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o capitalismo e os bilhões das big techs podem salvar a Amazônia?

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junho 11, 2026
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Peter Fernandez, chairman executivo da Mombak, que lidera o maior projeto de remoção de carbono do mundo por meio de um projeto de reflorestamento na Amazônia, fala no Web Summit Rio 2026 — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

A sustentabilidade ambiental e as inovações em prol dessa causa entraram ontem no centro das discussões sobre tecnologia e cultura digital do palco central do Web Summit Rio 2026.

Peter Fernandez, chairman executivo da Mombak, que constrói o maior projeto de remoção de carbono do mundo por meio de um projeto de reflorestamento na Amazônia conversou com Ana Lankes, chefe da sucursal Brasil da revista britânica The Economist, e mostrou como gigantes da tecnologia passaram a destinar bilhões de dólares para a remoção de carbono da atmosfera como forma de compensar suas emissões.

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É sabido que o bioma Amazônico ocupa cerca de 49% do território brasileiro e responde por um volume significativo de estocagem de carbono. Mas sofre há décadas com o processo histórico de desmatamento impulsionado por atividades econômicas que incluem agropecuária, garimpo ilegal, e pelas mudanças climáticas etc. Essa destruição é a principal fonte de gases de efeito estufa emitidos pelo Brasil e contê-lo é parte dos compromissos assumidos pelo país no Acordo de Paris.

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  • Exportação de remoção de carbono
  • Exportação de créditos
      • o capitalismo e os bilhões das big techs podem salvar a Amazônia?

Exportação de remoção de carbono

Lankes observou que uma das novas formas de reverter esse quadro que o governo brasileiro começa a experimentar é oferecer concessões às empresas privadas para reflorestar a Amazônia. Fernandez complementou que essa virada de página tem uma adesão crescente do capitalismo atual, protagonizado pelas gigantes de tecnologia. Empresas passam a reconhecer vantagens em destinar recursos ao reflorestamento diante das restrições que as mudanças climáticas impõem.

Peter Fernandez, chairman executivo da Mombak, que lidera o maior projeto de remoção de carbono do mundo por meio de um projeto de reflorestamento na Amazônia, fala no Web Summit Rio 2026 — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

— O capitalismo é a força de incentivo mais poderosa que existe no mundo. E agora o capitalismo criou um incentivo para o reflorestamento. Até recentemente não era possível ganhar dinheiro plantando árvores, mas criando gado. Isso mudou há cerca de cinco anos, quando empresas como Microsoft, Google, Amazon e outras começaram a gastar bilhões de dólares para remover carbono da atmosfera e, assim, compensar suas emissões — explicou. — A forma mais eficiente de remover carbono da atmosfera é por meio do reflorestamento, e a maior oportunidade do mundo para fazer isso está justamente na Amazônia brasileira.

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Em meio a essa guinada, diz Fernandez, a Mombak realizou o reflorestamento de uma área na Amazônia equivalente a cerca de três vezes e meia o tamanho da Ilha de Manhattan (NY) para remover carbono da atmosfera para as empresas que pagam por esse serviço, como as gigantes da tecnologia citadas por ele.

Área desmatada para plantio na Amazônia: recuperação de áreas degradadas geram créditos de carbono — Foto: Mauro PIMENTEL / AFP
Área desmatada para plantio na Amazônia: recuperação de áreas degradadas geram créditos de carbono — Foto: Mauro PIMENTEL / AFP

— O governo brasileiro começou a entender que isso pode se tornar uma grande indústria para o país. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, soja, celulose e papel. Também podemos nos tornar o maior exportador mundial de remoção de carbono — afirmou Fernandez.

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Nessa “nova indústria de remoção de carbono”, Fernandez vê as concessões de reflorestamento com um grande potencial no Brasil, já que o país tem as maiores condições de liderar esse processo no mundo, a começar pela própria extensão da Floresta Amazônica. E destacou o papel fundamental que o governo pode ter:

— A União tem milhões de hectares de terras que foram ilegalmente desmatadas, e o governo não dispõe de recursos para manter policiamento, brigadas de incêndio, escolas, hospitais e outros serviços públicos nessas áreas. Então, o governo criou um processo em que empresas como a Mombac podem disputar essas áreas. Quem vence recebe o direito de reflorestá-las, fica com a receita gerada pelos créditos de carbono e repassam uma parte ao governo. Esses recursos poderão, então, financiar postos policiais, hospitais, escolas e outros serviços.

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Segundo ele, os exemplos iniciais desse modelo de concessões já mostram uma grande transformação.

— Regiões que hoje funcionam praticamente como um “Velho Oeste” passam a desenvolver suas economias de forma muito mais rápida. Ainda estamos no início desse processo. Até agora houve apenas duas concessões, mas existe um plano para realizar algo entre 30 e 50 delas nos próximos quatro anos — afirmou.

Peter Fernandez, chairman executivo da Mombak, conversa com Ana Lankes, chefe da sucursal Brasil da revista britânica The Economist, no Web Summit Rio — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo
Peter Fernandez, chairman executivo da Mombak, conversa com Ana Lankes, chefe da sucursal Brasil da revista britânica The Economist, no Web Summit Rio — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

Em um país que vive vários retrocessos na legislação ambiental com mudanças aprovadas pelo Congresso, Lankes questionou o risco de eventuais mudanças na política de concessões estabelecida no Brasil comprometerem a segurança jurídica de investimentos privados no setor. Fernandez afirmou que esse é um risco que não se pode afastar, mas argumentou que a estrutura financeira do modelo ajuda a protegê-lo:

— Não se pode afirmar que uma política permanecerá igual para sempre. Mas há algo positivo: exportar para o resto do mundo não é uma questão ideológica. Ser ambientalista, defender o meio ambiente, pode ser político, mas gerar receita para o Brasil por meio de exportações não é. Todos reconhecem que o mercado de carbono representa uma das maiores oportunidades econômicas do país. As políticas específicas podem mudar conforme orientações de cada governo, mas a tendência geral é que o Brasil queira exportar carbono. Por isso, estamos confiantes de que, apesar das mudanças de governo, os interesses fundamentais do país serão preservados e que seremos capazes de superar as turbulências das diferentes maneiras de implementar isso.

Ele reconheceu o ceticismo entre ambientalistas em relação à ação de empresas privadas na conservação ambiental, por práticas ruins já vistas no mercado de créditos de carbono.

— Há os chamados “cowboys do carbono”, que são pessoas vendendo créditos sem valor real ou sem consultar comunidades indígenas dos territórios envolvidos. Houve vários casos visíveis de fraude e golpes.

Necessidade de reflorestamento na Amazônia — Foto: Editoria de Arte
Necessidade de reflorestamento na Amazônia — Foto: Editoria de Arte

O executivo da Mombak admitiu que esses casos tiraram credibilidade do mercado de carbono, mas ele vê uma virada nos últimos cinco anos com a adesão de big techs como Microsoft e Google optaram por comprar créditos de carbono, apenas “créditos de alta qualidade”. Junto com organizações independentes e grupos científicos, passaram a definir critérios rigorosos para projetos de conservação e restauração. Entre eles, consultas às comunidades indígenas que vivem na área.

— Hoje ele (o mercado de carbono) ainda não está totalmente reabilitado, mas a maioria das transações realizadas já envolve créditos de alta qualidade. Mas a percepção pública ainda não acompanhou essa realidade, porque isso leva tempo. Hoje, o maior problema não é mais a qualidade. O desafio é que as empresas (de conservação) não estão crescendo rápido o suficiente para atender à demanda por remoção de carbono — avalia.

Exportação de créditos

Considerando que o Brasil esteja ampliando o mercado de créditos de carbono, Ana Lankes perguntou a Fernandez em que estágio se encontra a criação de um mercado global de carbono. Ele respondeu que uma dificuldade é a padronização do preço:

— O carbono é uma commodity e, idealmente, teria um preço único global. Mas essa não é a realidade. O mercado é extremamente fragmentado. Existe um mercado europeu, um chinês, um californiano, todos com preços diferentes. A ONU trabalha há décadas, desde o Acordo de Paris, para criar um mercado global de carbono. Eu diria que estamos entre 25% e 33% do caminho até chegar lá.

Peter Fernandez, chairman executivo da Mombak, que lidera o maior projeto de remoção de carbono do mundo, ouve pergunta de Ana Lankes, chefe da sucursal Brasil da revista The Economist, no Web Summit Rio — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo
Peter Fernandez, chairman executivo da Mombak, que lidera o maior projeto de remoção de carbono do mundo, ouve pergunta de Ana Lankes, chefe da sucursal Brasil da revista The Economist, no Web Summit Rio — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

Segundo Fernandez, países desenvolvidos, como os europeus, estão tentando comprar créditos de carbono de outros países, o que representa uma grande oportunidade para o Brasil. O mercado europeu de carbono está sustentado por leis e decisões que já definem seu crescimento para os próximos 10 a 15 anos. Isso, segundo ele, oferece uma janela suficiente para o Brasil construir uma grande indústria de remoção de carbono:

— A remoção de carbono pode se tornar um mercado de US$ 1 trilhão de dólares por ano, maior que os maiores mercados de exportação do Brasil atualmente. Maior que carne bovina, soja e celulose. No entanto, o governo federal ainda não decidiu permitir que empresas como a Mombak exportem créditos de carbono para mercados regulados, como o sistema europeu de comércio de emissões. O governo tem razões legítimas para essa cautela porque precisa garantir que o Brasil tenha créditos suficientes para cumprir suas próprias metas climáticas. Mesmo assim, incentivamos fortemente o governo a considerar os benefícios socioeconômicos da exportação desses créditos.

Para vender créditos a outros países, explicou o executivo, é preciso que o governo emita licenças de exportação. Ele acredita que, quando isso for possível, serão gerados de sete a dez vezes mais empregos por hectare em conservação que numa fazenda de gado.

— Nós compramos áreas degradadas de pastagem, muitas vezes com solo empobrecido e pouca produtividade. Transformamos essas áreas em florestas nativas biodiversas que permanecerão ali indefinidamente. Criamos oportunidades socioeconômicas muito melhores, atraímos bilhões de dólares em receitas e financiamentos para o Brasil e ajudamos a desenvolver as comunidades locais — afirmou.

Em um mundo que retrai na integração econômica global e no multilateralismo, o enfraquecimento do compromisso dos países com acordos e instituições internacionais prejudica esse avanço, observou Fernandez:

— Se o mundo não cooperar, enquanto continuarmos emitindo mais CO₂ na atmosfera, o aquecimento global seguirá indefinidamente. Se não chegarmos a 10 bilhões de toneladas de remoção de carbono por ano até 2050, o mundo continuará ficando mais quente. Isso é um fato científico. Significa mais erosão costeira, mais refugiados climáticos e mais impactos negativos associados às mudanças climáticas.

A cobertura do Web Summit Rio 2026 na Editora Globo é apresentada pelo Itaú.

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