida, desde muito jovem. Meu pai trazia óleos perfumados de suas viagens pela Ásia, com aromas que eram diferentes de tudo o que eu já havia sentido antes”, afirma. A memória familiar também teve papel importante. “Minha avó também era apaixonada por perfumes e tinha uma coleção bastante especial. Entre ela e meu pai, isso acabou se tornando um interesse familiar que atravessou gerações”, conta.
Antes de entrar no setor, Momo trabalhou com design gráfico e chegou a abrir a própria agência criativa. A aproximação com a perfumaria veio nos anos 2000, quando decidiu estudar o ofício em Grasse, cidade francesa historicamente ligada ao universo olfativo.
“Minha própria jornada criativa começou no design. Os primeiros perfumes que produzi nasceram de um projeto ambicioso: criar uma joia dentro de outra joia, um perfume guardado em um frasco de quartzo”, diz.
A relação entre fragrância e objeto aparece como um dos elementos da proposta da marca. Em vez de tratar o perfume apenas pelo aroma, a criação incorpora também aspectos visuais e táteis, como frasco, peso e textura, à experiência de percepção.
“Como os aromas são invisíveis, o frasco assume a missão de representar essa essência e transmitir uma sensação do que ela é”, explica Momo. “A estética do perfume prepara o cenário, fazendo com que a experiência comece à primeira vista”, acrescenta.
Segundo ele, o contato visual e tátil influencia a percepção antes mesmo do uso: “Assim que você vê o frasco, sua forma, seus materiais e suas cores, o cérebro começa a imaginar como é o aroma. O peso e as texturas também ajudam a criar essa expectativa.”
Fundador da Xerjoff, Sergio Momo aposta em perfumes como experiência sensorial
Divulgação
Hoje, a marca reúne 17 coleções desenvolvidas a partir de referências que vão de viagens e encontros a culturas, tradições e experiências pessoais. “A inspiração para as coleções pode surgir a qualquer momento. Às vezes está ligada às minhas próprias paixões, mas também pode vir de qualquer lugar, como um momento, uma pessoa, um lugar ou diferentes culturas e tradições que encontrei ao redor do mundo”, destaca.
Essa busca por narrativas mais amplas ajuda a explicar a força da perfumaria de nicho no Brasil. O consumidor passa a buscar fragrâncias que não se limitem ao aspecto olfativo, mas que tragam também repertório e identidade.
“Na Xerjoff, buscamos sempre criar o inesperado. Isso passa por olhar as coisas sob ângulos ainda não explorados e revelar potenciais que permanecem ocultos”, comenta.
A conexão com o Brasil também aparece em criações inspiradas nas viagens de Momo pela Amazônia. “Todos esses aspectos juntos criaram uma atmosfera única, quase surreal. Os cheiros, o calor, o peso do ar, a flora e a fauna, os sons que se ouvem e até mesmo a forma como o tempo passa. Criar esses perfumes me deu uma forma de tentar expressar esse sentimento sem a necessidade de palavras”, resume.
No Brasil, o avanço desse tipo de perfumaria acompanha uma mudança mais ampla no comportamento de consumo. O perfume passa a ser visto menos como item de beleza ou status e mais como forma de expressão pessoal, em que memória, repertório cultural e identidade ganham relevância na escolha das fragrâncias.

