Terminada a marcha de escoceses pela Ocean Drive, em South Beach, a praia mais famosa de Miami, Graeme Fettes admirava com orgulho uma espécie de diploma. Era um decreto assinado pelo prefeito, Steven Meiner, oficializando o 23 de junho como Dia do Exército Tartan (como é conhecida a torcida do país europeu) na cidade.
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Milhares caminharam pela avenida — muitos usando saia kilt — com cervejas em punho, guiados por tocadores de gaitas de fole e exibindo bandeiras e camisas azul e branca. Interagiram com moradores e policiais e receberam torcedores de outras seleções de braços abertos.
— É inexplicável tudo isso. O que vivenciei ontem e hoje com meu filho são memórias que vamos guardar para sempre — disse o escocês de Coatbridge.
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O evento do dia anterior ao qual ele se refere foi outra marcha, só que em direção ao estádio do time de beisebol Miami Marlins. Os escoceses compraram 8 mil ingressos para o jogo contra o Texas Rangers e fizeram uma apresentação de gaita de fole antes da partida.
A marcha de ontem, segundo Fettes, foi feita a pedido da própria prefeitura. E não é difícil entender o porquê. Com o turismo como principal fonte de renda, Miami Beach teve seus restaurantes e bares tomados por escoceses. A quantidade de bandeiras do país nas janelas e sacadas dos hotéis também entregavam a ocupação. A economia local não teve do que reclamar.
O Exército Tartan começou como uma das muitas histórias da Copa e rapidamente mostrou que também pode ser um filão para quem os recebe. Boston que o diga. Na sede das duas primeiras partidas da Escócia (vitória sobre Haiti e derrota para Marrocos), os bares e restaurantes precisaram repôr, em caráter de emergência, os estoques de cerveja. Martha Sheridan, diretora executiva da agência de promoção do turismo local, revelou à Reuters que a arrecadação de impostos da cidade e do estado de Massachussetts receberia um impulso neste mês de junho.
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Por lá, cerca de cinco mil escoceses foram ao estádio dos Red Sox, time de beisebol da cidade, e também viraram uma atração à parte no jogo. Fizeram tanto sucesso que o presidente do clube enviou uma carta de agradecimento à federação de futebol da Escócia.
De olho no impacto da visita, a prefeita de Boston, Michelle Wu, quer tentar gerar mais frutos. Ao lado da capital escocesa Glasgow, anunciou que as duas a partir de agora são cidades-irmãs.
O futebol é parte da identidade dos escoceses. Só que eles não são competitivos. Em oito Copas (sem contar a atual), nunca avançaram de fase. É a torcida que acaba cumprindo o papel de embaixadora cultural do país.
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Para isso, fazem questão de se desassociar dos ingleses. Enquanto os vizinhos eram vistos como brigões, o Exército Tartan conquista pela simpatia. O que se passou em Boston e em Miami já havia ocorrido na Alemanha durante a Euro de 2024.
— Isso aqui representa a família do futebol porque a função do esporte é unir e não separar — explicou o escocês Shonny Paterson, que vestia uma camisa do Brasil, comprada no dia anterior, junto com sua saia kilt.
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Ao lado do filho e da esposa, com quem participou dos mesmos eventos na Alemanha, há dois anos, o escocês da área de Argyll e Bute desfruta da sua segunda Copa, a primeira em família. Ele guarda até hoje a foto tirada com um amigo no dia do jogo contra o Brasil, na Copa da França, em 1998, a última com a Escócia.
— A Copa da França sem dúvidas foi melhor. Um ingresso custava 250 dólares. Hoje, está 2 mil. Não tenho como ir com minha família. Vamos curtir esta experiência aqui e ver o jogo numa fan fest — explicou.
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Os valores desta Copa são um obstáculo para os escoceses, mas não os impede de festejar. Alguns viajaram sem ingressos mesmo. Dos que têm tíquetes, muitos se organizaram e alugaram ônibus para driblar os preços praticados pelos estados no transporte público nos dias de jogos.
Eles só não sabem se vão driblar mesmo é o Brasil. Mas não perdem a esperança de conseguir sua sonhada primeira classificação.
— Avisa ao Ancelotti que um empate já basta para nós — brincou Graeme Fettes.

