Os participantes da 30ª Parada levaram as cores do Brasil para o desfile deste ano. Camisetas da seleção, bandeiras, meias e chapéus traziam as cores da seleção, mas quem vestia o verde e amarelo conta que a escolha é motivada mais pela proximidade das eleições do que entusiasmo pela Copa do Mundo, que começa na próxima semana.
A organização do evento elegeu a importância do voto e a defesa dos direitos da comunidade LGBT+ como o tema central de 2026.
— Hoje podemos por a bandeira do Brasil na nossa causa, símbolo que por muito tempo foi apropriado pela extrema-direita — diz a assistente social Silvia Maria de Lima, de 58 anos, que trabalha em uma ONG voltada para o atendimento de pessoas portadoras de HIV.
— É a primeira vez que vejo essas cores (do Brasil) sendo tão usadas na Parada. A política é um tema muito importante diante de um mundo polarizado. Acho que podemos tratar essa briga esquerda-direita de uma maneira mais saudável — diz o psicólogo Ruggeri Tavares, de 34 anos.
Andreza Costa e Elida Silva, de Belém (PA), na Parada LGBT+ de 2026, em SP
Maria Isabel Oliveira / O Globo
A Parada deste ano teve uma queda substancial no número de marcas patrocinadoras e precisou reduzir o número de trios elétricos que desfilam pela Avenida Paulista.
— Estamos vendo uma falta de patrocínios nos trios. E para mim isso está muito relacionado a esse clima conservador que estamos vendo na sociedade. Esse ano precisamos defender o voto consciente para a comunidade LGBT, defender que todos temos os mesmos direitos — diz a psicóloga Andrea Domanico, de 60 anos.
— Essa bandeira simboliza que o Brasil é um país de todas as cores e que todas as cores precisam ser respeitadas — diz Suely Oliveira, 67 anos, esposa de Andrea.
Andrea Domanico e Suely Oliveira, na Parada LGBT+ de 2026, em São Paulo
Guilherme Queiroz / O GLOBO
De Belém do Pará, o casal Andreza Costa e Elida Silva, as duas com 41 anos, se impressiona com a quantidade de pessoas no evento e contam que é a primeira vez que participam de uma Parada que elegeu a política como tema principal.
— Acho que além da gente se divertir, saímos bem orientados sobre os temas em debate na comunidade e os questionamentos que temos que fazer. Precisamos de mais vozes que nos representem dentro e fora da política — diz Andreza.
Quem também veio de outro estado para curtir o evento é o estudante de medicina Gabriel Yuri Pereira, de 21 anos.
— Sou de Itajubá, Minas Gerais. Tinha muita vontade de conhecer o evento e o tema desse ano me chamou atenção. É legal ouvir sobre as visões políticas das pessoas e precisamos falar mais sobre esse assunto — diz Pereira.
Menos patrocínio
A 30ª edição da Parada terá shows de nomes como Pabllo Vittar e Glória Groove, mas queda no número de patrocinadores e trios elétricos — além de enfrentar resistências políticas, a exemplo de um projeto de lei municipal que tenta limitar a celebração.
Silvia Maria de Lima e Ruggeri Tavares, na Parada LGBT+ de 2026, em São Paulo
Guilherme Queiroz / O GLOBO
A Associação da Parada do Orgulho LGBT, ONG responsável pela organização e atualmente presidida por Nelson Matias Pereira, calcula que, entre 2025 e 2026, a saída de grandes empresas patrocinadoras provocou uma queda de 60% na receita destinada à realização da festa. No ano passado, foram 12 marcas apoiando o evento. Neste ano, são apenas três empresas: a patrocinadora oficial Amstel, o Grupo L’Oréal no Brasil como copatrocinador e a Philip Morris Brasil como apoiadora.
Neste ano foi confirmado o desfile de 14 trios elétricos, uma queda em relação a infraestrutura de 2025, quando foram 19. Como mostrou O GLOBO , a Parada chega à 30ª edição com uma infraestrutura mais enxuta por conta da queda no número de patrocinadores. O encolhimento ocorre em meio a uma retração global de investimentos corporativos em diversidade e inclusão.
O cenário atual contrasta com o período imediatamente posterior à pandemia, quando houve forte crescimento do interesse corporativo. O número de marcas patrocinadoras saltou de uma média de quatro para o pico histórico de 18 em 2024, impulsionado pela consolidação das agendas de diversidade e inclusão no planejamento de grandes empresas.
Na Câmara de Vereadores da capital paulista, em maio, um projeto de lei aprovado em primeira votação tenta proibir a presença de crianças e adolescentes e eventos públicos e privados que façam “alusão ou fomente práticas LGBT+”. O texto tenta ainda impor uma classificação indicativa para maiores de 18 anos e multas em caso de descumprimento, além de impedir a interdição de vias públicas para realização de eventos como a Parada.
A programação deste ano do evento inclui shows de artistas como Pabllo Vittar, Glória Groove, Melody, Urias, Pepita, Jup do Bairro e Majur. A concentração se inicia na Paulista por volta das 10h, na altura da Rua Peixoto Gomide, e os trios circulam no sentido da Rua da Consolação.
Cerca de 1,5 mil policiais trabalham na segurança do evento, segundo a secretaria estadual de Segurança Pública, que será monitorado também por meio de drones e câmeras. Gradis e torres de observação foram colocados em diversos pontos da Avenida Paulista e da Rua da Consolação.
Em ano eleitoral, os organizadores elegeram como tema o papel da Parada como espaço de mobilização política e social para a defesa de direitos da população LGBT+. Em comunicado, os responsáveis destacam o papel do voto como instrumento de garantia de direitos e chamam atenção para a importância da ocupação nas ruas como ferramenta de atuação política.

