A operação deflagrada nesta quinta-feira pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) contra o deputado estadual Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins recolocou a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) no centro de uma investigação sobre a suposta influência de facções criminosas em estruturas do poder público. Desta vez, a apuração envolve suspeitas de atuação em favor de interesses do Terceiro Comando Puro (TCP), mas não é a primeira vez que o Legislativo estadual aparece em investigações desse tipo. Em 2025, a Polícia Federal realizou buscas na Alerj durante a Operação Zargun, que levou à prisão do então deputado estadual TH Joias. Segundo a PF, ele atuava como operador político e financeiro de interesses do Comando Vermelho (CV), mantendo contatos com traficantes, policiais e agentes públicos.
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TH Joias e Bacellar
Em setembro de 2025, a Polícia Federal realizou buscas na Alerj durante a Operação Zargun, que levou à prisão do então deputado estadual TH Joias. Segundo a PF, ele atuava como operador político e financeiro de interesses do Comando Vermelho (CV), mantendo contatos com traficantes, policiais e agentes públicos. Os investigadores afirmaram que o parlamentar teria usado a estrutura do mandato para beneficiar integrantes da facção, incluindo negociações envolvendo armas, drogas e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão.
Dezembro de 2025, a Operação Unha e Carne ganha um novo capítulo quando a PF prende o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. Os investigadores afirmam que Bacellar teria vazado informações sigilosas da Operação Zargun para TH Joias. Segundo a PF, ele teria avisado o parlamentar sobre a ação policial e orientado a retirada de objetos do imóvel antes das buscas.
A PF também afirma que Bacellar era o principal contato da lista de “comunicação urgente” de TH Joias. A mesma operação, em 16 de dezembro prende o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto. A suspeita é que informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun tenham sido repassadas antes do cumprimento dos mandados.
Val Ceasa
A ligação dos políticos com facções criminosas já havia sido exposta na série “Os donos do crime”, do GLOBO, que mostrou com exclusividade mensagens interceptadas pela PF, em que o traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal, enviou ao chefe do CV no Complexo da Penha, Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma foto de Val Ceasa durante uma reunião no Palácio Guanabara, em janeiro de 2025. Ao encaminhar a imagem, Gardenal escreveu: “Te falei, Val é o contato dele”, sem explicar a quem se referia. Em seguida, Doca respondeu: “É, mano, esse cara tem que vir para nós”.
Investigação da Polícia Federal
Reprodução
Segundo a Polícia Federal, a troca de mensagens demonstra o interesse da facção em aliciar agentes políticos para ampliar sua influência, conquistar proteção institucional e exercer influência sobre decisões públicas. A investigação apontou ainda que a aproximação com políticos teria como objetivo influenciar ações sociais e evitar interferências do Estado em áreas dominadas pelo grupo criminoso.
Embora a conversa não esclareça quem seria o “dele” mencionado por Gardenal, uma fonte da PF afirmou que o diálogo remete a uma suposta aliança de Val Ceasa com Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado pelas autoridades como chefe do TCP, facção rival do Comando Vermelho.
A relação entre o parlamentar e o entorno de Peixão já havia sido abordada em outra investigação. Reportagem do GLOBO mostrou que a demolição de um resort atribuído ao traficante, na Cidade Alta, foi adiada por cerca de 15 meses após uma suposta articulação política. O caso é investigado pela Procuradoria-Geral de Justiça em procedimento sigiloso.
Entenda a operação
O MPRJ cumpre nesta quinta-feira 14 mandados de busca e apreensão contra o deputado estadual Val Ceasa, o ex-vereador Ulisses Marins, atualmente servidor municipal, e o ex-assessor parlamentar Jair de Mendes. Eles são investigados por suspeita de envolvimento com o Terceiro Comando Puro (TCP). Os mandados são cumpridos no gabinete do parlamentar na Alerj, além de endereços na Ceasa, na capital fluminense e no Espírito Santo.
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Segundo o MPRJ, a investigação começou após surgirem indícios de que os agentes públicos teriam procurado a Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa que previa a demolição de imóveis ligados à facção em Parada de Lucas, no Complexo de Israel. Os investigadores apontam que eles teriam usado a influência dos cargos para alegar que os imóveis seriam destinados à prestação de serviços sociais, versão que não foi confirmada pelas apurações. A operação acabou sendo adiada.
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