O amor romântico pode contribuir para a felicidade, mas, se você vai passar o Dia dos Namorados na solteirice, não precisa se preocupar: estar em um relacionamento não é uma condição indispensável para uma vida satisfatória. Essa é a avaliação de especialistas em comportamento e saúde mental ouvidos pelo GLOBO, que destacam que o bem-estar está mais relacionado à qualidade dos vínculos construídos ao longo da vida do que à presença de um parceiro amoroso.
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Segundo Chrystina Barros, especialista em Ciência da Felicidade pela Universidade de Berkeley, na Califórnia, a felicidade humana está profundamente conectada aos relacionamentos, mas eles não precisam ser necessariamente amorosos.
— É muito difícil falar de felicidade completamente sozinho. A felicidade humana está profundamente ligada aos relacionamentos e não depende de ter ou não um parceiro. Ela depende muito mais da qualidade das relações que construímos ao longo da vida. O amor faz parte dessa equação, mas não é a única variável — afirma.
De acordo com Chrystina, estudos sobre felicidade mostram que pessoas mais satisfeitas com a vida costumam manter conexões significativas por meio da família, das amizades, da comunidade ou até mesmo do ambiente profissional.
A psicóloga clínica Andreia Batista reforça essa avaliação e afirma que o estado civil, por si só, não determina o nível de felicidade de uma pessoa.
— Embora os vínculos afetivos sejam uma fonte importante de afeto, apoio e pertencimento, eles representam apenas uma parte da experiência humana. O bem-estar está relacionado a diversos fatores, como propósito de vida, amizades, família, saúde física e mental, realização profissional e a qualidade da relação que desenvolvemos conosco mesmos — explica.
Como não cair em armadilhas psicológicas
Um dos erros mais comuns das pessoas que colocam os relacionamentos amorosos como responsáveis por sua felicidade é associar autoestima à existência de um relacionamento. Para Andreia, muitas pessoas acabam colocando a própria vida em compasso de pausa enquanto aguardam encontrar um parceiro.
— Muitas vezes, sem perceber, a pessoa começa a acreditar que a felicidade está esperando por ela em algum relacionamento futuro. É como se a vida estivesse em modo de espera até que alguém apareça. O problema é que, enquanto esperamos, deixamos de investir em outras áreas igualmente importantes — observa.
A autoestima, quando fortalecida, passa pelo desenvolvimento da própria identidade, por meio de amizades, projetos pessoais, cuidado com a saúde física e emocional e experiências que proporcionem realização. Chrystina sinaliza que a construção deste sentimento para consigo mesmo não pode ser presenteado por um terceiro.
— Autoestima é algo que vem da gente para a gente. Não é algo que recebemos de outra pessoa. Quando colocamos nossa autoestima nas mãos de alguém, transferimos para ela a responsabilidade sobre como nos enxergamos — pontua.
É errado querer estar em um relacionamento?
Há um limiar entre o desejo saudável de viver um relacionamento amoroso da crença de que apenas ele é capaz de proporcionar felicidade. Apenas uma análise interna dos próprios sentimentos poderá dizer se essa vontade de estar com alguém é um sentimento natural ou se ela chega a impactar negativamente o dia a dia do indivíduo.
Segundo Chrystina, compartilhar a vida com alguém pode aumentar o bem-estar, mas o problema surge quando o relacionamento passa a ser visto como requisito para a realização pessoal.
— Ter alguém com quem dividir experiências, construir intimidade emocional e caminhar pela vida pode contribuir muito para o bem-estar. Isso nos faz bem. O problema surge quando o relacionamento deixa de ser um complemento e passa a ser visto como condição para a felicidade — afirma.
Nesse cenário, ela alerta para o risco da dependência emocional, que pode reduzir a autonomia e gerar sofrimento. Andreia acrescenta que muitas pessoas acabam depositando no amor expectativas relacionadas a questões que precisam ser resolvidas individualmente.
— Nenhum relacionamento consegue resolver sozinho questões ligadas à identidade, autoestima ou propósito de vida. Quando esperamos isso do amor, corremos o risco de transformar um vínculo afetivo em uma missão impossível — diz.
A busca por um relacionamento pode trazer benefícios quando ocorre de forma equilibrada, estimulando o desenvolvimento pessoal, a convivência e a maturidade emocional. Por outro lado, quando se transforma em necessidade, pode gerar ansiedade, frustração, comparações constantes e até a aceitação de relações prejudiciais apenas para evitar a solidão.
— Existe uma diferença entre amor e necessidade. O amor aproxima, e a necessidade aprisiona. Os relacionamentos mais saudáveis costumam acontecer quando duas pessoas escolhem caminhar juntas, não porque uma precisa salvar a outra, mas porque ambas já reconhecem seu próprio valor — afirma a psicóloga.
Compreender que amor e felicidade não são sinônimos é uma das reflexões mais importantes sobre o tema. É possível estar apaixonado e sofrer, assim como é possível estar solteiro e viver uma vida profundamente satisfatória.
A felicidade duradoura costuma resultar da combinação entre relações saudáveis, autoestima, propósito e construção de uma vida com significado.
— O amor pode trazer muita felicidade, mas a felicidade mais duradoura costuma nascer da combinação entre relações saudáveis, autoestima, propósito e a capacidade de construir uma vida com significado — conclui Andreia.

