O flagra de Carlo Ancelotti cantando o hino do Brasil no jogo contra o Haiti, na última sexta-feira, chamou a atenção e viralizou nas redes sociais. Mas, para quem vive o dia a dia da seleção, a cena não causou surpresa. Na verdade, já era esperada. Antes mesmo da estreia na Copa, o italiano já vinha treinando para aprender a letra e poder se juntar aos brasileiros na cantoria.
Os próprios atletas, membros da comissão e dirigentes da CBF acompanharam parte desse esforço. Em alguns deslocamentos de ônibus, ele pedia para tocarem o hino e tentava decorar a letra. Uma dedicação que também não surpreende quem está no entorno do treinador.
Depois que assumiu o comando da seleção, no meio do ano passado, Ancelotti passou a ter aulas de português. Normalmente “professor” em campo, trocou de lado e se tornou aluno do paulista Roberto Piantino. E de cara mostrou-se empenhado em incluir mais um idioma em seu repertório (já falava espanhol, inglês, francês e um pouco de alemão, além de sua língua materna, o italiano).
— A intenção dele era conseguir se comunicar melhor do que na primeira convocação. Queria evoluir para a segunda, a dos jogos contra Bolívia e Chile (pelas Eliminatórias), em setembro. Ele queria fazer um intensivão para essa entrevista — contou Piantino.
Ancelotti não é seu único aluno no meio do futebol. Ele dá aulas de inglês, por exemplo, para os técnicos Fábio Matias, atualmente sem clube, e Mário Jorge, do Volta Redonda; e de alemão para o lateral-direito Arthur, do Bayer Leverkusen.
Apesar do currículo de Piantino, Ancelotti não chegou a ele por indicação. Interessado em futebol (já trabalhara como colaborador de sites esportivos), o professor assistia à entrevista de Ancelotti antes do jogo contra o Paraguai, em São Paulo, há um ano, quando notou sua dificuldade para compreender o que lhe era perguntado e a necessidade de ser ajudado pelo diretor de comunicação Fábio Seixas. Ali, teve a ideia de fazer contato com a CBF para oferecer seus serviços. O italiano autorizou que passassem seu número de telefone.
— Na quarta-feira seguinte ao jogo mandei mensagem. Logo que desembarcou em Madri, ele me respondeu. E eram 4h30 da manhã lá. Mas fez questão de responder. Nisso, já percebi o grau de seriedade e comprometimento dele, seu interesse em aprender — recorda-se o professor.
O “intensivão” durou cerca de três meses, sempre on-line. O conteúdo era focado no vocabulário do esporte, principalmente do futebol.
As aulas dependiam da disponibilidade de Ancelotti, mas giravam em torno de três a quatro vezes por semana, incluindo alguns sábados. Depois que o treinador retornou ao Brasil para a data Fifa de setembro, a frequência diminuiu drasticamente, e os encontros passaram a ser mais pontuais. O último foi em março.
— A partir daí, ele passou a vir com mais frequência para o Brasil e a ter mais contato com funcionários da CBF. A comunicação lá é toda em português, algo de que ele faz questão. Então, acabou se tornando natural a diminuição da necessidade de aula — afirmou o professor.
As entrevistas do técnico, sempre em português, mostram como ele tem estado cada vez mais à vontade. Na mais recente, na última quinta-feira, negou-se a responder em italiano a uma pergunta feita por um jornalista conterrâneo.
Segundo Piantino, o fato de o italiano e, principalmente, o espanhol terem proximidade com o português ajudou. Mas o treinador tem dificuldade especial em conjugar verbos no passado.
— No português, usamos passado simples. No italiano e no espanhol, é composto. De antemão já sabia que isso seria uma dificuldade. Pode perceber que, em muitas coletivas, ele não diz “O atleta jogou”, mas, sim, “ha jugado” — explicou.
Outro tempo verbal que Ancelotti não conjuga é o imperativo, usado para dar ordens e instruções de forma mais direta. Mas este não por dificuldade.
— Ele falou: “Mas eu não me comunico assim”. E faz todo sentido. Porque você vê que ele se dirige aos comandados de forma mais tranquila.
Como as aulas também envolviam conversas sobre futebol, o treinador compartilhava algumas das experiências vividas em mais de 40 anos de carreira. Como o que considera sua pior derrota já sofrida: a final da Champions de 2007, quando seu Milan perdeu nos pênaltis para o Liverpool após abrir 3 a 0 no tempo normal. Na próxima aula, quem sabe Ancelotti não fale sobre o sonho realizado de ter sido campeão do mundo com o Brasil?

