Com o aumento do tráfego de helicópteros no espaço aéreo do Rio, o número de incidentes no estado superou com folga o registrado em São Paulo, que tem a maior frota do país. No ano passado, foram registrados 142 incidentes com esse tipo de aeronave no Rio, uma média de um caso a cada três dias, enquanto em São Paulo foram contabilizadas apenas 11 ocorrências em todo o ano, menos de uma por mês. Os registros no Rio representam 71% dos incidentes envolvendo helicópteros no país em 2025 e incluem desde falhas ou mau funcionamento de sistemas e componentes até incursão em pista, colisão com aves e quedas. Neste ano, já foram 61 incidentes no Estado do Rio e apenas seis em São Paulo. Os dados são do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer).
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Diante do crescimento da frota, especialistas em segurança aérea defendem maior rigor na fiscalização da conduta dos pilotos e mudanças nas regras para tornar o espaço aéreo fluminense mais seguro.
O perito aeronáutico Daniel Calazans afirma que, principalmente em grandes centros, como o Rio de Janeiro, o transponder — equipamento de comunicação e rastreamento que responde automaticamente aos sinais dos radares — deveria ser obrigatório. Atualmente, ele só é exigido em rotas aéreas específicas.
O tráfego de helicópteros acontece em corredores pré-definidos, e a responsabilidade de manter distância de outras aeronaves é dos pilotos e feita de forma visual. Além disso, todos os pilotos que trafegam na região devem estar sintonizados numa mesma frequência de rádio e avisar aos demais qual o prefixo da aeronave, a direção e a altura na qual se desloca, bem como a realização de qualquer manobra que mude seu rumo.
Pilotos no comando
Calazans também defende uma fiscalização mais rigorosa da atuação dos pilotos. Segundo o especialista, o maior risco no espaço aéreo não está na grande concentração de helicópteros, mas na imprudência e na negligência dos profissionais. Ele ressalta que colisões como a que deixou seis mortos na Zona Sudoeste do Rio, no domingo, são raras. As “quase colisões”, porém, são frequentes e, segundo ele, muitas vezes estão associadas a falhas humanas, especialmente quando os protocolos de comunicação deixam de ser seguidos:
— O maior problema são os profissionais que deixam de ligar o transponder ou de realizar a comunicação adequada. As regras funcionam da forma como foram estabelecidas. A questão é saber se as pessoas estão seguindo essas regras. A conduta só vai ser sanada se houver fiscalização acompanhada da devida punição aos infratores.
Segundo o perito, em espaço aéreo monitorado, os controladores conseguem identificar infrações com mais facilidade. Já nas áreas onde os próprios pilotos são responsáveis por manter a separação segura entre as aeronaves, a fiscalização se torna mais difícil.
— O que acontece, às vezes, é uma denúncia de morador relatando que a aeronave passou muito próxima de uma residência, ou até de outro piloto que identificou uma manobra perigosa ou a falta de comunicação. Se não houver denúncia, em espaço aéreo não controlado, praticamente não há como fiscalizar. E isso é um problema — disse.
Alguns especialistas também defendem a possibilidade de o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) instalar controladores em áreas de intenso tráfego de helicópteros no Rio, como existe em São Paulo.
— Essa é uma possibilidade em razão da densidade do tráfego de helicópteros no Rio, que aumentou muito nos últimos anos. Cabe ao Decea avaliar se isso é conveniente e necessário, além de verificar se há recursos, pessoal e equipamentos disponíveis para a implantação do sistema — afirmou Raul Marinho, diretor técnico da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag).
De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o Estado do Rio tem 319 helicópteros registrados. Em 2023, eram 247. Isso representa um aumento de 29% em três anos. Em São Paulo, o total passa de 400. Apesar disso, o maior número de pousos e decolagens vem sendo registrado no Aeroporto de Jacarepaguá: em maio, foram 7.903. Na segunda posição aparece o Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, com 2.642.

