O líder indígena Raoni Metuktire, de 94 anos, segue internado na UTI do Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, em Sinop (MT), com evolução clínica considerada favorável. Segundo boletim médico divulgado nesta quarta-feira, ele permanece lúcido, consciente e orientado, respirando espontaneamente e sem necessidade de ventilação mecânica. Nas últimas 24 horas, houve estabilização dos parâmetros renais e melhora do quadro gastrointestinal.
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Como parte da investigação do problema gastrointestinal, Raoni foi submetido a uma endoscopia digestiva alta na terça-feira, realizada sob sedação e sem intercorrências. Os resultados ainda estão sendo avaliados pela equipe médica, que deverá solicitar exames complementares para definir o diagnóstico e as próximas condutas. O cacique segue recebendo nutrição parenteral, está hemodinamicamente estável e continua sob cuidados intensivos devido à complexidade do quadro, à idade avançada e às comorbidades. Não há previsão de alta hospitalar.
No hospital, Raoni está estava acompanhado de Megaron Txucarramãe, sobrinho de Raoni e apontado como o seu provável sucessor, e do neto, Beptuk Metuktire. Outras lideranças indígenas que estavam na Europa para denunciar o garimpo ilegal em suas terras também interromperam a viagem para retornar ao Brasil e acompanhar a situação do cacique.
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Segundo o diretor técnico do hospital, Douglas Yanai, apesar do histórico médico de Raoni, “ele é um homem forte, mas que é muito importante continuar tendo atenção”. O médico disse ainda que o quadro dele ainda requer muito cuidado e que, por isso, ele permanecerá na UTI, sem previsão de alta.
Entenda quadro de saúde
O líder indígena, que já tinha sido hospitalizado em maio, voltou a ser internado em estado grave no domingo, às 17h, após ser transferido de avião da região de Peixoto de Azevedo, onde reside, para Sinop, a 503 quilômetros de Cuiabá. Segundo boletim médico divulgado pelo hospital, a principal hipótese diagnóstica é de sepse de foco pulmonar secundária a pneumonia broncoaspirativa, decorrente de um quadro de vômitos incoercíveis. A tomografia de abdome também evidenciou suboclusão gástrica.
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De acordo com a unidade de saúde, o líder indígena estava em casa, recebendo visitas de lideranças e pajés de seu povo, quando apresentou um episódio de vômito na manhã de sábado. No domingo, o quadro se agravou, com três novos episódios de vômito, tosse persistente, dor abdominal e expectoração com pequena quantidade de sangue.
Ao chegar ao Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, Raoni apresentava sinais de desidratação, sonolência acentuada, abdome distendido e ausência de diurese. Ele foi submetido a exames laboratoriais, hemoculturas, gasometria arterial e tomografias de crânio, tórax e abdome. Os primeiros resultados apontaram alterações da função renal e marcadores compatíveis com processo infeccioso grave.
‘Cacique Raoni Metuktire’, 1984
Divulgação/Leila Jinkings
A sepse pulmonar, popularmente chamada de infecção generalizada com foco no pulmão, é uma emergência médica. Ela ocorre quando o sistema imunológico, ao tentar combater uma infecção pulmonar, reage de forma exagerada e desregulada. Essa inflamação descontrolada se espalha pelo organismo, podendo danificar tecidos e múltiplos órgãos. Em casos graves, a resposta imune libera uma “tempestade” de substâncias inflamatórias no sangue, com risco de falência de órgãos.
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No caso de Raoni, a suspeita é de que a infecção pulmonar tenha relação com uma pneumonia broncoaspirativa, condição que pode ocorrer quando conteúdo gástrico, saliva, secreções ou alimentos são aspirados para os pulmões. O boletim associa essa hipótese ao quadro de vômitos persistentes apresentado pelo líder indígena.
A evolução de uma pneumonia para sepse costuma ser descrita em etapas. Primeiro, há uma infecção restrita aos pulmões. Depois, a resposta inflamatória pode se tornar sistêmica e começar a afetar outros órgãos, como rins, fígado ou cérebro. O estágio mais grave é o choque séptico, quando há queda intensa e persistente da pressão arterial, comprometendo a circulação e a oxigenação de órgãos vitais.
Raoni permanece internado na UTI sob monitoramento contínuo, recebendo hidratação venosa, antibioticoterapia de amplo espectro e suporte intensivo. Segundo o hospital, o estado de saúde é considerado grave e exige cuidados intensivos e acompanhamento ininterrupto da equipe multiprofissional. Familiares seguem em contato permanente com a equipe assistencial.
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Neto de Raoni, Beptuk Metuktire estava em viagem com uma comitiva caiapó na Europa quando soube da internação. Ele afirmou à agência de notícias AFP que o cacique estava lúcido, mas que seu quadro de saúde era instável. O sucessor de Raoni, Megaron Txucarramãe, e outros líderes indígenas também interromperam uma viagem à Europa para denunciar o garimpo ilegal em suas terras, organizada pelo Greenpeace Brasil, informou à AFP Danicley de Aguiar, coordenador da ONG.
A suboclusão gástrica identificada na tomografia indica uma obstrução parcial no sistema digestivo, condição que pode provocar distensão abdominal, náuseas, vômitos, dor e dificuldade de progressão do conteúdo pelo trato gastrointestinal. Quadros de obstrução ou suboclusão exigem avaliação hospitalar, porque podem se agravar e levar a complicações.
Líder tem histórico de internações
Esta é uma nova internação do cacique pouco tempo depois de ele ter recebido alta do mesmo hospital, em maio, após permanecer sete dias internado por complicações respiratórias e gastrointestinais. Na ocasião, Raoni ficou cinco dias na UTI, sob monitoramento contínuo e assistência integral, antes de retornar à sua residência em condição estável para seguir tratamento domiciliar.
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À época, a equipe médica informou que o líder indígena possui comorbidades pré-existentes, entre elas Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), insuficiência cardíaca, uso de marcapasso cardíaco e hérnia diafragmática, condição que exige acompanhamento clínico periódico.
Durante a internação anterior, Raoni foi acompanhado por uma equipe multidisciplinar, com atuação de cirurgião do aparelho digestivo, pneumologista, cardiologista, clínico, cirurgião torácico, fisioterapia respiratória e equipe assistencial completa. Também houve acompanhamento conjunto com especialistas do Ambulatório do Índio da Unifesp, entre eles o médico Douglas Antônio Rodrigues, que acompanha a saúde do cacique há décadas, por meio de videoconferências para definição das condutas médicas.
O diretor técnico do Hospital Dois Pinheiros, Dr. Douglas Yanai, destacou, na ocasião, que a comunicação entre as equipes foi fundamental para a condução do atendimento.
“Todo o atendimento foi realizado de maneira compartilhada, com alinhamento permanente entre as equipes médicas envolvidas, a família do cacique e o Instituto Raoni. Essa integração permitiu decisões rápidas, criteriosas e seguras durante toda a internação”, pontuou.
Após a alta, o Instituto Raoni ficou responsável pela rede de apoio ao líder indígena, incluindo dois técnicos de enfermagem para cuidados domiciliares. Os profissionais receberam treinamento da equipe hospitalar para dar continuidade aos exercícios respiratórios em casa. O Distrito Sanitário Especial Indígena Kaiapó do Mato Grosso (DSEI-KMT) também integra a rede de apoio ao cacique, com suporte logístico aéreo e terrestre.
“Nossa equipe já possui uma relação próxima com diversas comunidades indígenas por meio das Expedições UFMT – Xingu. Isso fortalece o vínculo de confiança e contribui para um atendimento mais humanizado, respeitando as particularidades culturais e sociais dessas populações”, complementou Douglas Yanai.
Desde 2020, Raoni já passou por seis internações no Hospital e Maternidade Dois Pinheiros. A relação com a unidade foi construída a partir das Expedições UFMT – Xingu, projeto de extensão da Universidade Federal de Mato Grosso, campus Sinop, em parceria com o hospital, que leva atendimento especializado às aldeias da Terra Indígena Capoto/Jarina.
Os médicos responsáveis pelo boletim divulgado nesta segunda-feira são Dr. Douglas Yanai, Dr. Túlio Orathes Ponte e Dra. Helena Mª S. Barbosa. Segundo o hospital, novas informações serão divulgadas conforme a evolução clínica do paciente.

