A profusão de dados da mais recente rodada da pesquisa Quaest expõe com clareza inédita algo que, difusamente, já é perceptível pelo menos há alguns anos: a dificuldade de agradar a um eleitor cada vez menos claro a respeito do que espera dos governos, sobretudo na condução da economia. Se, no passado, a ideia de que bem-estar econômico era fácil de medir e imediatamente se traduzia em votos para o governante de turno, hoje as variáveis são mais subjetivas, e a métrica de satisfação com a própria situação financeira e a economia do país não é linear.
As perguntas voltadas a medir o impacto das mais recentes medidas do governo Lula para tentar atuar nessa seara são reveladoras dessa ambivalência, que nos casos mais extremos ganha ares de bipolaridade pura e simples. O novo Desenrola é uma política de que 61% já ouviram falar. Entre quem considera a iniciativa uma boa ideia (50%) e reconhece que ela ajuda um pouco (20%), a acolhida é bem positiva. Em seguida, no entanto, 80% dizem não ter se beneficiado do programa de renegociação de dívidas. Mas, ainda assim, 71% dizem que sua renda melhorou após sua adoção.
Paradoxo semelhante acontece em relação à reforma do Imposto de Renda. Poucos dizem ter se beneficiado, numa primeira pergunta, mas 57% em seguida afirmam que sua renda aumentou ao menos um pouco. A isenção do IR ajuda a dar uma pista: a aceitação da mudança cresceu de forma paulatina, mas consistentemente. E essa melhora coincide com a superação do momento de pior avaliação de Lula.
Assim como o dilema entre o que veio antes, o ovo ou a galinha, é difícil cravar se a melhora geral do humor com o governo —motivada, como mostra a pesquisa, também por notícias do campo da política— tem impacto na percepção a respeito da economia ou o contrário. O mais provável é que as duas coisas se retroalimentem. Mas o que desafia analistas e estrategistas de campanhas é que, por mais que esse escrutínio a respeito da economia melhore, ele está longe de ser coincidente com os indicadores gerais.
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Embora o desemprego esteja num período de mínima histórica, 53% cravam que está mais difícil encontrar emprego que há um ano. A inflação, ou ao menos a sensação de carestia, segue dominando a avaliação desse eleitor que, por mais que acompanhe as medidas, parece não se sentir de todo contemplado por elas. Esse escrutínio descolado dos dados estatísticos é um desafio para qualquer incumbente. Mesmo o velho expediente de recorrer a todo tipo de medida eleitoreira às portas da urna, como Lula vem fazendo sem cerimônia, pode se revelar um trabalho de Sísifo.
Isso porque o saldo final sempre dependerá de diversas variáveis: tempo para que as iniciativas cheguem à ponta, maneira como são comunicadas e, não desprezível, o filtro ideológico, hoje tão presente que condiciona de forma inexorável a avaliação final. Diante desse eleitor bipolar, uma antiga máxima do marketing político, o “É a economia, estúpido!”, explicação cunhada por James Carville para explicar o êxito de Bill Clinton nos Estados Unidos em 1992, se torna relativa ou datada.

A economia e seu impacto na vida pessoal e familiar dos eleitores continua, por óbvio, norteando suas principais decisões, o voto entre elas. Mas o bombardeio de informações a que todos são submetidos a toda hora, a famigerada polarização ideológica e as expectativas mais dissonantes dos diferentes grupos populacionais a respeito de seu próprio futuro e do país tornam muito mais difícil para os candidatos e seus assessores traduzir os dados em uma rota clara a perseguir.
Até aqui, Lula é aquele que, na base da tentativa e erro, mais tem mirado no bolso para tentar atingir o coração e a mente dos eleitores. Flávio Bolsonaro, tragado pelo inferno astral particular de Master e encontro com Donald Trump, nem chega a esboçar uma agenda econômica. A confusão exibida pela pesquisa mostra que não será tarefa simples.

