A doceira Ana Paula Ferreira Gomes, de 42 anos, viu a renda da família cair durante a pandemia. Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ela passou a recorrer ao cartão de crédito e a empréstimos para manter as contas em dia, enquanto sustentava o pequeno negócio de bolos e doces feitos em casa. Com o acúmulo de juros, ao longo dos últimos anos, as dívidas se tornaram difíceis de pagar. Agora, Ana Paula busca reorganizar sua vida financeira por meio do Novo Desenrola Brasil.
Como ela, milhões de brasileiros têm a oportunidade de recuperar o equilíbrio financeiro e ganhar fôlego para planejar o futuro. O programa do Governo Federal permite a renegociação de débitos com descontos que podem superar os 90%. Criado como parte de um conjunto de iniciativas voltadas à reorganização financeira das famílias, tem como objetivo ampliar o acesso à renegociação de dívidas e contribuir para a retomada da capacidade de consumo no país.
O Novo Desenrola Brasil é voltado principalmente para famílias com dívidas bancárias, trabalhadores informais, profissionais com carteira assinada, aposentados e servidores públicos que tiveram o orçamento pressionado nos últimos anos.
Podem participar pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos (R$ 8.105). Estão incluídos débitos relacionados a cartão de crédito – incluindo rotativo –, cheque especial, crédito pessoal e Crédito Direto ao Consumidor (CDC). O programa também contempla condições específicas para renegociação de contratos do Fies, que seguem regras próprias.
Além da renegociação de dívidas das famílias, o programa oferece benefícios para renegociar a dívida de estudantes do Fies e agricultores familiares, crédito para Micro e Pequenas Empresas e condições especiais para o crédito consignado de aposentados e servidores públicos. Essas modalidades têm regras específicas de participação e renegociação.
O RETRATO DA INADIMPLÊNCIA
Segundo dados da Serasa, o Brasil soma mais de 80 milhões de pessoas negativadas. A maior parte das dívidas está concentrada em bancos e cartões de crédito, seguidas por contas básicas do dia a dia e serviços financeiros.
Jovens e pessoas de baixa renda concentram as maiores taxas de inadimplência grave. Entre os mais afetados, estão brasileiros com renda de até dois salários mínimos, que representam 73% dos casos mais severos. Pessoas inscritas no CadÚnico registram taxa de inadimplência de 18%, enquanto as regiões Norte (19%) e Nordeste (17%) apresentam os índices mais elevados.
EXPANSÃO DO CRÉDITO E IMPACTO NO ORÇAMENTO
O cenário também reflete a expansão do crédito no país, impulsionada pelo crescimento das fintechs e pela diversificação de produtos financeiros. Hoje, cerca de 130 milhões de pessoas, o equivalente à 74% da população com relacionamento bancário, possuem algum tipo de limite disponível.
Especialistas apontam que o aumento do endividamento está relacionado a uma combinação de fatores, como a inflação elevada e o maior custo de vida nos últimos anos, além da facilidade de acesso ao crédito e do longo período de juros elevados. Esse cenário levou muitas famílias a recorrer a empréstimos para complementar a renda ou manter despesas essenciais.
Foi o que aconteceu com o motorista de aplicativo Rafael dos Santos Oliveira, de 44 anos. Para manter o carro rodando, ele passou a utilizar o cheque especial e a contratar empréstimos rápidos pelo celular. “A facilidade para conseguir empréstimo é muito grande. Você recebe oferta o tempo inteiro. Quando o dinheiro aperta, acaba aceitando. O problema é conseguir sair depois”, explica.
A faixa etária entre 41 e 60 anos concentra a maior parcela dos inadimplentes, representando 35,5% dos registros. Para esse público, a renegociação com descontos de até 90% pode representar um passo importante para reorganizar as finanças.
A aposentada Maria de Lourdes Ferreira, de 68 anos, conta que acumulou parcelas ao longo do tempo ao ajudar filhos e netos, o que comprometeu boa parte da aposentadoria.
“A gente vai fazendo parcelinha daqui, parcelinha dali e, quando percebe, perdeu o controle. Agora estou conseguindo renegociar e voltar a dormir tranquila”, relata.
Além dos descontos, que podem passar dos 90% do valor da dívida, o Novo Desenrola Brasil prevê taxa máxima de juros de 1,99% ao mês nos novos acordos e parcelamento em até 48 meses. A primeira parcela pode ser paga em até 35 dias após a renegociação. Os bancos também poderão oferecer novas linhas de crédito aos consumidores que aderirem ao programa.
Na avaliação de especialistas, a iniciativa pode contribuir para reduzir a inadimplência e ajudar famílias a reorganizar o orçamento doméstico. Mais do que renegociar dívidas, o programa busca abrir caminho para que trabalhadores formais e informais recuperem estabilidade financeira e avancem com mais segurança.
Nota: os personagens desta reportagem são reais, mas tiveram os nomes alterados para preservar sua privacidade.

