Ainda que venham, assim como a seleção brasileira, de goleadas na primeira das duas rodadas de amistosos pré-Copa do Mundo, os rivais do Brasil não chegam ao Mundial em seus melhores momentos. Seja por questões sociais, administrativas ou do campo e bola, Haiti, Marrocos e Escócia vivem fase de instabilidade, assim como (ou pior) do que o esquadrão de Carlo Ancelotti.
Na vitória por 4 a 1 sobre Curaçao, no último sábado, a Escócia, que amanhã enfrenta a Bolívia, viu Billy Gilmour, de 24 anos, sofrer uma lesão no joelho que o tirou da Copa. O meio-campista do Napoli teve que ser cortado, e o técnico Steve Clarke convocou Tyler Fletcher, promessa de 19 anos do Manchester United.
— Não tenho palavras. Estava tão perto de realizar um sonho de infância, que era jogar uma Copa do Mundo, e agora isso foi tirado de mim por causa de uma lesão. É difícil processar tudo isso — disse Gilmour.
Adversário da seleção na estreia, no dia 13, o Marrocos desponta como o rival tecnicamente mais forte do grupo C. Com um elenco que manteve os principais nomes da histórica campanha do quarto lugar no Mundial do Catar, em 2022, a seleção marroquina goleou Madagascar por 4 a 0 na última terça-feira, e enfrentará a Noruega no domingo.
No entanto, se a seleção brasileira lamenta o pouco tempo sob o comando de Ancelotti — 13 meses no cargo —, a situação de Marrocos é ainda pior. Mohamed Ouahbi, que fez História ao se sagrar campeão da Copa do Mundo sub-20 no ano passado, foi promovido há três meses. Ele substitui Walid Regragui, que esteve no Mundial do Catar e deixou a equipe após a Copa Africana das Nações, em janeiro.
Ao todo, são quatro partidas de Ouahbi no cargo: vitórias contra Paraguai, Burundi e Madagascar e empate com o Equador. Com a promessa de um futebol ofensivo, o técnico belga precisará, assim como fez seu antecessor, encontrar um encaixe para a equipe num curto período de tempo.
— Só porque estamos jogando contra o Brasil não significa que vamos passar o tempo todo defendendo. Quer que eu diga a Ancelotti como vamos jogar? Acho que ele não vai dizer… (risos) — brincou Ouahbi no final do mês passado.
A goleada do Haiti por 4 a 0 sobre a Nova Zelândia, na madrugada de terça para quarta-feira, gerou memes nas redes sociais. “Estou com medo”, brincavam os internautas.
A classificação do Haiti para a Copa do Mundo por si só já é uma história de heroísmo. Sob o comando de Sébastien Migne, técnico francês que nunca pôde viajar ao país por causa da escalada de violência que domina a ilha, a seleção haitiana foi forçada, nas eliminatórias, a mandar seus jogos em Curaçao, a cerca de 800 km. Em Porto Príncipe, capital do país, quem dá as rédeas são as gangues armadas que controlam o território.
— É muito perigoso — disse Migne em entrevista passada à BBC Sport. — Normalmente moro nos países onde trabalho, mas não posso. Não há mais voos internacionais aterrissando lá.
O técnico francês montou seu elenco com base em informações enviadas por dirigentes haitianos por telefone. O único jogador entre os 26 convocados a atuar no país é Pierre Woodensky, que perdeu os primeiros dias de preparação, na Flórida, por conta do atraso na emissão do seu visto americano. Em junho de 2025, o presidente americano, Donald Trump, suspendeu por tempo indeterminado, a entrada de cidadãos de 19 países nos EUA, e o Haiti está entre eles — os “participantes de certos grandes eventos esportivos” são a exceção.
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Ao confirmar a sua presença na Copa do Mundo após 52 anos de ausência, o Haiti passou a negociar possíveis reforços para o seu elenco. O principal alvo era Odsonne Edouard, filho de haitiano, e destaque do campeonato francês, com 12 gols marcados pelo Lens. Ele, no entanto, recusou a convocação.
— Eu não senti que tinha o direito de jogar essa Copa do Mundo porque os jogadores lutaram muito para se classificar, e eu não ia aparecer na última hora só para aproveitar. Eu tenho que conquistar isso — explicou Edouard.
Além dele, o Haiti também não conseguiu convencer Gorby Jean-Baptiste, do Braga, a atuar pelo país na Copa do Mundo. Com origem haitiana e nascido em Nantes, o meio-campista de 23 anos tem o sonho de jogar pela França.

