Ninguém sabe viver; todo mundo improvisa. Nesta corrida do dia a dia, quando o cansaço aparece, é preciso parar para respirar. Então, ao observar analiticamente o caminho, descobrimos obstáculos. Medos. E entre eles, certamente aparecerá o tempo. Paradoxalmente, o medo da passagem do tempo nos faz envelhecer mais.
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Quando patriarcado e etarismo se unem
A chamada “cronofobia” não é um diagnóstico clínico, mas sim um conceito da cultura popular. Essa “inquietação em relação ao tempo” é explorada em muitas obras artísticas desde a década de 1960, como conta a historiadora de arte Pamela Lee em seu livro Cronofobia (2006). Mas esse conceito transcendeu a arte e evoluiu para se referir ao medo da passagem do tempo.
Ou, melhor, ao “medo do tempo”, porque a característica do tempo é passar, como aponta o jornalista Sergio Fanjul em outro livro recente dedicado ao tema. E, entre as múltiplas formas de angústia temporal, uma de suas expressões mais frequentes e estudadas é a ansiedade diante do envelhecimento.
Essa ansiedade provém do declínio físico, da perda de atratividade e da saúde reprodutiva. Como se pode intuir, é um fator de estresse psicológico particularmente acentuado entre as mulheres, uma vez que elas enfrentam mais pressões socioculturais. A preocupação em avaliar persistentemente a identidade corporal eleva os sistemas de resposta ao estresse ao longo do tempo.
A essas pressões de gênero soma-se uma narrativa etarista enraizada na sociedade: os corpos envelhecidos das mulheres são biologicamente e socialmente desvalorizados. Essa imposição de “manter a juventude” promove a autovigilância crônica e aumenta o mal-estar psicológico em boa parte do gênero feminino devido ao trabalho incansável para se encaixar em padrões sociais, ou para lutar contra eles.
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Como o relógio biológico se acelera
Está bem estabelecido que qualquer mal-estar psicossocial contribui para o envelhecimento biológico por meio da epigenética. É assim que se denomina o processo pelo qual os genes são ativados ou desativados em consequência do ambiente, mas sem que a sequência de DNA seja alterada.
Por exemplo, a exposição a fatores estressantes crônicos na infância é um fator de risco conhecido para o surgimento da depressão na adolescência (por meio de uma reação química, chamada metilação, que ocorre em certos genes relacionados ao estresse). Ou seja, manter ao longo do tempo um estado de alerta ansioso potencializa o desgaste biológico.
Recentemente, um estudo com 726 mulheres revelou que o estresse relacionado ao envelhecimento, em particular o medo da deterioração da saúde, é um fator relevante associado a um envelhecimento epigenético acelerado. A taxa de desgaste fisiológico foi comprovada por meio de um biomarcador chamado DunedinPACE.
Ou seja, as preocupações não são meramente cognitivas ou emocionais, mas vivenciadas somaticamente, criando um círculo vicioso em que a ideia de envelhecimento aumenta a consciência corporal. Essa consciência intensificada reforça um estado de angústia psicológica, que, por sua vez, pode desencadear uma ativação fisiológica sustentada por meio de, entre outros mecanismos, a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) e a sinalização inflamatória.
Com o tempo, esse ciclo de angústia psicológica e ativação fisiológica pode deixar marcas biológicas duradouras (por meio de alterações cumulativas na metilação do DNA) e acelerar o envelhecimento. Em conjunto, essas descobertas corroboram a ideia de que a maneira como vivemos subjetivamente os efeitos do tempo em nosso corpo não afeta apenas nossa saúde mental, mas também o próprio funcionamento biológico do organismo.
Mais obstáculos que causam fadiga
Mas o medo do tempo também pode surgir da percepção de um futuro ameaçador: crise climática, moradia inacessível, aumento constante dos preços dos produtos básicos, salários precários. Ou seja, a relação com o tempo não se trata apenas de uma experiência íntima, mas também social e política.
Nesse sentido, a presença de ideologias que pretendem limitar direitos civis, restringir liberdades ou abolir avanços sociais previamente consolidados também gera incerteza diante do que pode vir. Especialmente em grupos mais vulneráveis.
Esses obstáculos estruturais contribuem para gerar uma sensação de futuro abolido que poderia exacerbar o medo do tempo, favorecendo a angústia e influenciando os relógios biológicos do envelhecimento.
Desacelerar para encontrar o equilíbrio
Então, como viver sem nos desgastarmos? Embora não haja uma resposta única, talvez a mais precisa seja enfrentar os obstáculos ao nosso próprio tic-tac, enquanto desfrutamos do prazer consciente do aqui e agora. Assim, ajustando o ritmo, o peso é melhor distribuído entre a obrigação e a autonomia. Entre o dispensável e o essencial. Entre o dever e o ser.
Buscar espaços de desaceleração, no entanto, não implica ignorar as causas estruturais do mal-estar, mas impedir que elas dominem nossa experiência do tempo. Em uma sociedade marcada pela precariedade, pela hiperprodutividade, pela pressa e pela incerteza constante, parar para respirar torna-se uma forma de resistência psicológica e emocional.
E, acima de tudo, é preciso viver sem perder de vista o que há de mais importante no caminho: somos o tempo que nos resta.
*Jorge Romero-Castillo é professor de psicobiologia e pesquisador em neurociência cognitiva na Universidade de Málaga.
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
