O arquiteto Diébédo Francis Kéré diz que até hoje não consegue acreditar em tudo o que aconteceu com ele. “Sou um cara de sorte. Saí de uma pequena vila na África, tive acesso a educação e agora estou aqui, construindo um equipamento cultural na terra de Oscar Niemeyer”, afirma. Vencedor, em 2022, do Prêmio Pritzker de Arquitetura, o mais prestigiado da profissão, Kéré esteve no Rio em maio para dar início aos trabalhos técnicos da Biblioteca dos Saberes, edifício público desenhado por ele e que faz parte da operação Praça Onze Maravilha — uma revitalização completa proposta pela prefeitura para o entorno do Sambódromo.
Na passagem pela cidade, Kéré comandou uma série de reuniões com a equipe do escritório MPG Arquitetura, de Miguel Pinto Guimarães, parceiro local do projeto, além de encontrar outros profissionais envolvidos na futura obra, prevista para começar em 2027. “Conheci Kéré quando o entrevistei, à distância, para o Congresso Mundial de Arquitetos, em 2020, e nos tornamos amigos. Estou muito feliz de ter a oportunidade de desenvolver junto com ele um projeto dessa importância”, diz Miguel. “Francis é um nome incontestável, tem uma energia incrível e um carisma que dissolve todas as resistências”, completa. Daqui para a frente, as estadas cariocas do arquiteto africano devem se tornar mais frequentes, pois ele pretende acompanhar o nascimento da biblioteca de perto. “A educação mudou minha vida. Todo projeto em que posso retribuir o que recebi é muito importante para mim.”
Quando Kéré era criança, não havia escolas em Gando, onde nasceu, em Burkina Faso. Enviado pelo pai para outra localidade, ele se lembra de dividir uma sala de aula abafada e escura com mais de cem colegas. Anos mais tarde, Kéré ganhou uma bolsa de estudos, foi para a Alemanha, entrou para a faculdade de arquitetura e retornou à cidade natal, antes mesmo de se formar, para erguer uma escola. Ele desenhou o projeto, levantou o dinheiro e trabalhou junto com a comunidade na construção de um edifício que combina materiais tradicionais com soluções engenhosas para vencer o calor. “Meu objetivo era proporcionar conforto e mostrar que era possível usar técnicas conhecidas na região, como as paredes feitas de argila, de um jeito novo”, diz.
Em 2004, a Escola Primária de Gando recebeu o Prêmio Aga Khan de Arquitetura, que valoriza obras de impacto social. Como resultado, o nome de Kéré começou a ganhar projeção. Hoje com escritório em Berlim, o arquiteto é reconhecido por fazer uma arquitetura que respeita o clima e a cultura de cada local. Enquanto estava no Rio, um pouco antes de sair para o almoço em que recebeu a Chave da Cidade das mãos do prefeito Eduardo Cavaliere, Kéré reservou um tempo para esta conversa. Confira a seguir.
O GLOBO – Como é, para você, projetar uma biblioteca próxima à Pequena África, local tão importante para a população negra do Brasil?
DIÉBÉDO FRANCIS KÉRÉ – Desenhar a Biblioteca dos Saberes é uma honra. O projeto me conecta com minhas raízes e encaro o trabalho com muito respeito. Imaginei um espaço de grande força simbólica. Vejo o local como uma possibilidade de o Brasil reconhecer seu passado de dor e construir um futuro para a região baseado na alegria.
Como juntou Brasil e África no desenho do edifício?
Cultura, para mim, é como a raiz de uma árvore: embora nem sempre seja visível, ela nos mantém de pé. Na aldeia onde nasci, uma árvore é um lugar de encontro. Essas ideias estão traduzidas no ponto central do projeto, a Árvore do Conhecimento. No local, os três povos que formaram o Brasil — indígenas, europeus e africanos — serão representados por elementos característicos de suas culturas. Vamos entrelaçá-los de modo lúdico para que os visitantes percebam que os três grupos deram origem ao país. O Brasil também é natureza. Por isso, o paisagismo do terraço será outro fator de destaque.
A escola de Gando recebeu prêmio de arquitetura: impacto social
Enrico Cano
A árvore é uma inspiração recorrente em seu trabalho. Por quê?
Uso a figura da árvore porque ela é uma forma que a natureza encontrou para oferecer abrigo ao ser humano. Também quero lembrar minha origem. Em Gando, mantemos a tradição africana da “palaver tree”: uma árvore no centro da comunidade sob a qual nos reunimos para conversar, protegidos do calor. Debatemos assuntos sérios, chegamos ao entendimento e celebramos. A “palaver tree” simboliza a democracia.
Seus projetos privilegiam a luz e a ventilação naturais. de onde vem essa escolha?
Tudo começou com a Escola Primária de Gando. Embora sem recursos, queria criar um edifício que fosse bonito, durável e proporcionasse conforto. Quando estivesse 40ºC lá fora, a temperatura no interior deveria ficar próxima aos 30º C. Atingi o objetivo com um sistema passivo de ventilação, em que o ar quente do ambiente sobe e escapa por aberturas no alto. Até hoje, em qualquer projeto meu, mesmo se não falta dinheiro, acho importante adotar esse tipo de solução. Precisamos reduzir o gasto de energia e cortar custos desnecessários. O mesmo se aplica aos materiais. Procuro usar o que está disponível no local em vez de trazer um produto caro de longe. O aquecimento global é uma realidade e nós, arquitetos, temos essa responsabilidade em relação à sociedade.
Essa forma de trabalhar, atenta às questões climáticas, deveria ser comum hoje em dia, mas ainda não é. Por que isso acontece?
De modo geral, isso nasce da vontade de se afastar da realidade local e imitar o que vem de fora, como se, assim, você estivesse produzindo alguma coisa melhor. Só que copiar a arquitetura dos países do hemisfério Norte, que são frios, na minha cidade natal, que é muito quente, não faria o menor sentido. Para ser sustentável, a arquitetura precisa aprender com o conhecimento local: ouvir quem sabe como o clima funciona, descobrir quais são os materiais disponíveis e entender como os habitantes da região estão acostumados a construir.
No projeto da Biblioteca dos Saberes, a torre representa a Árvore do Conhecimento
Divulgação
O que você já conhece da arquitetura do Rio? Que lugares visitou?
Pelos livros conheço bastante. Estudei muito a arquitetura brasileira. Mas ver ao vivo é sempre diferente. Entre esta viagem e as anteriores, já conheci o Palácio Capanema, o Parque Lage, o Jardim Botânico, o Sítio Burle Marx, o Museu de Arte Moderna, o Museu do Amanhã. Também fui a Brasília e pretendo visitar São Paulo e Salvador nas próximas vezes.
O que mudou na sua vida profissional depois de ganhar o Prêmio Pritzker de Arquitetura?
Sou visto de outra forma. Na Alemanha, apesar de bastante conhecido, eu era ‘aquela cara bacana que faz escolas’. Depois do Pritzker, a escala das solicitações cresceu. Instituições de prestígio, como o Banco Mundial, me procuram para conversar sobre como a arquitetura pode aprimorar a saúde e a educação. Recebo convites para grandes projetos, como a biblioteca no Rio. Na África, garotos e garotas querem ser arquitetos porque conheceram minha história. Em Burkina Faso, escolas de arquitetura estão sendo construídas. Tudo isso é efeito do prêmio.
Faz 25 anos que a Escola Primária de Gando foi construída. Como está a aldeia hoje?
Só o fato de que as crianças não precisam mais sair de lá para estudar é uma grande transformação. Fizemos também uma escola secundária. Agora os adolescentes podem concluir o ensino médio e, se quiserem, seguir adiante em seus estudos. Tenho planos de erguer um centro de saúde, mas a verdade é que hoje sobra pouco tempo para me dedicar à vila. Penso ainda que não devo construir muito mais em Gando porque o lugar é pequeno e o excesso poderia trazer mais desgastes do que benefícios à população. Quero expandir o que fiz lá para outras regiões de Burkina Faso e, quem sabe, da África Ocidental.
Fora a Biblioteca dos Saberes, que projeto mais empolga você no momento?
O Museu de Las Vegas. É a última grande cidade dos Estados Unidos que não tem um museu de arte próprio. Las Vegas nasceu no meio do deserto e virou um lugar de abundância. Um mundo de fantasia. Criar uma instituição cultural nesse lugar é fascinante.
Você viaja muito. Onde se sente em casa?
Emocionalmente, em Burkina Faso, e intelectualmente, em Berlim, que é onde estudei e tenho escritório. Construí uma casa para mim em Gando. Em Berlim, moro num imóvel alugado, que só decorei. Ambos os endereços ficam em lugares discretos e pouca gente tem acesso a eles. Sou muito reservado.
O que você faz quando quer se desligar do trabalho e relaxar?
Gosto de mergulhar com snorkel e, quando estou em Gando, faço caminhadas noturnas. Saio de casa por volta de 18h e subo uma montanha. Quando a noite cai completamente, começo a ouvir ao longe os barulhos da aldeia: aves gritando, burros zurrando, crianças chorando na hora do banho, pais chamando os filhos para entrar em casa. Deito sobre uma pedra ainda quente do sol e olho as estrelas. Isso me enche de energia. Posso ficar ali por horas.

