Olá, caros leitores!
Entre os destaques dos livros desta semana estão um ensaio sobre as marcas que a literatura deixa na vida, uma coletânea de poemas construída a partir de comentários retirados da internet, crônicas que percorrem o samba, o futebol e a história do Rio de Janeiro, além de uma nova edição de “A metamorfose”, de Kafka, e mais uma investigação do inspetor Sopa pelos cenários cariocas.
Na crítica da jornalista Flor Castilhos, o livro ‘ Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano’, consegue encontrar o equlíbrio entre os assuntos pesados que o livro argumenta e a escrita leve com um toque de comicidade. Apesar de ter sido lançado em 2023, Castilhos define o livro como “atual e ousado”.
Boa Leitura!
Livros: Cinco lançamentos da semana (21/06/2026)
CRÍTICA: ‘Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano’, de Oksana Zabuzhko
Editora: Carambaia. Páginas: 176. Preço: R$ 99,90. | Cotação: Ótimo.
Em uma pesquisa tradicional, de caráter científico, o pesquisador busca um olhar de distanciamento ao analisar fenômenos, cultura e comportamento de determinado local. Não é o que acontece em “Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano”, romance de estreia de Oksana Zabuzhko. O livro parte da experiência íntima de uma relação conjugal para tratar de temas coletivos como gênero, sexualidade e geopolítica. O resultado é um convite a um território peculiar, onde a poesia invade a prosa, o corpo reflete a história de uma nação e a pesquisadora se funde ao objeto de pesquisa.
O livro é transgressor ao relatar como a sexualidade, o desejo e as desigualdades entre homens e mulheres têm relação direta não apenas com o cenário político, artístico e cultural de um país, como também com sintomas físicos e psicológicos na saúde de seus cidadãos.
A trama se inicia com um fluxo de pensamentos da narradora-personagem Oksana, após o término de um relacionamento conturbado de nove meses com o escultor Mikola, ambos ucranianos vivendo nos Estados Unidos. A escolha da personagem homônima sugere um viés de autoficção ao livro, uma vez que a autora — assim como a personagem — deixou a Ucrânia durante um período para viver como bolsista e escritora residente nas universidades de Penn State, Harvard e Pittsburgh.
Oksana se mostra uma personagem carismática por evidenciar suas fragilidades, ressentimentos e controvérsias de forma sarcástica e radicalmente humana. Ela está longe de ser uma heroína feminina padronizada comumente escrita por homens e, por isso, galgou uma legião de fãs que, segundo relatos da autora em epílogo escrito para esta edição brasileira, sentiram-se vistas, reconhecidas e até mesmo salvas pela leitura do livro.
Alternância de vozes
O texto é ácido, irônico e ininterrupto — não há separação em capítulos — e a linguagem leve e simples contrasta com a dureza dos fatos apresentados, oferecendo comicidade indigesta a uma narrativa que, a depender do momento, assemelha-se a um monólogo teatral, uma sessão de análise ou uma palestra no estilo TED Talk.
Outro fator relevante é a alternância de vozes narrativas. A personagem fala de si em primeira e terceira pessoa, intercalando relatos com poesias, além de frequentemente dialogar com um suposto público, ao qual se refere como “ladies and gentlemen”.
A conservação de muitos termos em seus idiomas originais no corpo do texto (com tradução em nota de rodapé) também se mostra uma escolha interessante, uma vez que a paixão pela linguagem e as diferenças culturais entre os países são pontos nevrálgicos do romance.
Não à toa, o elo com a personagem Mikola é tão importante: poeta, escritora e apaixonada pelas palavras, Oksana sente falta da sonoridade de sua língua nativa e acaba embarcando em um relacionamento que transcende a identidade individual e se transforma em uma experiência nacional compartilhada. O trauma da separação de Mikola também expõe os traumas de estar separada de seu país, experiência igualmente violenta e dolorosa, mas que, ainda assim, carrega amor.
“(…) a pátria não é simplesmente onde você nasceu, a pátria de verdade é a terra que consegue matar você — mesmo à distância, tal qual uma mãe, que devagar e inexoravelmente mata o filho adulto com sua presença coercitiva, mantendo-o sempre ao seu lado, cerceando qualquer iniciativa ou plano da sua parte.”
Lançado na Ucrânia em 1996, o romance alavancou mundialmente a carreira de Zabuzhko, eleita uma das cem mulheres mais importantes do mundo pela BBC em 2023. Ainda atual e ousado, não só na Ucrânia como nos mais de 20 países em que foi lançado, tornou-se um livro de referência, sobretudo entre as mulheres que, independentemente de seu lugar de origem, lutam diariamente contra a colonização de seus corpos e pesquisam novas formas de resistência e autonomia.

