Nos últimos meses, comerciantes de Niterói passaram a relatar um aumento de furtos a estabelecimentos, sobretudo durante a madrugada, principalmente em Icaraí e no Centro. As queixas, que se multiplicam em redes sociais e grupos de mensagens, contrastam com os dados oficiais do Instituto de Segurança Pública (ISP), que apontam variação discreta no número de registros: foram 32 casos de furto a comércio entre janeiro e maio deste ano, contra 41 no mesmo período do ano passado.
Área sensível: Roubo de carros é ‘calcanhar de Aquiles’ da segurança pública em Niterói, diz comandante da PM
Polêmica: Vereador do PL dá voz de prisão a subsecretário de Niterói após interdição de festa junina no Caio Martins; vídeo
A diferença entre percepção e estatística, no entanto, acendeu um alerta entre representantes do setor produtivo e especialistas em segurança pública, que apontam a subnotificação como um dos principais fatores para a distorção do cenário real da criminalidade. Em resposta, o Centro de Dirigentes Lojistas (CDL) de Niterói lançou uma campanha para incentivar empresários a registrar formalmente todas as ocorrências, inclusive aquelas consideradas de menor impacto financeiro.
A iniciativa surge em meio a um debate mais amplo sobre a chamada “cifra oculta” da criminalidade — expressão usada na criminologia para definir os crimes que não chegam ao conhecimento oficial das autoridades. Esse foi um dos pontos debatidos durante a mais recente reunião mensal do Conselho Comunitário de Segurança (CCS), realizada no início do mês.
Comandante do 12º BPM (Niterói), o coronel Júlio Cesar da Silva destaca a importância do registro formal das ocorrências para o trabalho da polícia. Ele também chama a atenção para situações em que vítimas deixam de formalizar o crime mesmo após a atuação da polícia.
— O que a gente sempre faz aqui é estimular as pessoas a informarem o caso, até porque já aconteceu de existir prisão em flagrante do indivíduo e, chegando na delegacia, o proprietário do imóvel não ter feito o registro. A gente trabalha com o que tem, mas precisa dessa conscientização. Sem notificação, fica tudo no campo do empirismo e do achismo— afirma.
Debate nas redes sociais
Na mesma linha, o presidente da CDL Niterói, Luiz Vieira, diz que muitos comerciantes optam por não formalizar os casos por considerarem o processo burocrático ou pouco efetivo. Segundo ele, essa escolha acaba deslocando o debate para as redes sociais, onde as ocorrências ganham maior repercussão pública do que nos sistemas oficiais.
Falsa veterinária presa em Niterói: Conselho pede investigação após uso de registro de outra profissional e castrações clandestinas
— Ele não faz o registro na delegacia, mas corre para as redes sociais. Isso cria um clima de insegurança que nem sempre reflete o que está acontecendo de fato. O importante é registrar, porque sem isso não há como dimensionar o problema — frisa.
Vieira defende que o registro on-line pode reduzir a resistência dos comerciantes de formalizar as ocorrências e contribuir para um retrato mais fiel da realidade da cidade. Para ele, a divulgação informal dos crimes também pode ampliar a sensação de insegurança, ainda que não corresponda necessariamente à dimensão real dos casos.
Um dos casos recentes que ganharam repercussão em Niterói envolveu um comerciante do bairro de Icaraí que relata ter sido vítima de uma sequência de furtos ao longo dos últimos meses. Rogério Rossetti, dono de uma franquia de fast-food na região, afirma que o estabelecimento foi invadido seis vezes desde dezembro de 2025, com prejuízos acumulados superiores a R$ 30 mil.
O empresário, que também tem uma loja de materiais de construção no mesmo bairro, relata ainda sucessivas invasões ao segundo negócio e afirma que, diante das perdas recorrentes, decidiu colocar o ponto à venda. Segundo ele, os criminosos levam principalmente fios elétricos, tubulações de cobre e equipamentos de ar-condicionado.
— A gente fica desanimado porque registra e não acontece nada. O que adianta é ir para a mídia, é reclamar. Eu vou ficar registrando para quê? Para ser estatística? Eles sabem o que está acontecendo — desabafou.
A leitura sobre a subnotificação também é compartilhada por investigadores da Polícia Civil. Na 77ª DP (Icaraí), a investigadora Jéssica Peixoto afirma que o acompanhamento das ocorrências depende diretamente da formalização dos registros, que permitem a identificação de padrões e a atuação em série contra determinados grupos criminosos.
— Se não é notificado, não tem como sabermos e trabalharmos em cima disso. Muitas vezes, com os registros, conseguimos identificar o modo de operação dos autores, que se repete em diferentes casos. Isso ajuda em investigações em grupo e no reconhecimento de reiteração criminosa— explica.
Segundo ela, a troca de informações entre a população e a polícia, inclusive por canais informais, como os grupos de Segurança Pública, que reúnem moradores e representantes das polícias civil e militar, também auxilia na investigação, mas não substitui o registro oficial.
Informações importantes
Já o investigador Lucas Brizola, da 76ª DP (Centro), reforça que a ausência de comunicação formal de crimes é um fenômeno conhecido na criminologia. Para ele, a subnotificação compromete a capacidade do estado de compreender a real dimensão da criminalidade.
— Muitas vezes a vítima não formaliza o crime e posta nas redes sociais. Mas a polícia trabalha com informação. Mesmo um furto pequeno pode ajudar na identificação de um autor que pratica vários crimes. Se ele não cai hoje, pode cair amanhã com base em registros anteriores—afirma.
Recuperação: Policial civil baleado após confundir colegas com criminosos passa por cirurgia depois de sofrer fratura exposta
Brizola destaca ainda que a repetição de padrões criminosos torna os registros fundamentais para investigações mais amplas.
— São poucas pessoas que cometem muitos crimes. Quando há registro, conseguimos fundamentar pedidos de prisão e demonstrar a contumácia do suspeito. Sem isso, ficamos sem base— diz.
No campo da análise institucional, o chefe do Observatório de Segurança Pública de Niterói, Luciano Avelar, pondera que o aumento de registros nem sempre indica piora da criminalidade, podendo refletir maior confiança da população nas instituições de segurança. Ele destaca que pesquisas de vitimização são instrumentos mais precisos para medir a subnotificação, mas ressalta que fatores como cultura de registro, acesso aos serviços e percepção de eficiência policial influenciam diretamente o comportamento das vítimas.
— Nem sempre o aumento dos registros é uma coisa ruim. Pode significar maior confiança nas instituições. A subnotificação também depende do tipo de crime e do valor do bem subtraído. Um veículo, por exemplo, quase sempre é registrado. Já outros casos podem não ser— explica.
Initial plugin text

