No caminho para o gramado do CT, um Endrick sorridente faz questão de cumprimentar um funcionário da CBF que observava os jogadores (José Victor, responsável pela operação dos jogos) e a imprensa que registrava tudo de longe. Em campo, o jovem se mostrou animado no começo da atividade. Nem parecia ter passado 30 minutos aquecendo em vão durante o empate com o Marrocos, na estreia da seleção na Copa.
O atacante de 19 anos foi um dos nomes mais pedidos pelos brasileiros no sábado, mas a disputa que ele trava vai além da busca por minutos com Carlo Ancelotti. Nos bastidores, trabalha para consolidar seu espaço na seleção também pela postura. Em um ambiente altamente competitivo, a estratégia é silenciosa. Endrick quer evitar qualquer tipo de ruído e fortalecer sua imagem junto a companheiros, comissão técnica e dirigentes.
A ausência na estreia aumentou os questionamentos sobre seu papel no grupo. Contra o Marrocos, Ancelotti optou por iniciar com Igor Thiago no comando do ataque, com Matheus Cunha no segundo tempo. Após o jogo, evitou comentar a não utilização de Endrick.
— Não estou aqui para falar individualmente de um jogador. Falo da equipe — disse o italiano.
O atacante se mostra determinado a não permitir que a falta de minutos gere qualquer desgaste fora de campo. Internamente, a avaliação é de que ele demonstra respeito à hierarquia do grupo e muita vontade de buscar seu lugar.
Nos treinamentos, é visto como um dos mais dedicados, sempre disposto a cumprir orientações da comissão técnica e a participar das atividades com intensidade. Também chama a atenção pelo esforço por manter boa convivência com todos, não apenas os jogadores.
Uma postura que contrasta com rótulos que em alguns momentos surgiram ao longo de sua trajetória, quando chegou a ser apontado como um jogador de personalidade difícil ou excessivamente individualista.
Antes da Copa, Endrick compartilhou nas redes sociais conteúdos ao lado dos companheiros, marcando todos os jogadores da seleção em publicações após o amistoso contra o Panamá, no Maracanã. Todo esse cuidado não é à toa.
O jovem foge do estilo boleiro que normalmente impera no futebol, tem grande interesse em pesquisar e estudar. Um exemplo disso é a velocidade com que aprendeu francês nos cinco meses de Lyon. Em 2024, quando foi convocado para defender a seleção no amistoso contra a Inglaterra, em Wembley, debruçou-se sobre o computador para saber mais sobre o mítico estádio.
Outro objeto de seu interesse foi Bobby Charlton, descoberto por ele através do videogame. Passou a assistir tantos vídeos do meia campeão do mundo em 1966 que, ao marcar seu primeiro gol com a Amarelinha justamente em Wembley, citou o britânico. Só que a menção causou tanto estranhamento que virou piada. No vestiário do Real Madrid, foi apelidado de Bobby — com certo tom de implicância.
Esta história resume bem a questão do relacionamento com o próprio meio que acompanha Endrick desde os tempos de Palmeiras. Ele está longe de ser mal quisto pelos companheiros, mas a diferença de perfil sempre aparece.
Ao contrário da maioria dos jogadores brasileiros, inclusive os da seleção, Endrick não idolatra Neymar — como deixa transparecer na forma mais contida com que se refere ao camisa 10 em entrevistas. Isso não quer dizer, contudo, que não respeite sua história. Foi ao lado do camisa 10 que lamentou não ter minutos contra Marrocos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/U/p/TtgkZJSMiOvAsAQKXicQ/whatsapp-image-2026-06-03-at-15.38.46.jpeg)
A discussão sobre a integração de Endrick no grupo ganhou novo capítulo após uma entrevista de Casemiro, pouco antes da Copa. O volante defendeu cautela na condução do atacante e alertou para o risco de atribuir a um jogador de 19 anos a responsabilidade de resolver os problemas ofensivos da equipe. Para defensores do centroavante, a fala reforçou a impressão de que ele continua sendo tratado como uma promessa para o futuro mesmo após já ter demonstrado capacidade para decidir jogos importantes.
Endrick tem uma base de fãs fervorosos, e a Copa só aumentou sua força. Nos últimos sete dias, ninguém do elenco cresceu tanto em seguidores no Instagram quanto ele. Foi mais de 1,15 milhão, de acordo com o Radar Canarinho. E, segundo dados da ferramenta Brandwatch, ele foi o jogador da seleção mais pesquisado no Google após o empate com o Marrocos, além de ter sido o mais mencionado nas redes.
Uma fama que o deixou incomodado. Antes da Copa, Endrick recusou entrevistas e até campanhas publicitárias bem remuneradas. Sua preocupação era que uma badalação em excesso atrapalhasse seu foco, além de criar eventuais ruídos com os colegas de seleção.
Se o olhar de Ancelotti é cauteloso, os defensores de Endrick encontram argumentos concretos para pedir mais chances. Em 17 jogos, sendo só dois como titular, soma cinco participações diretas em gols. Como muitas vezes entra na reta final, sua média é de uma participação em gol a cada 99 minutos. Enquanto a pressão cresce, ele opta por trabalhar nos treinos e construir uma imagem sem brechas para questionamentos. Até que a aguardada estreia na Copa aconteça.

