Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo um dia antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever.
Buenos Aires é a prova de que o equívoco nem sempre produz decadência. A capital portenha não possui a eficiência de Tóquio, a riqueza de Nova York ou o brilho de Paris. Mas é interessante de um jeito que só ela sabe ser. Buenos Aires tem personalidade própria. A Argentina atravessou crises que teriam condenado muitas capitais à ruína, mas, caminhando por Palermo ou Recoleta, a sensação é de uma cidade que reage contra o próprio declínio. Os prédios carregam marcas do tempo e as calçadas revelam décadas de improviso, mas a vida cultural e gastronômica continua lá. Não tenho dúvidas de que cultura é resultado de um processo histórico que pouco tem a ver com riqueza material.
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Passei três dias lá em um fim de semana recente. O choque de realidade começa no bolso: os preços estão assustadores. Exceto pelo vinho, Buenos Aires hoje habita a mesma faixa de preço de São Paulo, quando não a supera. Para ajudar o viajante a não queimar pesos em vão, preparei uma lista do que vale a pena e do que é pura teatralidade vazia.
Aramburu: a técnica sem risco
Único biestrelado da cidade, na Recoleta, o restaurante entrega um serviço eficiente e uma execução técnica irrepreensível. O problema? Falta risco. Em uma era em que os grandes menus degustação buscam criar linguagem própria, o Aramburu parece satisfeito em executar clássicos contemporâneos com enorme competência. É muito bom, de fato, mas talvez caro demais para ser “apenas” muito bom. Se dinheiro não for o problema e você busca apenas prazer sensorial, vá. Mas não espere ser desafiado.
Nuestro Secreto: a inércia do luxo
Instalado no Four Seasons, também na região da Recoleta, entrega uma experiência correta e agradável, mas raramente empolgante. Não há erros graves, mas também não há grandes acertos. É o tipo de lugar “intermediário” que cobra como se fosse o destino final. Caro, bem caro, para uma entrega que não tira ninguém da zona de conforto.
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Corte Comedor: a grande surpresa
Parrilla de verdade, sem discurso sobre defumação, pinças desnecessárias ou camisas do Maradona penduradas para forçar autenticidade. Apenas carne excelente, domínio técnico da grelha e uma compreensão rara de que tradição não precisa ser conservadora. De todos os lugares visitados, este em Belgrano é o que apresenta o preço mais justo pela entrega. É a inovação respeitando a história.
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Fora dos restaurantes, é parada obrigatória. Em tempos de cartas previsíveis, a loja em Palermo oferece algo raro: curiosidade. Há produtores pequenos e regiões menos óbvias que dificilmente apareceriam em prateleiras convencionais. É o lugar para quem quer beber a Argentina diversa que não aparece nos rótulos de importação.
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Niño Gordo: o fenômeno de plástico
Aqui, o volume visual e o excesso de estímulos tentam substituir o sabor. Não conseguem. O restaurante se tornou um fenômeno de Instagram, mas a conta chega com ambições de alta gastronomia que a comida não sustenta. Gastar o equivalente a R$ 350 em um katsu sando de carne bovina absolutamente medíocre é uma experiência memorável apenas pelo arrependimento. Fuja: é cilada para turista digital.
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Lugares que não visitei desta vez, mas que habitam o imaginário (e as listas de espera) da cidade:
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- Mishiguene: cozinha judaica com foco em sabor
- Anchoita: onde o produto é valorizado
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Buenos Aires, afinal, nos ensina que a perfeição é um tédio. Que o que importa é a resistência e que a transformação depende do conflito. E, em meio ao caos, uma taça de bom Malbec (sim, eles existem) para acompanhar o seu admirável declínio.

