— Acho que nunca gritei tanto um gol na minha vida e não poderia ser diferente — afirma o radiojornalista Moisés Évora, a voz onipresente nos corações cabo-verdianos que narra os feitos históricos da seleção queridinha desta Copa do Mundo diretamente dos Estados Unidos. Aos 64 anos, o locutor é um dos símbolos máximos do jornalismo esportivo no país. Com doçura, simpatia e muita inteligência, o pianista nas horas vagas uniu referências da própria cultura à paixão pela música e pelo futebol nas descrições emocionadas das primeiras duas partidas de Cabo Verde no Mundial.
Uma estreia desafiadora. Cabo Verde, um dos estreantes nesta Copa do Mundo, jogou a primeira partida da fase de grupos contra a Espanha — favorita deste Mundial, liderada por Yamal, Nico Willians e companhia.
— Todo mundo falava que a Espanha iria golear Cabo Verde, mas a seleção nacional fez um jogo inteligente, utilizando as suas armas, sabendo que não podia jogar de igual para igual com a Espanha. Jogamos com inteligência, com uma enorme solidariedade e com grande Vozinha entre os postes — disse Moisés, animado.
No primeiro confronto não teve grito de gol, mas o locutor narrou a grandiosa partida do goleiro Josimar Dias, apelidado de Vozinha. O atleta foi destaque no mundo inteiro, mas, para Moisés, era apenas mais uma das grandes atuações do “arqueiro”.
— A propósito do Vozinha, preciso dizer uma coisa. Eu, que tenho acompanhado a seleção nacional durante muitos anos, afirmo que o Vozinha tem feito exibições fantásticas no continente africano. Não há tanta visibilidade dos órgãos de comunicação social, mas ele tem feito exibições extraordinárias e, frente à Espanha, vimos mais uma grande exibição — comentou.
Na segunda partida, quando Kevin Pina balançou as redes diante do Uruguai, no último domingo, Moisés Évora deu a sua contribuição para que o mundo entoasse, junto com ele, o grito que todo cabo-verdiano esperava nesta Copa do Mundo. Foram pelo menos dois minutos repetindo a mesma palavra, na Rádio Nacional de Cabo Verde (RCV), como se não acreditasse no que estava vendo diante de seus olhos.
Junto à emoção, o locutor ainda arrumou espaço para ser poeta. — Tira as mãos da cabeça e coloque-as nos bolsos, porque já não é mais escravo — disse após Pina abrir o placar. A frase, referência à literatura cabo-verdiana e ao orgulho de ter resistido ao período escravocrata, veio acompanhada de mais uma referência à cultura do país.
— Queria ser poeta para dedicar-te um mar de poesia — completou Moisés, usando uma das composições de Paulino Vieira, multi-instrumentista cabo-verdiano. Ao tentar arrumar palavras para descrever a emoção em ver o próprio país fazendo história “no maior palco futebolístico do mundo”, como ele mesmo descreveu, conseguiu colocar o próprio coração e de todo o povo cabo-verdiano em um mesmo grito de gol.
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No segundo gol diante do Uruguai, que garantiu o empate e o segundo ponto na Copa do Mundo, o grito de gol veio acompanhado de alívio — era a sobrevida na competição, recheada de emoção na cabine da RCV no estádio e, também, no campo.
Benvindo Neves, comentarista companheiro de Moisés nas transmissões da RCV, percebeu que Wagner Pina, no banco, correu aos prantos para abraçar Hélio Varela após o gol de empate. Wagner, de 23 anos, é o atleta mais novo na delegação de Cabo Verde e, por meio do rádio, a sua emoção e o abraço no responsável pelo segundo gol cabo-verdiano foram estendidos a todo o país.
Confira as narrações de Moisés nos gols de Cabo Verde nesta Copa do Mundo:
Relator, como dizem no português de Cabo Verde, refere-se à profissão de locutor, ganha-pão e paixão de Moisés Évora há pelo menos 40 anos. Ele contou ao GLOBO que, antes de narrar profissionalmente, brincava de narrar partidas com os amigos de infância, na rua mesmo.
— Antes, brincávamos de relator nas ruas e em alguns campos de futebol. Na altura, brincávamos inclusive com latas de suco (que simulavam traves). Fazia-me de relator para brincadeiras e fui gostando, acompanhando também grandes narradores brasileiros. — disse.
O locutor, pianista e grande entusiasta da música, é grande fã do Brasil além da comunicação, como muitos cabo-verdianos, segundo ele. Entre as figuras admiradas estão Fafá de Belém e Daniela Mercury, com quem Moisés já esteve junto e tietou como bom fã.
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Voltando à história profissional: em 1985, ingressou na Rádio Nacional de Cabo Verde e, desde então, acompanha o esporte e a seleção onde quer que ela esteja no continente africano — e agora ao redor do mundo. No início das transmissões, passou por algumas situações difíceis, que não tiraram a vontade de continuar narrando.
— O primeiro relato foi num caminhão, porque, na altura, não havia cabine no campo. Estou a falar, obviamente, dos anos 80, em que não tínhamos grandes condições — contou com bom humor. Em outra ocasião, numa partida realizada na capital de Camarões, Iaundé, lembrou de outro desafio. — Fizemos uma viagem de mais de cinco horas apenas para chegar ao estádio naquela partida. E, depois, na volta, foi a mesma coisa — relembrou.
Moisés também contou ao GLOBO que as locuções e transmissões da RCV foram fundamentais para estabelecer o apelido de Tubarões Azuis, nome que hoje faz referência e é o apelido oficial da seleção cabo-verdiana.
— Lúcio Antunes estava a chamar a seleção nacional de Tubarões Azuis. Sabendo disso, fomos ao relato e dissemos: “Estão a chamar aqui a seleção nacional de Tubarões Azuis” e, olha, pegou destaque, graças a Deus — revelou. Antunes, a quem Moisés atribui a origem do apelido, foi auxiliar-técnico da seleção de Cabo Verde entre 2008 e 2009. Em 2010 foi anunciado como técnico e levou Cabo Verde à primeira Copa Africana de Nações em 2013. O treinador teve mais uma passagem curta em 2016 e ficou marcado na história do país.
— Em Cabo Verde vive-se intensamente a Copa do Mundo, sempre foi assim, quanto mais agora com a seleção no Mundial. Acredito que há um cabo-verdiano em todos os cantos do mundo, dada a nossa enorme diáspora e, por isso, a festa tem sido muito forte — disse Moisés, alegre, referindo-se ao momento histórico que os tubarões azuis vivem na Copa do Mundo.
Cabo Verde enfrenta a Arábia Saudita nesta sexta-feira, às 21h, pela terceira rodada do grupo H. No momento, o sonho da classificação permanece vivo. A Espanha é a líder, com 4 pontos. Uruguai e Cabo Verde disputam a segunda e terceira posição, ambas seleções com 2 pontos. A Arábia Saudita, por sua vez, tem apenas um pontinho.
Uma vitória levaria os cabo-verdianos aos 5 pontos e os colocaria na briga pela classificação. Para Moisés, tudo é possível e, novamente, ele descreve a situação como um poeta.
— Espero uma entrega fortíssima diante da Arábia Saudita. Capacidade de sofrimento e capacidade de saber, também, encontrar forças em momentos difíceis, como a seleção já demonstrou várias vezes nesta competição. É como costumo dizer nas narrações: o tubarão foi ao fundo do mar buscar forças para dar um salto para o céu — concluiu. Nesta sexta, sob o olhar atento e narração de Moisés Évora, Cabo Verde mergulha mais uma vez na Copa do Mundo, querendo saltar e alcançar o céu.

