Em meio a uma batalha de bandeiras iranianas nas arquibancadas do Sofi Stadium, durante a partida entre Irã e Nova Zelândia nesta segunda-feira, a imprensa estatal iraniana fez questão de destacar homenagens feitas por torcedores a “mártires” do país na guerra contra os EUA.
A agência estatal IRNA divulgou imagens de um torcedor, momentos antes da estreia da seleção iraniana na Copa do Mundo, usando uma camisa que homenageava o aiatolá Khamenei, morto em um bombardeio americano no início deste ano.
Em outra cena captada nas arquibancadas do estádio, torcedores exibiram cartazes com os dizeres “Minab 168”, em referência ao número de vítimas de um ataque a bombas dos EUA em uma escola em Minab, no sul do país.
As manifestações pró-regime nas arquibancadas do Sofi Stadium dividiram espaço com o uso da bandeira pré-revolução islâmica por dezenas de torcedores. Antes da partida, a Federação Iraniana de Futebol chegou a exigir que a Fifa vetasse a bandeira, usada por opositores do atual regime iraniano.
O Irã está em guerra com os EUA, um dos países-sede da Copa de 2026, desde o início do ano, e o conflito chegou a ameaçar a participação dos iranianos no torneio. Em mais de uma oportunidade, a federação iraniana ameaçou abrir mão de sua vaga, em meio a dificuldades de sua delegação e de torcedores para obter vistos de entrada em solo americano.
A agência estatal IRNA destacou a presença de torcedores usando a “bandeira sagrada da República Islâmica do Irã” nas arquibancadas do Sofi Stadium, ignorando a presença de dissidentes. Outro destaque foi para a presença da bandeira da Palestina, que trava um longo conflito com Israel, cujo governo também é adversário do regime iraniano.
“Um grande pedaço das arquibancadas do estádio estava ocupado por torcedores iranianos, que apoiavam a seleção nacional com a bandeira sagrada da República Islâmica do Irã. Entre os torcedores presentes, a bandeira da Palestina também estava visível, e alguns torcedores iranianos entraram no estádio segurando esta bandeira”, disse a agência estatal.
Já a bandeira pré-revolução islâmica, que tem no centro um leão e um sol, foi abandonada pelo atual regime iraniano em 1979, mas acabou abraçada pela oposição iraniana no exílio. E apareceu na partida desta segunda-feira, apesar da proibição da Fifa.
Embora as cores da bandeira — verde, branco e vermelho — e as faixas horizontais sigam um padrão similar desde o início do Século XX, o que está no centro dela é a causa da discórdia. Até 1979, a bandeira trazia o leão e o sol, um símbolo originado na Pérsia Antiga e com milhares de anos de história.
Após a instauração da República Islâmica, em fevereiro de 1979, o leão e o sol permaneceram temporariamente (mas sem uma coroa que representava o regime comandado pela dinastia Pahlevi). Em 1980, foi adotado o modelo atual, com o novo brasão da República e o takbir islâmico (“Allah é Grande”) escrito 22 vezes nas faixas.
É essa a bandeira usada em competições oficiais há quase 50 anos, e é a única reconhecida pela Fifa. Mas para a diáspora iraniana — são mais de 750 mil nos EUA —, ela é o símbolo de um regime que reprime sua população, mata seus dissidentes e que, hoje, não os representa. Por isso, a antiga bandeira dos tempos da dinastia Pahlevi, deposta pela revolução de 1979, predomina nos atos contra a República Islâmica no exterior.

